Moda & Beleza

De Rihanna à Elza Soares, Léo Belicha comenta trabalhos importantes na moda e música e fala de sua volta para o Brasil depois de 18 anos em Londres: “Aqui nós somos travados”

Entre os trabalhos recentes, o diretor criativo, que também é stylist, coach, consultor de imagem e produtor cultural, destacou IZA. Responsável pelo conceito que a cantora tem hoje, Léo explicou como funcionou o desenvolvimento da imagem dela antes mesmo do lançamento de músicas. "Eu comecei do zero. Quando eu a conheci, a IZA não tinha referência de moda nenhuma"

Publicado em 23/01/2018 | Por Julia Pimentel

“Eu já vim com o DNA da arte”. Talvez isso resuma a potência de Léo Belicha que, profissionalmente, não se explica em uma palavra. Stylist, diretor criativo, consultor de imagem, produtor cultural, coach e diversas outras profissões sintetizam a pluralidade natural dele. Em seus anos de carreira, Léo Belicha teve Londres como casa – e ainda é – e coleciona grandes feitos na música, moda e publicidade. Entre eles, por exemplo, produzir Rolling Stones, trabalhar a imagem de Rihanna, reconstruir um conceito para Elza Soares e lançar uma nova personagem, a IZA. “O meu trabalho é uma mistura bem louca de várias áreas em muitos anos de carreira. Na verdade, o meu background é em moda. Foi isso o que eu estudei e me formei em Londres e o que me abriu portas para tudo o que eu vivo hoje”, contou Léo que também assinou o styling do editorial com Fernanda Nobre do site HT.

Porém, mais do que em uma sala de aula, Léo contou que foi buscar conhecimento em múltiplos cursos durante os anos de aprendizado na capital inglesa. Segundo ele, a faculdade de moda lhe mostrou que estilismo não era o que mais o atraia neste mercado. “Quando eu comecei a estudar, vi que não queria ser estilista porque não queria ficar trancado em um quarto fazendo roupa. Eu tenho várias ideias criativas e isso acabaria as prendendo. Foi entanto que eu comecei a me dedicar a algo maior que englobasse mais possibilidades”, lembrou Léo Belicha que, neste período em Londres, passou a estagiar na Givenchi e em diversas grifes de peso da moda e a construir seu nome no mercado europeu. “Depois que eu me formei acabei ficando por lá mesmo e isso durou 18 anos”, contou.

Spanish nights

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Neste período, Léo Belicha teve uma de suas experiências mais importantes da carreira. “Em 2008, eu acabei caindo por acaso no universo da música quando um amigo me chamou para trabalhar a imagem da Rihanna. Ela estava passando por um momento de transição depois de ter apanhado do namorado e a gravadora queria apresentar uma nova artista, que se descolasse um pouco daquela menina de Barbados”, disse Léo que a partir daí começou a trabalhar esta mudança de imagem para a diva que conhecemos hoje. “Não consigo definir muito bem o que eu faço porque é muita coisa junta. No caso da Rihanna, por exemplo, foi uma consultoria de imagem. Mas, se fosse para simplificar, diria que sou um diretor criativo, porque isso engloba tudo. É o meu miolo”, explicou.

E em uma profissão tão diversa, a única certeza de Léo Belicha é a sua paixão pelas artes. Antes mesmo de morar por 18 anos em Londres, ele já tinha um passaporte carimbado pelo mundo. “Meu pai se mudou para Ibiza quando eu tinha sete anos e, naquela época, lá era o lugar em que existiam as maiores possibilidades de nos expressarmos artisticamente. Então, desde pequeno, circulava pela Europa e isso estimulava a minha liberdade criativa e me colocava em um universo sem barreiras. Essa experiência desde criança fez com que eu ficasse mais exposto e receptivo a tudo”, analisou Léo que, por outro lado, comentou a diferença em relação ao Brasil. “Eu sinto que aqui nós somos travados até hoje. As pessoas se limitam muito por se preocuparem com o que o outro vai achar e falar. Mas isso nunca fez parte da minha essência e por isso saí do Brasil tão cedo”, contou.

Fernanda Nobre por Léo Belicha para o site HT (Foto: Markos Fortes)

Passando por Ibiza, Nova York e Paris até adotar Londres como sua casa, Léo Belicha agregou além de experiências, conhecimentos sobre o universo das artes. E, hoje, ele acredita que sua rica bagagem cultural seja um diferencial para um processo de criação intenso e com tantos referenciais. “As minhas ideias estão todas ligadas e vão atravessando a música, moda etc. Existe uma história por trás disso tudo e uma ideia de que, no fim, tudo se completa”, disse Léo que, por outro lado, reconheceu que essa sua pluralidade nem sempre é bem aceita por todos. “Na indústria o conhecimento em várias áreas é mais complicado porque as pessoas veem a necessidade de rotularem cada um. Eu não sou só stylist e nem só consultor de imagem. E nem trabalho só com música ou moda. Para a criação, tudo está em um mesmo contexto e é inevitável que eu use essa minha bagagem para explorar isso. Para mim, esse é o real sentido de liberdade”, apontou.

Liberdade na opinião de Léo Belicha, o trabalho dele também é um grande branding. Seja em trabalhar uma nova Rihanna ou lançar uma aposta como foi a IZA, Léo acredita que o conceito da publicidade e da forma como vendemos uma imagem seja o combustível de todo este caminho. “Tudo é branding. Quando você está trabalhando uma artista, seja ela cantora, atriz, modelo ou até uma marca, eu preciso desenvolver um marketing de criação para contar a história daquela proposta”, explicou Léo que, para isso, destacou a importância de estar sintonizado com a outra parte. “Eu preciso estar entrosado e acreditando naquela história para que consigo conta-la bem através da imagem. Por isso que eu nunca tive interesse de trabalhar com artista ou marca enlatada que não e permite criar”, destacou.

Também por isso que Léo Belicha tem Elza Sores como uma de suas conquistas. Nada enlatada, a cantora foi, inclusive, uma peça importante para a vinda dele de Londres para o Brasil. “Eu e Elza nos conhecemos na Inglaterra quando eu fiz um trabalho para ela em uma época que ela estava bem em baixa na carreira sem muitos projetos novos. Isso faz mais ou menos sete anos e foi quando eu pude conhecer aquela artista da qual sempre admirei. Eu já era fã da Elza desde pequeno e ela foi uma das poucas cantoras brasileiras que eu continuei admirando mesmo quando me mudei para Londres”, contou Léo Belicha que, deste encontro na Inglaterra, passou a ter uma nova relação com Elza Soares. “Foi ali que ela virou a minha mãe preta”, disse.

Depois deste episódio, que lhe abriu a possibilidade impensada de uma volta para o Brasil, que Léo Belicha deu mais uma chance para o mercado tupiniquim e veio. Quando chegou, Elza Soares foi um de seus primeiros trabalhos e uma missão nada simples: “me chamaram para eu fazer uma releitura da imagem dela porque a Elza não queria mais estar ligada ao samba”. E ele fez. “Eu sempre soube que ela detestava essa figura de rainha do samba e que queria quebrar barreiras. Por outro lado, sempre vi a Elza como uma mulher super rock’n roll e, por isso, começamos a trabalhar um conceito apocalíptico. Essa foi a palavra que mais usamos nas referências”, lembrou Léo.

A partir daí, o preto e materiais como vinil e couro, além de metais, passaram a traduzir o novo conceito de Elza Soares até o que acompanhamos hoje. “Ela estava para lançar o novo disco e, neste trabalho, queríamos revelar uma artista guerreira, futurista, que veio das favelas, mas não é estereotipada. Apostamos no lado transgressor da Elza”, explicou Léo Belicha que, neste caso, teve que trabalhar em cima de uma história forte. “Ela é uma artista com uma bagagem que já fala por si só. A Elza tem uma história muito forte e eu precisava criar em cima disso. Um detalhe muito interessante é que ela sempre quer mais, quer que a gente pire. Eu trabalho com muitos artistas novos no Brasil e no mundo e até hoje nunca vi ninguém com a modernidade da Elza Soares”, destacou.

No entanto, se com Elza Soares Léo Belicha teve que respeitar e trabalhar em cima de uma carga já existente, com a IZA ele teve um quadro em branco e um arco-íris de possibilidades para criar. Com a cantora que é um fenômeno pop da nova geração, Léo foi responsável pelo conceito de imagem ao nome. Sim, IZA, com as letras em maiúsculo é ideia do diretor criativo que transformou a menina Isabela Lima em uma potência. “A história com a IZA começou porque um amigo de Londres queria uma artista que cantasse inglês, mas tivesse uma personalidade latina para levar para lá. Eu até trabalhei com uma menina de São Paulo, mas não deu certo. Até que eu encontrei a IZA que, nessa época, fazia uns covers com pouco mais de mil seguidores na internet”, lembrou.

E então o trabalho de lapidação começou. Antes de transformar Isabela em IZA, Léo Belicha apostou em um conceito de moda anterior à música. Para quem não lembra, IZA brilhou em revistas fashion, como Vogue e Jornal O Globo, antes de ter seu espaço nos palcos. “Eu tracei um planejamento e começamos a trabalhar primeiro a imagem dela. Em paralelo, levei a IZA pela primeira vez para um estúdio e três meses depois já estávamos recebendo contato de gravadora com contrato em mãos”, lembrou Léo que, com esse sucesso meteórico, abriu mão dos planos iniciais. “Ela explodiu muito rápido e, com isso, os planos de Londres caíram e decidimos que tínhamos que aproveitar o bom momento no Brasil”, contou ele que, recentemente, por exemplo, acompanhou sua pupila brilhando no Palco Sunset do Rock in Rio ao lado de CeeLo Green – mesmo que já não estivessem mais trabalhando juntos.

Neste caso, Léo Belicha teve uma missão oposta ao de Elza Soares. Enquanto com a veterana a ideia era trabalhar em cima de toda a história que ela já trazia, com a IZA, a liberdade criativa foi o fio condutor. “Eu comecei do zero. Quando eu a conheci, a IZA não tinha referência de moda nenhuma. Foi então que eu trouxe grandes divas que sempre me aocmpanharam para guiarem essa nova personagem”, contou Léo que, como exemplo, citou Grace Jones e Diana Ross. “Trabalhar em cima de um diamante bruto dá muito prazer. Hoje em dia eu não estou mais com a IZA, mas essa lapidação que fizemos me abriu muitas portas no mercado nacional, me deu credibilidade e, inclusive, me fez ficar aqui por mais tempo do que eu estava planejando”, contou.

Rihanna, Elza Soares, IZA. Não por acaso, cada uma em seu ambiente, as três artistas que citamos da carreira de Léo Belicha trazem uma importante carga social e artística para o trabalho do diretor criativo. Empoderadas e com boas histórias para contar, elas traduzem a busca de Léo por verdades que interessam. “Não tem nada de coincidência e isso é uma marca qe eu quero ter no meu trabalho. Não importa se uma é empoderada na questão negra e a outra na causa LGBT, quero estar com artistas que façam a diferença e tenham boas histórias para contar. Eu sempre fui influenciado por pessoas que correram atrás e têm esse empoderamento. É claro que de vez em quando temos que trabalhar com outros tipos de artistas, como os enlatados que eu falei. Mas são exemplos como o da IZA e Elza que me motivam”, argumentou.

E é desta forma que ele quer seguir. Para o futuro, Léo Belicha tem muitos projetos, sendo a maioria secreto. Um deles, já com data para estrear,  é o novo disco de Alice Caymmi no qual o diretor criativo fez consultoria de imagem do projeto. “Foras muitas conversas e todas bem intensas para que a gente chegasse ao resultado que vamos apresentar. A Alice é uma artista que sempre me falaram que eu tinha que conhecer e, realmente, fiquei encantado. Ela é muito decidida e certa do que ela quer e esse novo disco vai marcar um renascimento estético na carreira dela”, adiantou Léo que, nesta missão, trouxe ainda Barbara Ohana. “Quando tem entrosamento, tudo acontece de forma mais simples”, completou.

Além de Alice, a única novidade para 2018 é que Londres está ainda mais perto do Brasil. “Esse será o ano que eu vou conseguir voltar e ficar nessa ponte entre a minha casa, que é a Europa, e os trabalhos no Brasil. A partir de janeiro, vou dividir melhor o meu tempo para dar atenção aos meus projetos de lá e continuar trabalhando por aqui também”, contou Léo que, no Brasil, destacou os contratos de confidencialidade que o proíbem de revelar o que vem por aí. “Eu tenho alguns projetos com gravadoras, mas tudo em sigilo ainda”, disse Léo Belicha.

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