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Sementes de Marielle: Dani Monteiro, Renata Souza e Mônica Francisco fazem história com representatividade negra e feminista na bancada estadual do Rio

Herdeiras de Marielle Franco prometem combater a bancada conservadora

Publicado em 10/10/2018 | Por Vanessa Cutrim

Queriam silenciar Marielle Franco, mas nem de longe conseguiram. Sua voz ecoa mais forte do que nunca. Com pouco mais de seis meses de sua execução, o legado da vereadora resiste com a eleição de três deputadas negras, feministas e que eram suas amigas. Daniella Monteiro, Renata Souza e Mônica Francisco, que a assessoravam, foram eleitas deputadas estaduais e vão ocupar a Alerj. Todas são do partido PSOL e defendem veemente a juventude negra, as mulheres e as minorias. Marielle é insubstituível, isso é fato, mas tem herdeiras de peso que vão propagar sua militância até o fim.

Dani Monteiro, Talíria Petrone, que se elegeu como deputada federal, Mônica Francisco e Renata Souza (Foto: Divulgação/Facebook)

Dani Monteiro, eleita com 27.987 votos, fazia parte do gabinete de Marielle. Ela já pretendia se candidatar, mas depois da execução da amiga, tudo ganhou um novo sentido. “Marielle é uma memória recente da nossa luta. O que ela sempre deixava claro eram suas pautas em prol das mulheres negras da favela, em uma batalha histórica nesse país por direitos de viver. Somos semente dela, mas Marielle era fruto de uma luta muito antiga nessa terra, para existir e ser reconhecida. Não tenho dúvida de que a nossa vitória está completamente atrelada ao que foi o horror da execução da Mari, mas está ligada principalmente à vida dela, a eleição com mais de 46 mil votos, a atuação parlamentar que focou em elevar as mulheres e a juventude negra. A militância dela é o maior significado neste processo”, frisa Daniella, que é a candidata mais jovem a se eleger, com 27 anos. Ela é estudante de Ciências Sociais na UERJ, e tem como principais pautas os movimentos feministas, negros, LGBTQ e dos direitos humanos.

Apesar da bancada feminina na Alerj ter aumentado, de 8 para 12 deputadas, o conservadorismo veio em paralelo. “O maior desafio vai ser viver nesse cenário da Câmara. A gente tem uma história muito importante com a vitória dessas mulheres negras pela bancada do PSOL, mas a verdade é que elegeram uma Alerj muito mais à direita. Por exemplo, a bancada do PSDB perdeu espaço para o PSL, partido do Bolsonaro. Quando o candidato mais votado do Rio é um que quebra a placa que homenageava a memória de uma vereadora executada no Rio, o que fazer? É estar fora dos limites da democracia”, discorre indignada sobre Rodrigo Amorim, que destruiu brutalmente a placa da vereadora na Cinelândia, em setembro.

Dani Monteiro foi eleita com mais de 25 mil votos (Foto: Divulgação/Facebook)

Para Mônica Francisco, eleita com 40.631 votos, defender as pautas democráticas e de direitos humanos será uma tarefa árdua, mas uma batalha constante para conseguir abrir o diálogo com os intolerantes. A deputada é pastora evangélica e pretende desmistificar os estereótipos da religião na política. “A nossa presença no parlamento existe também para romper uma imagem do sujeito universal evangélico. Sendo eu uma mulher negra, favelada, progressista…Uma das pautas é a defesa do estado laico, o combate ao racismo institucional, além da defesa incondicional das liberdades individuais e dos direitos sexuais e reprodutivos”. Diferente de Daniella, a candidatura de Mônica foi impulsionada pela vereadora Marielle, apesar de militar há quase 30 anos nas favelas cariocas. “Foi uma proposta trazida pela Marielle, é a gestora da minha candidatura. Eu sinto a presença dela todos os dias, ela nunca vai deixar de ser sentida, principalmente agora no Parlamento. Como ela mesmo disse ‘Eu não serei interrompida’. Foi profética essa fala”, expõe a cientista social, nascida no Morro do Borel.

Para Mônica, estar presente na bancada da Alerj no Rio de Janeiro com o maior número de feministas e negras, é um momento histórico. “Acho importante a presença das mulheres negras na política, porque elas são historicamente invisibilizadas, desapropriadas de seus direitos, desumanizadas e alvo das maiores brutalizações e perdas. São elas que perdem filhos, companheiro…Essas mulheres trazem a experiência da vida concreta e isso é a política da vida real, que é o ônibus, a água, o preço do pão, de quem sofre na pele o dia a dia do país”, enfatiza.

Mônica Francisco era uma das assessoras de Marielle e foi eleita com mais de 40 mil votos (Foto: Divulgação/Facebook)

Renata Souza, eleita com 63.937 votos, é cria da favela da Maré e conhecia Marielle há 18 anos. Ela deseja, acima de tudo, levar as pautas que as duas lutavam e desenvolviam juntas. “Vamos lutar pela redução do número de homicídio da juventude negra, e contra o feminicidio, colocar isso como prioridade dentro daquela casa legislativa, que no momento, quer controlar nossas liberdades”. Marielle foi assassinada à sangue frio em março, em um crime político ainda sem respostas. As investigações apontam para milicianos, mas não parecem ir para frente. “Queremos pressionar uma resolução em relação ao caso da Marielle. A execução dela mostra que a barbárie virou um método na política. Não podemos aceitar ficar refém do medo ou de qualquer outra prática que possa inviabilizar nosso trabalho pelo bem comum da sociedade”, frisa.

Renata Souza foi eleita com mais de 60 mil votos (Foto: Divulgação/Facebook)

Dani Monteiro, Mônica Francisco e Renata Souza estão se organizando com a bancada feminista do PSOL e com as parlamentares eleitas no Rio de Janeiro para barrar o crescimento no segundo turno do candidato a presidência, Jair Bolsonaro. “Ele representa um retrocesso na nossa sociedade, no que se diz respeito ao direito das mulheres, da população negra, da juventude, da comunidade LGBTQ, que é atacada todo dia por seus eleitores…Precisamos barrar o seu conservadorismo na presidência da república, porque queremos um estado laico que respeita as diferenças e a dignidade humana. Ele é o contrário disso”, sentencia Renata Souza.

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