“Quando não nos deixam passar pela porta, temos que construir a nossa própria”, diz atriz surda Isabella Bauer


A atriz, estudante de Cinema e influenciadora digital surda, Isabella Bauer, é precursora de um movimento brasileiro nas redes de conscientização sobre a surdez e valorização de pessoas com deficiência. “Sempre costumo levar a questão da surdez nos vídeos da forma mais leve possível. Percebo que a vida fica muito pesada se eu for por aquilo que as pessoas acham de mim. Tem que ter uma boa dose de humor para falar sobre esse assunto. Se falarmos apenas da parte ruim, a vida fica muito triste”. Segundo ela, chegou à conclusão “que não há papéis para pessoas surdas no audiovisual. Por isso, pensei: por que eu não dou uma oportunidade para pessoas com deficiência? Descobri também um sonho meu que estava enterrado de ser atriz. É muito raro encontrar pessoas surdas no audiovisual”

A artista Isabella Bauer critica os reduzidos espaços de representatividade para pessoas surdas no audiovisual brasileiro

*por Luísa Giraldo

 Assim que perdeu a audição, a influenciadora digital Isabella Bauer se sentiu à parte do mundo à sua volta, sem referências de pessoas públicas ou criadores de conteúdo que abordassem a temática da deficiência e da luta anti-capacitista. Determinada a oferecer uma solução aos internautas, a estudante e atriz de 21 anos passou a gravar vídeos diversos sobre os preconceitos velados vividos por pessoas com deficiências (PcD) no formato de desabafos bem-humorados. Ela começou a compartilhar os conteúdos e algumas publicações já passaram pelo feed de milhões de pessoas na internet.

A ideia de produzir vídeos e conteúdos mais inclusivos já existia há meses, mas um empecilho para as gravações era a insegurança de Isabella sobre a própria capacidade dela. A jovem desabafa que os comentários capacitistas, responsáveis por indicar uma dita incapacidade de viver, aos poucos, deixaram-na tensa e receosa de levar o projeto à frente. Emocionada, Isabella confessa ter tomado coragem para publicar o vídeo: “Estou cansada de ser a primeira”. Após sentir que as atitudes e falas preconceituosas à sua volta cresciam mais e mais. Aos poucos, a família e os amigos passaram a adotar alguns comportamentos, olhares e falas limitadoras em relação a ela.

Apesar dos vídeos terem tido um efeito quase terapêutico de a ajudarem a entender e a ressignificar os momentos difíceis desde que perdeu a audição, os primeiros conteúdos nasceram como parte de um desabafo solitário. “Peguei o telefone, coloquei um tripé e comecei a falar. Não tinha roteiro e nem tema porque era um desabafo mesmo. E, por incrível que pareça, ele foi super bem na internet e as pessoas conseguiram se identificar comigo. Isso foi bem grande. Eu esperava a audiência apenas dos meus amigos, que estavam ali me assistindo, mas acabei falando para um público muito maior de pessoas”.

A criadora de conteúdo identifica que o tópico da luta contra o capacitismo se tornou pertinente assim que ela perdeu a audição. “Eu sabia que tinha que falar sobre o assunto desde o momento que fiquei surda. Senti uma grande falta de representatividade. Eu não via pessoas [como eu] nos comerciais e nem fazendo conteúdo na internet. Quando fiquei surda, identifiquei uma necessidade grande de buscar uma representatividade e de pessoas que vivem com a mesma condição que a minha. A partir daí, surgiu uma ideia na minha mente: por que eu não poderia criar conteúdo e falar sobre isso?”, relembra ela.

Isabella Bauer, surda dos dois ouvidos, abre o coração sobre a deficiência: ela lida bem com a questão

Isabella Bauer, surda dos dois ouvidos, abre o coração sobre a deficiência: ela lida bem com a questão (Foto: Amanda Lucchese)

 Por outro lado, Isabella ressalta uma particularidade curiosa em seus conteúdos: a narração com o humor. A creator justifica que a escolha desse tipo de abordagem está relacionada à tentativa de captar a atenção dos internautas nos primeiros três segundos de vídeo. Em sintonia, ela opta por gravar os vídeos de maneira mais informal e freestyle, sem a preparação de um roteiro e no formato de um bate-papo entre amigos. Antes de ligar a câmera e iniciar os desabafos, a influenciadora apenas estipula o tópico a ser “conversado” e confia no próprio feeling.

“A leveza é algo natural para mim porque o meu senso de humor sempre foi muito apurado. Sempre costumo levar a questão da surdez nos vídeos da forma mais leve possível. Percebo que a vida fica muito pesada se eu for por aquilo que as pessoas acham de mim. Tem que ter uma boa dose de humor para falar sobre esse assunto. Se falarmos apenas da parte ruim, a vida fica muito triste. É por isso que eu prefiro ver a parte feliz disso tudo. Então, costumo dizer nos meus vídeos que amo ser surda. É verdade. Descobri que essa é uma surpresa maravilhosa. Realmente busco olhar pelo lado positivo”.

A pauta da capacidade

Como principal objetivo com a criação de conteúdos inclusivos, Isabella ressalta buscar a pauta da capacidade para esse que já era um assunto pertinente na minha vida. Ter ficado surda me fez entender que essa luta agora é minha também e ressignificar a vida dela desde que ela ficou surda. Para trabalhar essas pautas, ela usa os saberes adquiridos do “contraste” que viveu: a influenciadora já foi uma pessoa ouvinte.

“Percebo que eu consigo falar sobre os dois lados e os problemas deles. É muito interessante a posição que eu me encontro. Acho que tenho tudo para poder falar sobre essa pauta. Muitos anos antes de ser surda e influenciadora, eu já acompanhava pessoas PcDs, já era amiga de pessoas PcDs e tinha pessoas assim na minha família também. Esse já era um assunto pertinente na minha vida. Ter ficado surda me fez entender que essa luta agora é minha também”, atesta.

Isabella descreve que o capacitismo estrutural marcou profundamente a vida dela, além de ter feito com que ela e as pessoas questionassem as habilidades e inteligência que as pertenciam. “Foi um marco na minha vida. Existe a Isabella ‘antes de ficar surda’ e a Isabella ‘depois de ficar surda’ porque parece que foi criada uma certa limitação na minha vida a partir daquele momento. Todo o conhecimento, inteligência e qualificação profissional que eu tinha foi jogados ralo a baixo. Parece que eu fui considerada inválida ou incapaz a partir  do momento que perdi a audição. Antes, eu era uma pessoa valorizada, mas agora sou considerada inválida”, destaca.

Esse já era um assunto pertinente na minha vida. Ter ficado surda me fez entender que essa luta agora é minha também — Isabella Bauer

A atriz pontua que o preconceito estrutural contra pessoas com deficiência é reproduzido em todos os ambientes sem que as pessoas percebam – e em alguns momentos, sem que ela mesma se dê conta. Assim que começou a identificar comportamentos repetitivos capacitistas vindos de amigos e familiares próximos, a estudante da Crav Unisinos, em Porto Alegre, optou por se distanciar. Ela pontua que passa diariamente por uma “remodelação da vida social”. 

Aliada aos conteúdos digitais, Isabella usa a bolsa que tem em Cinema e Audiovisual para atuar efetivamente no campo da representatividade de pessoas surdas em papéis de destaque do cinema.

Cheguei à conclusão que não há papéis para pessoas surdas no audiovisual. Por isso, pensei: por que eu não dou uma oportunidade para pessoas com deficiência? Descobri também um sonho meu que estava enterrado de ser atriz. É muito raro encontrar pessoas surdas no audiovisual – Isabella Bauer

A influenciadora e atriz surda Isabella Bauer diz que vai construir a próprias porta se não há portas para ela no teatro.

A influenciadora e atriz surda Isabella Bauer diz que vai construir a próprias porta se não há portas para ela no teatro (Foto: Divulgação)

Ao ressaltar que o Brasil ainda é muito fechado para questões da aceitação das diversidades e da inclusão de pessoas com deficiência, a artista percebeu que teria que criar os próprios papéis se quisesse trilhar uma trajetória profissional como atriz. Daí, veio a escolha pelo cinema: do desejo pela representatividade e pela falta de oportunidades no mercado.

“Quando não nos deixam passar pela porta, temos que construir a nossa própria. É uma frase bonita que representa muito esse caminho. Se não há papéis para interpretar personagens PcDs, a gente tem que criá-los. Espero poder contribuir no futuro não só com a minha atuação, mas na criação de papéis para que todas as pessoas venham a integrá-los. Eu quero que a gente tenha papel de destaque, não apenas o papel secundário”, atesta.

Quando não nos deixam passar pela porta, temos que construir a nossa própria. Eu quero que a gente tenha papel de destaque, não apenas o papel secundário — Isabella Bauer

Perda da audição

Segundo Isabella, o processo da perda da audição aconteceu quando ela tinha 17 anos, pouco antes do início da Pandemia da Covid-19. Em janeiro de 2020, a influencer começou a perceber uma dificuldade grande de entender o que as pessoas falavam para ela no escuro das festas de verão que frequentava. Aos 18 anos, com o isolamento social e o uso frequente de máscaras para evitar a disseminação do coronavírus, a moça notou que já estava fazendo leitura labial.

“Só descobri que estava fazendo leitura labial quando fui até a farmácia para comprar uma máscara de proteção facial. A funcionária falou comigo, mas eu não entendi nada. Foi o momento que eu percebi que tinha algo de errado porque todo mundo estava entendendo o que ela dizia, menos eu. A partir de então, procurei investigar e recebi o diagnóstico [de que havia ficado surda”, conclui a atriz.

A estudante recorda que os médicos não lhe deram nenhum motivo para a surdez, apesar de terem levantado uma teoria que ainda está sendo estudada. As complicações para o diagnóstico se dão pelo período da vida em que ela ficou surda.

Isabella Bauer desabafa como o capacitismo interferiu em sua autoestima, fazendo com que ela se sentisse invalidada como mulher e profissional

Isabella Bauer desabafa como o capacitismo interferiu em sua autoestima, fazendo com que ela se sentisse invalidada como mulher e profissional (Foto: Amanda Lucchese)

“Uma das teorias é que a minha mãe contraiu uma doença quando estava grávida de mim: a toxoplasmose. Teoricamente, ela teria passado os efeitos da doença para mim. Um deles seria um dano no nervo ocular nos olhos e nos ouvidos. Os sintomas podem ser manifestados em qualquer momento, ou seja, eu passei 17 anos da minha vida sem apresentar nenhum. Quando completei 17, pode ter acontecido algum problema que encadeou isso”, disse ela, ao ressaltar que a formação dos ouvidos nunca apresentou deformidades.

Invisibilidade de pessoas surdas na luta anti-capacitista

Moradora de Porto Alegre, Isabella refletiu que o capacitismo no Rio Grande do Sul é mais alarmante do que em outros estados do Brasil. Portanto, a influenciadora observou que há uma necessidade maior de valorização do trabalho de pessoas com deficiência naquele lugar.

Em consonância, Isabella comentou ter trocado algumas experiências com um colega que também tem deficiência e produz conteúdo para as mídias. “Ele me contou que consegue muito mais oportunidades de trabalho, reconhecimento e valorização do que aqui, no Rio Grande do Sul. Por exemplo, aqui, parece que ele não é ninguém, que é uma figura totalmente desconhecida, mas quando sai daqui parece que ele é visto com outra perspectiva. É muito interessante que a gente tenha mais possibilidade de crescimento fora daqui”, critica.

De acordo com a estudante universitária, a surdez ainda é uma das deficiências mais misteriosas e diversas pela existência de inúmeros graus, de leve a moderado. O mistério e temor sobre ela se agravam com a possibilidade das pessoas se tornarem surdas – e não apenas nascem assim – em quaisquer períodos da vida.

O desconhecimento da população propicia uma série de mitos e estereótipos sobre pessoas com essa deficiência, o que faz com que poucos saibam que elas podem se comunicar de forma oral e sinalizar. Ela também destaca o papel do audiovisual na propagação de preconceitos com personagens que só sinalizam ou que usam aparelho auditivo. Pacientemente, Isabella explica que a surdez é algo muito diverso e único, assim como cada pessoa.

Relacionamentos como uma pessoa surda

Inevitavelmente, Isabella se sentiu mal em relações amorosas que estabeleceu desde a surdez por conta do preconceito estrutural. Com o tempo, a artista passou a acreditar que era “um peso” na relação, o que acabou por desgastá-la no final.

Surda, a atriz Isabella Bauer produz conteúdos sobre o tema do capacitismo

Surda, a atriz Isabella Bauer produz conteúdos sobre o tema do capacitismo (Foto: Divulgação)

“A gente acaba levando a questão do capacitismo estrutural [para o relacionamento] e, às vezes, é tão ruim que eu acredito que sou um peso na relação, que é difícil me amar e que eu não mereço isso. Lembro de uma frase que eu soltei há uns três anos, logo no início da surdez, para a minha mãe. Ela havia perguntado dos namoradinhos e eu respondi perguntando quem iria querer namorar uma pessoa surda. O problema da frase está aí. Eu estava boicotando outras pessoas e a mim mesma”, emociona-se, ao relembrar do episódio.

Não demorou para que Isabella entendesse que o problema não reside nela, mas nas pessoas que não entendiam que para se comunicar com ela precisariam desacelerar a fala um pouco, como exemplo. Por consequência, a atriz internalizou que ela não era um peso em seus relacionamentos, sobretudo amorosos. Após desenvolver a autoestima como uma mulher com deficiência e de seus valores, a artista se deparou com uma série de pessoas com disposição para me incluir nas conversas e nas atividades. Ela se considera sortuda pelas relações afetivas que construiu e preservou ao longo da vida.

A gente acaba levando a questão do capacitismo estrutural [para o relacionamento] e, às vezes, é tão ruim que eu acredito que sou um peso na relação, que é difícil me amar e que eu não mereço isso. Eu estava boicotando outras pessoas e a mim mesma — Isabella Bauer

“Essa foi uma construção muito grande com a minha psicóloga. Acredito que o acompanhamento com terapia para quem é PcD é fundamental porque o capacitismo estrutural nos faz acreditar que não somos merecedores do amor. Não só isso. A gente acredita que não merece ter um emprego e uma vida normal. Com o tratamento, entendemos que o problema não está na gente. A situação que a gente está inserido é o jeito como a sociedade lida conosco e acha que a sensibilidade é uma forma de favor, e não um dever”, declara.