Moda & Beleza

DFB 2018 – Day 3: Jeferson Ribeiro desmistifica o estilo baiano e desconstrói preconceito na figura do corpo feminino

O penúltimo dia do maior evento de moda autoral da América Latina exaltou a brasilidade em design que valoriza a regionalidade, negritude, beleza feminina e o artesanato de luxo made in Brazil. Além disso, alguns estilistas soltaram o verbo sobre a crise econômica que assola o país e a repercussão disto no meio. Ivanovick, Herculano Marques, Rebeca Sampaio, Kallil Nepomuceno, Jeferson Ribeiro e Ivanildo Nunes foram os designers responsáveis pelas coleções da vez

Publicado em 14/05/2018 | Por Ana Clara Xavier

A brasilidade foi a verdadeira protagonista do terceiro dia de desfiles do DFB Festival 2018. A maratona de sexta-feira revelou alguns dos próximos talentos do setor no Concurso dos Novos, e nós, do site HT, integramos o corpo de jurados. Na sequência, Ivanovick privilegiou a negritude com um design empoderador e representativo. Enquanto isto, Herculano Marques se inspirou em músicas dos anos 80 para criar uma coleção do passado para lá de futurista. Rebeca Sampaio exaltou o poder feminino misturando a brasilidade com o viés cosmopolita mundial e ainda soltou o verbo sobre a dificuldade de fazer uma coleção conceitual para os holofotes da moda. Kallil Nepomuceno relembrou o amor antigo em peças que questionam a influência das mídias sociais na relação humana. Além disso, Jeferson Ribeiro desenhou vaginas em peças que desmitificam o corpo feminino e o estilo baiano. Ivanildo Nunes, estilista oficial do Miss Brasil 2018, encerrou com um design que enantou o público pelo cuidado e perfeição das peças que elevam o artesanato de luxo made in Brazil à máxima potência.

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O terceiro dia de desfile começou mostrando uma prévia do que podemos esperar para o futuro do mundo da moda, no Concurso dos Novos. A competição reuniu oito grupos de cinco alunos que representaram diferentes faculdades no Brasil com peças belíssimas confeccionadas a partir dos seguintes critérios de seleção: criar coleção-cápsula com princípios da Economia Circular, enaltecer o artesanato e seguir o tema ‘Manifeste o seu poder’ do DFB 2018 . A Faculdade Ateneu, do Ceará, valorizou a brasilidade em suas roupas, enquanto a Faculdade Santa Marcelina, de São Paulo, privilegiou a pluralidade das favelas. Logo em seguida, a IFRN, do Rio Grande do Norte, preparou modelagens com muitos babados e jeans. A última do dia foi do Senac/SE, de Sergipe, que fez uma coleção inspirada em Arthur Bispo do Rosário, sob o olhar cuidadoso do estilista Altair Santo. O trabalho politizado apostou em botões de várias cores e palavras de ordem, como ‘respeito’, bordadas em todo o material.

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Ivanovick exaltou a negritude predominante no Brasil com uma coleção que remeteu à cultura baiana. A mulher desenhada pelo estilista se mostrou empoderada, consciente de suas vitórias e fraquezas, já que não tem medo de ousar nas produções e mostrar as suas origens. As peças contaram com uma palheta de cores bem grande que passeou pelo verde, amarelo, branco, laranja e prata.

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A palheta de cores marcante e variada repercutiu em uma volta aos anos 80 na coleção de Herculano Marques, que queria trazer toda a alegria da época. O design das roupas foi pensado a partir de músicas do período que o influenciaram. Ao mesmo tempo, o excesso de laços combinado com ombreiras e mangas bufantes demonstraram uma pegada futurista. Dessa forma, o estilista mesclou os dois conceitos para exibir uma mulher daquela década que não tinha medo do que viria pela frente. O estilista pesquisou muito para poder mostrar ao público todo o seu talento na passarela aonde, para ele, é o momento de provar para a sociedade seu valor no mercado. “Acho que o desfile tem o mesmo valor de antigamente. Vemos muita coisa legal e interessante. Não devemos nos limitar e estas semanas de moda que estão aí para mostrar criatividade, modelagens novas e muito mais”, explicou.

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O nosso país costuma ser representado no exterior como um verdadeiro carnaval de cores, mas Rebeca Sampaio conseguiu desmistificar esta imagem com as suas roupas. A estilista apostou na criação de uma persona chamada Rose para desenvolver todas as peças que desfilaram no DFB 2018. Esta mulher, na sua visão, é uma figura cosmopolita e empoderada de Londres que, após terminar um relacionamento conturbado, se mudou para o Brasil, aonde se descobriu mais ousada. A imagem acabou sendo um elemento do alter ego da estilista que está acostumada a viajar para vários lugares do mundo sem nunca perder a sua brasilidade. A coleção consegue ser cool e fresh, ao mesmo tempo. A artista conseguiu trazer elementos autorais para a passarela e normais, que podem ser usadas no dia-a-dia. “Nos meus desfiles anteriores, eu fazia peças mais extravagantes, mas não conseguia depois vender. Dessa vez, coloquei na cabeça que criaria um design desejável. Acho que estamos em um momento difícil de continuar produzindo roupas para desfiles, principalmente devido à recessão econômica, porém temos que usar a passarela como uma forma comercial e também inovador, que chame atenção”, informou.

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Em uma sociedade repleta de intolerância, preconceito, desigualdade e construções arcaicas patriarcais, Kallil Nepomuceno trouxe para a passarela o amor antigo, que valorizava a presença do outro, a escrita e o contato fora dos meios de comunicação trazidos pela globalização. “O romantismo que está acabando. As pessoas paqueram e terminam o namoro pelo aplicativo. Peguei exatamente este momento político que estamos vivendo para mostrar nas cartas e nos tecidos toda a fluidez destes relacionamentos do passado que tinham olho no olho e corpo a corpo. Adaptei isto para a nossa linguagem contemporânea nas roupas”, informou o estilista. O design foi inspirado nos antigos papéis de seda usados nas correspondências amorosas. A partir deste material, ele trouxe a cor bege e os tons pastéis em flores que costumavam existir nestes cartões. Inclusive, as peças leve dos vestidos traziam escritas, carimbos e selos dos correios. Todo este clima foi eternizado na voz de Marília Lima, uma cantora cearense que soltou a voz durante a exibição das roupas.

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Esqueça tudo o que você sabe sobre os baianos, porque a coleção de Jeferson Ribeiro não tem nada a ver com qualquer estereótipo. O estilista desenvolveu uma coleção que desmistificou qualquer conexão que o público poderia fazer com o modo de se vestir daquelas pessoas, indo desde uma pessoa comum até o molejo da baiana. “Tudo é político na minha coleção. Observei como as mulheres de lá lidam com o corpo e o pudor. Uma das estampas se chama ‘a concha que pariu o mundo’ que são em formato de vagina. Quero que elas percam os receios e preconceitos que possuem delas mesmas”, explicou. Alinhando o que o estado tem de melhor com um design maravilhoso, o designer conseguiu imprimir muita brasilidade em sua coleção. Para encontrar tal conexão, ele se inspirou em desenhos que eram feitos nas barracas de festas profanas e sagradas da década de 70 a 90 no território. Todo esta idealização exigiu muito trabalho e pesquisa do mesmo que está enfrentando problemas para fazer moda atualmente. “Existe uma dificuldade de ter negócios rentáveis no Brasil, não só no mundo da moda como em todos os outros. A carga tributária é muito alta. A gente tem criatividade, mas como vamos exportar o nosso produto? A passarela é uma forma de mostrar o meu trabalho, mas isto sozinho não sustenta. Precisamos ter mais poder de escolha e melhor representatividade. Não adianta ficar só no discurso, se não temos abertura para exigir e nem mesmo políticos que defendam os nossos ideias. Acho que o caminho está um pouco perdido”, lamentou.

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Ivanildo Nunes, estilista oficial do Miss Brasil 2018, encerrou a maratona de desfiles do terceiro dia com um artesanato de luxo made in Brazil. As peças foram inspiradas no cosmo e confeccionadas a partir da desconstrução de mandalas. O brilho de seu trabalho, literalmente, encantou o público ao revelar técnicas não convencionais de bordado aos moldes contemporâneos. Ele conseguiu, por exemplo, fazer um bordado richelieu no tule. “Me desdobro de todos os jeitos para mostrar a tradição cultural do nosso povo, através da roupa. Tenho o maior respeito pelo artesanato e brigo por ele, mas ainda o exportamos de uma forma muito primária. Por isso quero mostrar que a mesma renda que a pessoa compra na praia a preço de banana pode ter um valor absurdo que transforma vidas”, afirmou. A exclusividade de seu design é o que o torna tão diferente e faz com que o mesmo consiga exportar para outros países.

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