Qual é a cara da rua? Talvez a pergunta ecoe os passos de um dos primeiros imortais da Academia Brasileira de Letras, o cronista e jornalista João do Rio, pseudônimo de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto (1881-1921), que dizia, com precisão quase mística, que “as ruas têm alma”. E é essa alma – vibrante, ruidosa, viva – que pulsa nas calçadas dos cariocas, nos trânsitos humanos que atravessam a cidade. E mais: é essa alma que veste, expressa e desfila o carioca way of life e o streatwear. Na semana passada viralizou uma thread no X (antigo Twitter) e no TikTok da turista estrangeira Lucy Ting, em que ela se derretia pela beleza espontânea dos cariocas. O que mais a encantou? Aqueles flagrantes sinceros: homens de camisetas, nas praias, no dia a dia – registros da vida pulsante, transpirando pelas frestas da cidade. Assim como esses corpos testemunham a beleza do cotidiano, a estética do upcycling também é filha legítima da rua. O termo pode ser traduzido como redesign inteligente – um cruzamento entre moda e sustentabilidade, que propõe dar nova vida a tecidos, roupas e acessórios que seriam descartados. É o famoso “faça você mesmo”, mas elevado à potência artística. É protesto e poesia em cada peça.
Inspirada por essa força coletiva e estética, eu resolvi fazer um flashback de uma importante Roda de Conversa promovida pela Faculdade SENAI CETIQT com o tema “A cultura de rua e das favelas influenciando a moda sustentável e acessível“. O evento foi promovido em sinergia com a Semana Fashion Revolution que, em 2025, propôs: “Pense Global, Aja Local: Quem é o Brasil na Revolução da Moda?”. Refletimos sobre o vestir das ruas e os novos paradigmas da moda brasileira. O encontro colocou sob os holofotes vozes de designers que, entre linhas e texturas, redesenham o futuro da moda de forma mais justa, sustentável e acessível. Porque ali, entre as mãos que trançam, costuram e pintam, está também uma declaração de identidade. E ainda, os métodos e ferramentas que utilizam em suas atividades, os caminhos do processo criativo e as inspirações que movem os estilistas na criação e produção de suas expressões artísticas.
No centro da roda, a fala criativa de Carol Braz, 28 anos, à frente da sua marca D’Cria, é estilista cria do Vidigal e também da Cruzada, no Leblon, que atua com upcycling, styling e customização, além de ser referência como trancista entre as mulheres da comunidade. Seu trabalho carrega o jeans como matéria poética: roupas, bolsas, chapéus ganham novos sentidos e vestem corpos com atitude e pertencimento. Cada dobra de tecido é um gesto político, cada costura é um manifesto de orgulho.

Looks D’Cria by Carol Braz (Reprodução/Instagram)
Dividindo a cena com Carol, estava o artista plástico e designer de moda Matheus Passos, cuja obra se move entre o ateliê e a rua. Ele cria “obras vestíveis” – verdadeiras “pinturas” feitas a partir de peças garimpadas em brechós ou com tecidos resgatados do descarte. Seu universo criativo gira em torno da racialidade, religiosidade e realidade carioca. Com símbolos como penteados afros, plantas tropicais, animais da mata e corpos reais, Matheus transforma a roupa em tela, e a rua em galeria. Seu trabalho rompe o molde eurocêntrico e propõe uma estética plural. A conversa entre eles foi mediada com sensibilidade por Bárbara Romero e Lorrany Alves, e trouxe à tona o protagonismo de artistas que vêm ressignificando a moda não apenas como produto, mas como linguagem – um canal de memória, afeto e política.

As roupas garimpadas em brechós por Matheus Passos são pintadas e transformadas em arte (Reprodução/Instagram)
Assim como Matheus, Carol entende que vestir-se é também um gesto de resistência. Ela não apenas costura roupas – ela reconta memórias. O que seria resíduo vira recurso. O que seria perda vira potência. Nas mãos deles, a moda não é espetáculo: é vivência. É pele. É rua. Carol Braz e Matheus Passos são movimento. Criam com o que foi descartado, costuram com o que sobrou. Porque a moda, quando é de verdade, não se limita à vitrine: ela se pendura na memória afetiva, se dobra nas esquinas, se espalha no corpo como quem diz: “Eu estive aqui”.

“O brechó é minha paixão, eu amo garimpar. Eu pego as peças e transformo e é isso que me encanta de verdade” (Foto: Reprodução/Instragram)
E é esse rastro – entre a linha, a tinta e o olhar – que Carol e Matheus continuam desenhando com a beleza firme de quem entende que criar também é cuidar. Ressignificam o que o sistema ainda hesita em acolher. Renovam com coragem o que parecia sem valor. Suas obras desfilam por aí, entre uma esquina e outra, com a força e a beleza da alma carioca. Porque se, como escreveu João do Rio, as ruas têm alma – é na roupa que essa alma se veste.
A ALMA DAS RUAS. AS RUA NAS ROUPAS
Nos últimos cinco anos, o upcycling deixou de ser nicho e encontrou seu em ápice. É comum, sim, ver peças que misturam tricoline com moletom, tule com jeans, alfaiataria com esportivo. Essa pluralidade estilística pode produzir contrastes poderosos. A técnica exige um olhar refinado, mas sobretudo, o domínio técnico: saber costurar tecidos com diferentes elasticidades, encaixar texturas dissonantes em harmonia estética. O segredo está no toque e no olhar! E mais do que estética, trata-se de consciência. O upcycling nos convoca a repensar o ciclo produtivo, os impactos ambientais da indústria têxtil, a origem das peças que vestimos, quem as fez. É uma moda com propósito – que questiona, revela, subverte. Há alguns anos, o upcycling era tendência; hoje é realidade. É ferramenta para ressignificar materiais e, com eles, as nossas próprias histórias.
Em 2019, Carol Braz começou com um brechó e, entre uma peça e outra garimpada no asfalto, conheceu a costura através de um projeto social na Providência. Foi ali que tudo mudou. “Comecei a costurar e me apaixonei”, ela diz. O brechó foi, aos poucos, se transformando em uma marca. E a Brechó de Cria nasceu oficialmente em 2023, carregando nas linhas e agulhas uma proposta de vida: o upcycling como ferramenta de reinvenção. “O brechó é minha paixão, eu amo garimpar, amo ter contato com isso. Eu pego as peças e transformo, e é isso que me encanta de verdade – muito mais do que fazer do zero, pegar um tecido do zero. Eu gosto de ver a transformação. Essa é a forma de a gente aproveitar as coisas, mostrar a versatilidade dos produtos. Isso é muito importante”, diz Carol, que transforma não só peças, mas percepções.

“Sou cria do Vidigal e também da Cruzada, no Leblon” (Foto: Reprodução/Instagram)
O jeans, aliás, é sua assinatura estética – e política. “O jeans é universal, vai com tudo em todas as ocasiões. No entanto, para se fazer uma calça, a indústria utiliza mais de 15 mil litros de água. É demais, é desperdício. E muitos descartam porque, daqui a pouco, vem outro estilo, outro corte”, analisa ela, que vê nessa peça um território fértil de ressignificação e consciência.
Já Matheus Passos – estilista, artista plástico e ex-aluno da Faculdade SENAI CETIQT, formado em 2016 – encontrou sua voz criativa pintando roupas desde os 14 anos, em meio a tecidos herdados, brechós familiares e uma ancestralidade costureira. Aprendeu a costurar com a tia e, insatisfeito com os caminhos pouco sustentáveis do mercado da moda tradicional, decidiu trilhar sua própria rota: mais ética, mais afetiva, mais plural. “Toda a minha família tem envolvimento com isso. Escolhi a moda como uma forma de exercitar algo de que eu sempre gostei”, conta. Ao compreender a roupa como superfície artística, Matheus passou a investir na customização de peças já existentes – por escolha estética, sim, mas também por urgência ecológica. “Produzir gera muito resíduo, gera muita questão ambiental. É caro e, culturalmente, não damos o valor que deveríamos dar para as roupas”, ele pontua.

Matheus Passos é designer, artista plástico e ex-aluno da Faculdade SENAI CETIQT (Reprodução/Instagram)

Matheus Passos é designer, artista plástico e ex-aluno da Faculdade SENAI CETIQT (Reprodução/Instagram)
Grande parte da minha pintura é sobre o cotidiano, são pessoas que eu vejo na rua, pessoas que passam na feira que eu frequento, vizinhos, pessoas conhecidas que eu tento pintar porque eu as acho belas. Isso é importante para a gente gerar esse afeto com as peças de roupa. Quando a gente tira a esfera do afeto, tudo vira algo consumível e descartável – Matheus Passos
Essa dimensão emocional também se estende ao modo como Matheus vê os processos criativos do upcycling: “Muitas vezes nós desenvolvemos afeto com essas pessoas com quem a gente convive. Com os brechós que a gente frequenta, os lugares onde a gente garimpa. Normalmente são pessoas próximas e se tornam laços de relação. Isso é muito importante. Existe toda uma esquemática de diminuir a essa ideia do afeto na roupa. Quando a gente ressignifica, reforma, repara, tudo isso é história. Trazer para a esfera da pintura é uma forma de materializar essa realidade que eu vivo”.

Matheus Passos: “É afeto. A pintura é uma forma de materializar essa realidade que eu vivo”
Tanto para Carol quanto para Matheus, a estética nasce de uma ética.Criar é resistir. Costurar é lembrar. Transformar é devolver dignidade às roupas – e a quem as veste. “A gente lida muito com a escassez, com a falta”, diz Carol. “Acho que daí vem a minha paixão pelo brechó, pelo fato de não ser tão acessível o espaço do shopping, comprar roupa numa loja. Mais profundamente, como mulher negra, é um ambiente um pouco ríspido, não são lugares onde eu me sinto confortável para transitar e escolher a roupa que eu quiser. É o contrário do que eu sinto no brechó, onde podemos experimentar, fazer 10 milhões de looks se quisermos e, se não quisermos levar nada, está tudo bem. Você é bem recebida”.

Carol Braz: “O jeans é universal e versátil. É minha paixão” (Reprodução/Instagram)
E é neste território livre, criativo e cheio de possibilidades que ela encontra seu propósito: “Por isso eu cheguei no upcycling, pela questão da sustentabilidade e por querer transformar o que já existe. Para lidar com o fato de sempre haver excesso, de sempre querermos ter mais, comprar mais. É uma tendência, uma moda diferente a cada semana, a cada minuto. Quando eu pego uma peça e transformo e vejo as pessoas usando aquilo, se conectando com a sua criatividade, se encantando com isso – é incrível. É o que me move de verdade”.
PERSONALÍSSIMOS
A moda pode começar em silêncio – um toque leve sobre um tecido esquecido, uma dobra mal resolvida no fundo da gaveta, uma peça abandonada em cabide de brechó. Mas, cedo ou tarde, ela fala. E quando fala, revela. Diz quem somos, de onde viemos, o que desejamos e até aquilo que tentamos esconder. Para Matheus Passos e Carol Braz, esse discurso não é produzido em passarelas de luxo, mas bordado na rua, trançado nos becos, composto com o que se tem – e com tudo aquilo que se sente. Matheus vê a roupa como um gesto íntimo, quase biográfico. Para ele, vestir-se é carregar histórias, vínculos, texturas que nos atravessam. Sua criação artística carrega essa percepção como matéria-prima.
No universo de Carol Braz, o afeto também tem cor, forma e tecido – e muitas vezes está recortado no jeans. Seu trabalho com a peça mais democrática do guarda-roupa é tanto uma escolha estética quanto uma crítica afiada ao consumo desenfreado.
Fragmentos de vivência que não apenas moldam as roupas que criam, mas revelam a essência de quem são. Há uma verdade que atravessa ambos: a moda que produzem não nasceu no conforto, mas na batalha diária por espaço, reconhecimento e permanência. E isso, por si só, já diz muito sobre a alma de suas marcas. Matheus lembra que, para quem vem da margem, a dificuldade é condição de origem. “Dificuldade é o que a gente mais passa. Acredito que eu posso até falar por ela quando digo isso, porque não tem como não passar por perrengues. A faculdade cria uma base para que vocês desenvolvam possibilidades. Então, sempre que forem desenvolver trabalhos, imponham as próprias limitações. Limitações de orçamento, de tempo, de espaço, porque ideias a gente cria mil, mas executar é muito difícil, especialmente num curto espaço de tempo, com pouco material e com pouco orçamento”.

Matheus Passos: “Grande parte da minha pintura é sobre o cotidiano, são pessoas que eu vejo na rua” (Reprodução/Instagram)
A arte em forma de roupa é pura generosidade estética. Matheus imprime cenas do cotidiano e, inevitavelmente, inspira. E, com isso, escuta vozes que o intrigam: “Nos ambientes que eu frequento com as minhas pinturas, ouço pessoas falando sobre outros pontos de vista sobre a pintura. Se isso me desagrada? Não. O propósito do meu trabalho é que as pessoas que queiram colocar criativamente as suas ideias em peças que já existem se sintam impulsionadas a fazer. Quero que mais pessoas usem essa superfície têxtil para mostrar sua criatividade, sua arte. É importante termos essa pluralidade de realidades”.
Carol Braz, por sua vez, compartilhou um episódio corriqueiro, mas revelador, do processo criativo. “Houve um dia em que eu estava produzindo e a chuva começou a molhar tudo. Molhou uma bolsa de retalhos. É com isso que a gente lida todo dia. Coisas que pessoas com mais acesso não lidam. Elas têm a tranquilidade, têm o espaço, têm o tempo”.
É importante sempre acreditar, fazer e acreditar no seu trabalho, na sua identidade. Se expressar através da moda com identidade. Porque é muito fácil a gente se deixar levar pela onda, pelo que já está sendo feito, e onde não conseguimos nos ver ali. Às vezes, a gente precisa criar espaços. Chegar ao objetivo é questão de tempo. Tem que manter o foco, continuar trabalhando e acreditar no seu propósito, acreditar naquilo que você constrói na sua arte, na sua identidade – Carol Braz
Mas nem tudo é poesia. Há um veneno persistente no olhar do mercado: o julgamento. A falsa ideia de que aquilo não é legítimo. Carol conhece esse desconforto. “Eu já liguei muito para isso. Quando você está começando, dá muita importância para essas coisas, porque quer estar naquele espaço onde a pessoa já está. E aí, quando você de fato está ali, enxerga que o importante é ser você, ser único. Não se abater com essa desvalorização do seu trabalho. Quando você é convicto do que acredita, isso não abala”.

Carol Braz: “É importante sempre acreditar e se expressar através da moda com identidade” (Reprodução/Instagram)
Matheus concorda, e aprofunda o ponto: “Muitos criaram na moda um cenário em que consumir mais por um valor menor é melhor, mas isso não condiz com a realidade. É preciso consumir melhor por um valor mais justo. Todas as pessoas que passam por essa história da roupa precisam ser remuneradas. Atualmente, eu trabalho com dois brechós beneficentes. Todo o valor das peças que eu compro vai para esses projetos sociais. Quando a pessoa pede para eu tirar um valor da minha peça, ela está tirando disso também. Então, eu preciso impor o meu valor para que isso demonstre, também, o quanto essa peça é importante. Todo mundo precisa ser remunerado de forma justa”.

Matheus Passos: “As referências do candomblé não vão só nas pinturas das pessoas dançando, mas na proximidade que têm com a natureza”

Matheus Passos: “As referências do candomblé não vão só nas pinturas das pessoas dançando, mas na proximidade que têm com a natureza”
Ele volta ao início de sua caminhada, quando tentou estabelecer relações justas com as costureiras, muitas vezes desvalorizadas. “Quando comecei com minha marca autoral, conversei muito com as costureiras, que normalmente são acostumadas a serem desvalorizadas no mercado. E isso tende a gerar um problema muito sério, inclusive de autoestima. Acredito que parte delas não sabe o quanto é importante, para uma marca existir, que as costureiras sejam bem remuneradas e capacitadas. Muitas vezes, eu perguntava quanto ia custar tal peça e elas respondiam: ‘Você que fala o preço.’ Eu respondia: ‘Não, estou pedindo um serviço, são vocês que têm que me dizer o preço.’ Me davam preços muito baixos. E eu dizia que não estava justo, que precisávamos conversar: ‘Vamos chegar nesse valor aqui’. Então elas aceitavam”.
Elas me confidenciavam valores que eram pagos por marcas grandes – irrisórios. Isso gera um problema estrutural na moda: quem fabrica não pode comprar. Então, temos um problema – Carol Braz
Matheus enxerga nas marcas independentes um ponto de inflexão. Um novo caminho. “Nesse ponto, marcas como a nossa chegam para acrescentar no mercado. Você traz essa realidade, tenta fazer com que as pessoas se enxerguem e manter isso acessível o suficiente para que elas consumam. Só que existe uma dificuldade muito grande de proporção: não tem como a gente competir com um mercado enorme. É muito complicado. Mas nós vamos nas lacunas que vão dando para a gente”.
GARRA
Diante das intempéries diárias, das incertezas que atravessam a criação e a economia, há algo que sustenta – com costura firme – o trabalho de quem cria com as mãos, com o corpo e com a fé. É desse lugar que fala Carol Braz:
Eu amo o que eu faço, é onde eu tenho paz. Essa paixão é o que me mantém firme, acreditar, de fato, que vai dar certo de acordo com o que eu acredito. A minha marca é muito de cria para cria. A D’Cria é isso, criar, mostrar que é acessível para todos nós, que a gente que é cria consegue se vestir bem, que a gente consegue reinventar além da moda que é imposta – Carol Braz

“Eu tenho uma peça e transformo. Ver as pessoas usando, se conectando com a criatividade, é incrível” (Reprodução/Instagram)
A moda, nesse caso, não vem do luxo, mas da luta. Ela brota da necessidade, floresce do afeto. Para Matheus Passos, criar é traduzir-se: um gesto íntimo de sobrevivência emocional e espiritual. “Parte do meu trabalho é sobre me traduzir e me entender. Grande parte do que eu produzo é um diálogo comigo mesmo, são questões pessoais, são coisas que eu coloco na pintura que vão além do que eu consigo raciocinar. O que me manteve firme foi o fato de isso fazer bem para mim, psicologicamente falando. Eu tentei me desvencilhar desse lado criativo, buscar outra forma de sobreviver, e eu adoeci. Em todas as esferas eu fiquei mal. Então percebi que, no momento em que faço algo em que acredito, é o momento em que me sinto vivo”.
E essa vitalidade não vem apenas da arte – mas da espiritualidade. Matheus costura as telas com fé e reverência. “No meu caso também tem a questão da fé. Eu coloco muito da minha religião nas pinturas, coloco menções ao candomblé, à umbanda, ao povo de rua e a todas as entidades em que acredito. Isso é muito importante, é algo que me solidifica muito na minha área. A gente vai construindo com o que tem”. Com o que se tem – e às vezes é pouco. Porque não basta talento quando o cotidiano desafia até a energia elétrica. “Não sabemos se num dia vai chover e vai ter goteira, se vai acabar a luz. Eu estava fazendo a pintura de uma das peças que vai desfilar e, quando estava para terminar, acabou a luz. Precisei esperar a luz voltar para poder pintar. Nunca sabemos quando vai estourar um tiroteio para poder sair para comprar material, comprar uma linha, comprar alguma coisa”.

Matheus Passos: a arte e a fé (Reprodução/Instagram)

Matheus Passos: a arte e a fé (Reprodução/Instagram)
Essa espiritualidade não está apenas no tema, mas também na técnica – e no tempo. “As referências do candomblé não vão só nas pinturas das pessoas dançando, mas na proximidade que têm com a natureza também. Gosto de trabalhar muitos elementos naturais, animais, plantas, ervas que usamos no cotidiano da religião. Não vejo a minha pintura como uma estampa: é uma pintura. Existe um ato artesanal, e isso gera um outro valor. Não só um valor monetário, do trabalho, mas um valor energético na esfera do afeto. Em cada peça que eu pinto existe um carinho, existe um pensamento que não tem como ser reproduzido, não tem como ser simulado”.
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