Psicóloga fala sobre caso de agressão de DJ Ivis: O silêncio dos homens e o absurdo aumento de seguidores


As manifestações de repúdio ao DJ Ivis que agrediu brutalmente a ex-parceira, a influenciadora Pamella Holanda, levantam o debate sobre a naturalização da violência doméstica no país. Entre as personalidades, Fernanda Lima e Ana Paula Padrão se posicionaram nas redes e a psicóloga Maria Rafart esclareceu, à convite do site, o ciclo da violência que tantas mulheres ficam inseridas: “Muitos homens ameaçam tomar a guarda das crianças das mães, caso elas se separem. Também há ameaças de deixá-las desamparadas materialmente, o que acontece com frequência quando a mulher não trabalha fora. Por isso, quando mulheres famosas acusam seus parceiros de violência doméstica, acabam por encorajar outras a fazerem o mesmo. Este assunto deve e merece ser debatido, pois a sociedade precisa aprender que em briga de marido e mulher, pode-se, sim, meter a colher. Aliás, deve-se”

*Por Brunna Condini

As cenas avassaladoras da agressão de DJ Ivis, 29 anos, famoso cantor e produtor musical paraibano radicado no Ceará, contra a sua ex-mulher, a influenciadora Pamella Holanda, publicadas por ela nesse domingo (11), continuam a repercutir. Em vídeos gravados por câmeras de segurança interna, o produtor musical aparece agredindo Pamella na frente da sua mãe, da filha de nove meses do ex-casal e de um outro homem. As imagens são chocantes e demonstram a naturalização da violência contra a mulher no país. A polícia investiga desde o início do mês e diversos famosos como Solange Almeida, Xand Avião, Marília Mendonça, Juliette, Ludmilla, Ana Paula Padrão Fernanda Lima, usaram as redes sociais para se pronunciar, repudiando a atitude do DJ, além de criticar o salto no número de seguidores que ele teve depois que as imagens vieram à tona – saiu de 700 mil para mais de 1 milhão no Instagram. A psicóloga Maria Rafart fala como o gênero está intimamente ligado aos casos de agressão. “Embora as causas da violência doméstica sejam multifatoriais, a maior parte dos estudos aponta para a questão de gênero como predominante. Os parceiros agressores, que são homens, na maior parte dos casos, colocam-se em posição hierarquicamente superior à da mulher. Com isso, validam suas atitudes agressivas; seria como ‘educar’ uma mulher a ser mais submissa a eles. As ferramentas utilizadas são variadas: desde a violência usada para intimidar ou punir, passando por várias etapas de manipulação, onde a vítima chega a se sentir culpada pelo que acontece”.

O caso de agressão do DJ Ivis contra Pamella Holanda levanta mais uma vez o tema da violência doméstica (Reprodução)

O caso de agressão do DJ Ivis contra Pamella Holanda levanta mais uma vez o tema da violência doméstica (Reprodução)

Nesta segunda-feira (12) Fernanda Lima desabafou emocionada em um vídeo no seu Instagram, demostrando apoio à Pamella e preocupação com os posicionamentos masculinos (ou a falta deles), diante do ocorrido. A apresentadora refletiu sobre o aumento de casos de violência doméstica contra mulheres e de feminicídio (que é o homicídio motivado por gênero) no Brasil, ainda que o país tenha avançado em mecanismo legal, com a Lei Maria da Penha. Além disso, a apresentadora chama os homens para o enfrentamento e a defesa das mulheres, ao invés do “pacto da masculinidade”, que culturalmente leva homens a protegerem homens. “Fiquei me perguntando o que ainda precisamos fazer para que essa cultura de violência contra a mulher cesse de uma vez por todas. As mulheres denunciam, já conseguimos avanços legais, mas nada parece suficiente. O feminicídio cresce à cada dia e na pandemia ele ainda aumentou. São milhares de casos que nem damos conta de divulgar e pedir providências. Este caso é muito brutal e cada mulher que tem acesso às imagens fica com um embrulho no estômago. Dói na gente”, lamenta Fernanda.

Fernanda Lima: "Vocês homens não podem se calar diante de tanta covardia. Em briga de marido e mulher, a gente salva a mulher. Se os homens precisam de cura, nós mulheres, precisamos viver. Chega" (Reprodução)

Fernanda Lima: “Vocês homens não podem se calar diante de tanta covardia. Em briga de marido e mulher, a gente salva a mulher. Se os homens precisam de cura, nós mulheres, precisamos viver. Chega” (Reprodução)

“Na sequência das agressões vemos a presença de um outro homem que assiste à cena e não faz nada. Nada. É inacreditável. Esse pacto de silêncio entre os homens também precisa ser denunciado. Então, aqui fica uma convocação para os homens que não concordam com a violência contra a mulher a se posicionarem contra todo e qualquer tipo de violência que a masculinidade tóxica vem produzindo contra os nossos corpos e nosso filhos. A meu ver esse seria o papel de homem que se considera de Deus, de família, seja lá…vocês homens não podem se calar diante de tanta covardia. Em briga de marido e mulher, a gente salva a mulher. Se os homens precisam de cura, nós mulheres, precisamos viver. Chega”.

A jornalista e apresentadora do Masterchef Ana Paula Padrão fez coro com Fernanda e acrescentou ao debate, que julga ser urgente. “Infelizmente não é a primeira e nem a última vez que veremos imagens de um homem espancando uma mulher dentro da própria casa. Mas algumas coisas me indignaram muito desde a divulgação dessas últimas cenas e é por isso que vim falar com vocês. O primeiro é a cena em si. Porque o dia que eu perder a capacidade de me indignar com um homem espancando uma mulher, eu não vou me reconhecer. Não recomendo que você veja as imagens, mas se você tiver meio apático ou apática, contaminado pelo ambiente de permanente violência em que estamos vivendo, vai lá e assiste, porque pode ser que isso desperte você e te envolva numa causa que é necessária e urgente”, disse Ana Paula.

“Outra coisa que me incomodou muito foi o silêncio masculino, não vi grandes manifestações masculinas desde que as cenas se tornaram públicas. Inclusive numa das cenas em que o DJ Ivis espanca Pamella tem outro homem presente e sabe o que ele faz? Nada. Essa ‘confraria’ masculina é de uma masculinidade tóxica, horrorosa, e se estende a homens que são considerados bacaninhas, letrados maduros, e que diante de qualquer episódio de violência doméstica, feminicídio, muitas vezes dizem: “mas também, vocês feministas, estão transformando os homens em palermas, uma hora eles vão se revoltar” (suspira). Você sabe que eu temo que essa necessidade de desqualificar o outro para ganhar a discussão, que de alguma forma está sendo ‘chancelada’ pela situação política que estamos vivendo, acabe justificando esse tipo de argumento. E há muitos homens que têm profunda capacidade de argumentação e usam isso contra movimentos legítimos feministas. Vão ler história, se informar sobre estatísticas contra violência doméstica ou sobre mulheres assassinadas pela condição de gênero. E tem outra coisa que eu queria dizer, é que me impressiona o tanto de gente que dá ‘palco’ para idiotas. A nossa curiosidade sobre o que é sórdido, cretino, pelo o que é uma aberração, tem que ter algum limite. E quero dizer com isso, que você dá ‘palco’ quando dá visibilidade ao agressor, porque ele se sente de alguma maneira justificado, apoiado. Então pense bem, porque essas atitudes no Brasil são regra, um dos países em que se comete mais violência contra a mulher no mundo”, concluiu a apresentadora, referindo-se ao aumento de seguidores do DJ após a agressão se tornar pública.

O ciclo da violência

A psicóloga Maria Rafart comenta o fato de tantas mulheres ainda sofrerem violência conjugal em silêncio. “O ciclo da violência geralmente compreende um parceiro que inicialmente se comporta como um ‘príncipe encantado’. Ele é o homem dos sonhos daquela mulher, que algumas vezes já vem de outras relações violentas, seja na casa de origem, seja com outros companheiros. Um dia, este suposto ‘príncipe’ vira o jogo de sedução, e se torna violento. Após o primeiro episódio, costuma pedir desculpas, oferece presentes, diz que “perdeu a cabeça”, promete ser mais calmo em outra ocasião, e assim consegue o seu primeiro perdão”, analisa.

“Os ataques de violência sequentes costumam acontecer com a justificativa de terem sido ‘provocados’, e muitas vezes a mulher é chamada de ‘louca’. Muitas vezes, nem os pedidos de desculpas acontecem mais, porque a mulher já está tão identificada neste processo como culpada, que acha mesmo que provocou a ira do parceiro, e acabou sendo agredida por ser ‘tóxica’, outro adjetivo frequentemente utilizado pelos agressores. Este circuito infindável de agressão-manipulação-culpa da vítima é o que faz com que as agressões domésticas, em muitos casos, sejam denunciadas depois de meses, e inclusive, de anos. Às vezes, uma denunciante chega a retirar suas acusações, por acreditar que o parceiro mudará dali em diante, e torna a se colocar em risco pela proximidade com seu agressor. Em muitos casos, a vítima passa pelo que chamamos de processo de revitimização: pode ser a própria autoridade policial que questiona o porquê de tanto atraso na denúncia ou as pessoas em geral, que não compreendem este ciclo de violência, e o quão difícil é sair dele. As vítimas acabam, portanto, sendo violadas por seus agressores, e mais tarde, pela sociedade, que cobra delas uma atitude mais pontual e mais precoce”.

A especialista chama à atenção ainda, que estão previstos na Lei Maria da Penha, os cinco tipos de violência doméstica e familiar contra a mulher : física, psicológica, moral, sexual e patrimonial. E que é frequente que a questão financeira, combinada com a existência de filhos, costume pesar muito nas decisões de permanência em relacionamentos agressivos: “Muitas vezes, no discurso da ‘fase intimidadora’ do ciclo de violência, homens ameaçam tomar a guarda das crianças das mães, caso elas se separem. Também há ameaças de deixá-las desamparadas materialmente, o que acontece com frequência quando a mulher não trabalha fora. Por isso, quando mulheres famosas acusam seus parceiros de violência doméstica, acabam por encorajar outras a fazerem o mesmo. Este assunto deve e merece ser debatido, pois a sociedade precisa aprender que em briga de marido e mulher, pode-se, sim, meter a colher. Aliás, deve-se”.