Moda & Beleza

Giselle Dias foi a escolhida pela Prada como representante da América Latina na Semana de Moda de Milão

"A Prada enfatizou na coleção Primavera/Verão o conceito que permeia nossas vidas: a importância do ser humano olhar para o seu eu interior nesses tempos de tecnologia em alta potência. Como que repensar os cinco sentidos, os sentimentos de nossa existência e a relação em solidariedade com o próximo", pontua

Publicado em 30/09/2019 | Por Heloisa Tolipan

Aos 13 anos, Giselle Dias “segurou”, como ela diz, sua primeira câmera fotográfica. A primeira reação que teve ao tirar o objeto-desejo da caixa de presente foi… capturar a imagem de uma gota d’água com todo apuro. A memória afetiva desse ato da infância ficou eternizada em sua arte de registrar momentos, instantes ou um flash de fração de segundo e foi o start para uma carreira internacional como fotógrafa, repleta de pura sensibilidade ao alcançar o desejo de expressar sua arte com uma câmera fotográfica em total simbiose seja com o personagem, objeto ou cenário que, com olhar sagaz é capaz de criar com tanta sensibilidade. A partir daí, mergulhou em projetos autorais, se encantou pelo universo dos grandes shows internacionais e… moda global. E o ano de 2019 vai entrar para sua história profissional e pessoal: foi convidada pela Prada para representar a América Latina no desfile da Semana de Moda em Milão.

Propus a Giselle um diário do périplo dos seus sonhos e deixo com vocês as impressões pessoais day by day. Vem com a gente!

Desembarquei em mais uma semana de moda na Itália. Dessa vez, convidada pela Prada a representar a América Latina no desfile em Milão. Como fotógrafa de moda fiquei muito lisonjeada com o convite.

Chegando em Milão, fomos para nosso hotel, o histórico Principe Di Savoia, localizado na Piazza della Republica. Considerado um dos melhores hotéis da cidade, desde sua abertura até os dias de hoje, por hospedar personagens importantes da política, da arte, da literatura, de príncipes e rainhas de todo o mundo atraídos pelo conforto e pela excelência nos serviços. O hotel foi pouco danificado na Segunda Guerra Mundial e, após 1950, foi renovado e ampliado, mas mantendo a tradição, a cultura e a classe da arquitetura projetada pelo famoso arquiteto  Cesare Tenca.

Acervo: Giselle Dias

Ao contrário da minha última viagem à MFW, na qual registrei o backstage de mais de 10 labels, além de todos o desfiles, procurei mergulhar totalmente no universo Prada. O fashion show foi realizado na Fondazione Prada, localizada em uma antiga destilaria de gim no complexo industrial, Largo Isarco, no extremo Sul de Milão. Um instituto da marca dedicado à arte contemporânea e cultura. A AMO transformou o depósito, o espaço mais dramático do complexo, em um local multifuncional para apresentações. Semelhante a um hangar, era listrado com tinta laranja, as enormes colunas cobertas com papel dourado e composta por uma infinidade de azulejos coloridos que definiram o cenário.

Foto: Bas Princen (Courtesy Fondazione Prada)

A Prada enfatizou na coleção Primavera/Verão o conceito que permeia nossas vidas em tempos de tecnologia em alta potência. Como que repensar os cinco sentidos, os sentimentos de nossa existência e a relação em solidariedade com o próximo. Atemporalidade foi o foco após a última coleção com a narrativa Frankenstein. A coleção SS20 foi menos sobre a história e mais sobre o indivíduo. A reiteração do “código” Prada, a mulher como protagonista de sua própria vida.

Foto: (Divulgação/Prada)

“Nós queremos falar mais sobre estilo de vida do que moda” disse Miuccia Prada sobre a coleção. “É sobre estilo pessoal, menos coisas desnecessárias, mas sim as que são significativas para cada pessoa.’’. Uma coleção extremamente plural, com ternos estilo anos 60 e vestidos anos 40, cardigans e saias de tricô, bolsas estilo balde e óculos oversize.

Giselle Dias

Como empresa, a Prada está adotando uma nova política de não usar mais pele em seus produtos e a coleção Primavera/Verão 2020 foi exemplo in totum. Outras mudanças sustentáveis incluem o plano de substituir todo material da marca de náilon virgem por náilon reciclado até 2021.

Patrícia Garcia, Pierre Morier, gerente da Prada no Rio de Janeiro, e Giselle Dias

Com uma coleção que inspira desejo imediato, fomos conhecer a famosa loja na Galleria Vittorio Emanuele II, onde tudo começou como uma empresa de peças em couro, fundada no início do século 20 pelos irmãos Martino e Mario Prada e batizada Fratelli Prada. Estamos em 1913 e as mulheres da família não podiam participar da empresa.

Ironicamente, o filho de Mario passou a batuta de tocar a empresa para Luisa, a filha, e ela comandou a marca por duas décadas antes de sua filha, Miuccia Prada, assumir os negócios da família nos anos 70 junto de seu marido, Patrizio Bertelli, e hoje é a chefe-executiva e designer-chefe da The Prada Group.

No topo da loja Prada, se encontra o Osservatorio Fondazione Prada, um espaço de exibição dedicado à fotografia e linguagens visuais. Um lugar onde tendências e formas de expressões na fotografia contemporânea são exploradas em um tempo onde a fotografia se tornou parte do fluxo global de comunicação digital.

Osservatorio Fondazione Prada – Foto: Delfino Sisto Legnani e Marco Cappelletti (Courtesy Fondazione Prada)

Conferimos a mostra ‘Kate Crawford/Trevor Paglen: Training Humans’, a primeira maior exibição de fotografia com o propósito de treinar imagens: a coleção de fotos usadas por cientistas para treinar inteligência artificial em como ver e categorizar o mundo. Training Humans aborda duas questões fundamentais em particular: como os humanos são representados, interpretados e codificados através de conjuntos de dados. À medida que as classificações de seres humanos pelo sistema de Inteligência Artificial se tornam mais invasivas e complexas, seus preconceitos e políticas se tornam aparentes, se transformando em julgamentos morais.

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No final da exibição, um computador e duas telas permitem você exercitar o experimento de reconhecimento fácil e ser “julgada”. Os sistemas de IA estão agora medindo as expressões faciais das pessoas para avaliar tudo, desde saúde mental, se alguém deve ser contratado, até se uma pessoa vai cometer um crime. A máquina presume sua idade, entre outros dados, baseada na face. No vídeo, você  confere o resultado sobre as impressões do meu rosto.

Fechamos o dia com um jantar especial italiano de três pratos na Paper Moon Giardino com convidados da Prada mundo inteiro.

No segundo dia, fomos ao resee da Prada, onde se tem a oportunidade de ver as peças da nova coleção em detalhes. Realizado na mesma locação do desfile, todas as roupas em manequins pelo salão.

Foto Bas Princen (Courtesy Fondazione Prada)

Em seguida, visitamos a abertura da exposição ‘Il Sarcofago Di Spitzmaus e Altri Tesori’, com curadoria do cineasta Wes Anderson e da ilustradora, designer e escritora Juman Malouf, na Fondazione Prada. A fachada do prédio toda em dourado refletia o lindo pôr-do-sol milanês. A exibição organizada em colaboração com o Kunsthistorisches Museum Vienna, é integrada por 538 obras de artes selecionadas por Wes Anderson e Juman Malouf, a partir de 12 coleções do museu austríaco, e de 11 departamentos do Naturhistorisches Museum, também de Viena.

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O título da exposição é uma homenagem a uma das peças, o caixão de um Spitzmaus, uma caixa de madeira egípcia com um musaranho mumificado do século IV AC. A escolha das peças exibidas, com base em uma abordagem não acadêmica e interdisciplinar, ilustra o profundo conhecimento de Anderson e Malouf sobre os dois museus, mas também revela paralelos e ressonâncias inesperados entre os trabalhos incluídos no projeto e os universos criativos dos dois artistas.

Seguindo a exposição espetacular, fomos ao coquetel de comemoração da abertura da exposição no Bar Luce, dentro da Fondazione Prada projetado pelo próprio Wes Anderson em 2015.

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O Bar Luce recria a atmosfera de um típico café milanês com uma estética fiel do diretor: a variedade de cores, os móveis de fórmica, os assentos, o piso e os painéis de parede de madeira lembram a cultura e a estética popular italiana das décadas de 1950 e 1960, ecoando as decisões artísticas que Anderson fez para seu curta-metragem Castello Cavalcanti, lançado em 2013, e estrelado por Jason Schwartzman como um piloto de corrida em uma vila italiana. O filme de 8 minutos foi filmado na Cinecittà, em Roma, Itália, e financiado pela Prada.

Giselle Dias e o cineasta Wes Anderson

Agradecimentos:

Direção e Edição: Giselle Dias

Vídeo: Marco Riva

Beauty: William Bertino

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