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Os 20 anos da São Paulo Fashion Week: o incentivo à moda brasileira e as opiniões e lembranças de quem vivenciou as mudanças nesse cenário

Dos bastidores a quem fica em frente às câmeras, HT falou com gente como Costanza Pascolato, Yasmin Brunet, Renata Kuerten, Sérgio Mattos e muito mais para saber o que rolou nessas duas décadas. Vem com a gente!

Publicado em 20/04/2015 | Por João Ker

Para a São Paulo Fashion Week completar 20 anos é um marco histórico. Ao longo dessas duas décadas, o evento se consolidou como uma plataforma da moda brasileira, impulsionando a sua profissionalização, servindo como vitrine para o exterior do que produzimos aqui e, aos poucos, galgando um patamar inédito não só no país, mas em toda a América Latina.

Os feitos realizados por Paulo Borges, idealizador da SPFW, apontam até hoje para a mudança da concepção da moda no cenário nacional, trazendo-a para mais perto do público e promovendo ações para que estilistas e design fossem se aperfeiçoando. Desde 2008, a saúde de modelos tem sido colocada em debate, com a proibição de que meninas menores de 16 anos pisassem nas passarelas, algo pioneiro que veio anos antes da lei criada pelo The Council of Fashion Designers of America (CFDA). Até a discussão sobre a magreza excessiva das modelos entrou em pauta, com Paulo tomando, pessoalmente, a frente da conversa e mandando cartas aos estilistas. E até a diversidade nas passarelas foi fortemente incentivada, como uma forma de refletir as múltiplas cores do Brasil: 10% das modelos de cada desfile devem ser negras, exigência que custa R$ 250 mil aos bolsos de quem não a cumprir.

Mais ainda, a SPFW não só ajudou a moda a se profissionalizar, mas também a se tornar mais ciente das necessidades do mercado de consumo, mesmo que este esteja em constante e profunda transformação, ainda mais com a “recente” ascensão da classe C. “Agora tem mais gente competindo pelo mesmo bolso. Essa história de que a classe C é a nova classe de consumo é a novidade da vez, mas ninguém sabe o que ela realmente quer. Ela quer ser B, ser A”, comentou Paulo Borges, em 2012, com HT. Lenny Niemeyer, por exemplo, consegue enxergar claramente a importância do evento no que diz respeito às exportações de sua moda, como contou em entrevista exclusiva concedida a HT.

Portanto, não era surpresa para ninguém que a comemoração desse 20 anos estivesse por todos os cantos do Parque Candido Mendes nesta recente semana de moda. Antes de os desfiles começarem, uma vinheta incrível com quem fez história no evento era transmitida, com todos os rostos se fundindo, o que mostra como o espírito de coletividade foi o grande fator impulsionador da SPFW, que trouxe as maiores mentes criativas para convergirem em um espaço comum.

A exposição “Sonhando Acordado”, com fotos exclusivas de Bob Wolfenson, que conseguiu reunir outros nomes desses 20 anos, entre modelos, estilistas, stylists, jornalistas, make up artists, bookers e várias personalidades, também deu o que falar. Além das fotos que estavam expostas pelos corredores, um estúdio em parceria com o Instagram foi montado no local, onde o top fotógrafo registrava encontros tão marcantes. HT não ficou de fora e também participou do ensaio, em imagem que você confere abaixo. Além dos telões que passavam as fotografias em loop eterno, um livro com toda a produção será lançado em setembro, mês que marca oficialmente o aniversário da SPFW e ainda deve trazer outras ações.

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Os feitos da São Paulo Fashion Week para o crescimento da moda são únicos e teve grande influência para que o setor moda fosse incluído na Lei Rouanet, algo que só foi consolidado em 2013. Apenas um indício de como essa fatia da economia criativa nacional ainda pode se expandir. Mas, se algo é certo no mundo fashion, é sua eterna transformação, o que abre uma leque de infinitas possibilidades. Pensando nisso, HT foi atrás de quem viu, viveu e venceu ao longo dessas duas décadas, se tornando parte ativa dessa história da SPFW, e perguntou quais as maiores mudanças e melhores lembranças. Até porque, nas palavras do próprio Paulo Borges, o que transforma o cenário “é a mão de todos que não ficam na zona de conforto”. Vem com a gente:

Dono da agência 40 Graus e um dos bookers mais famosos e respeitados do mercado, responsável por lançar gente como Cauã Reymond, Isabeli Fontana, Ana Beatriz Barros e Maria Fernanda Cândido, entre muitos outros, Sérgio Mattos ajudou a compor grande parte das passarelas durante todos esses anos: “Acredito que a profissionalização das grifes seja algo marcante. É só pegar a Osklen como exemplo. Aqui é como uma vitrine para o mundo, não só de roupas, mas de modelos também: muitos scouters vêm para descobrir quem se destacou na temporada”, analisa.

O caça-talento Sérgio Mattos relembra que, antigamente, conseguia fazer desfile com 20 meninas suas ao mesmo tempo (Foto: Gabriel Barrera | Studio RGB)

O caça-talento Sérgio Mattos relembra que conseguia fazer desfiles com 20 meninas suas ao mesmo tempo (Foto: Gabriel Barrera | Studio RGB)

No backstage da Cavalera, enquanto gravava algumas cenas da novela “Verdades Secretas”, Yasmin Brunet se sentiu contagiada pelo “efeito Gisele” e comentou um dos momentos mais marcantes desses seus 13 anos de SPFW: “Lembro quando vi a Gisele desfilando para a Cia. Marítima, acho que em 2001. Pensei: ‘Nossa, ela é muito linda!'”, comenta. Perguntar se a über serviu de inspiração para Yasmin parece quase redundância: “Claro! Qual modelo não quer ser, pelo menos, a pontinha do cabelo da Gisele?”. De fato, Yasmin.

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Com trilhas sonoras que entraram para a história e ajudaram a consolidar a atmosfera de muitos desfiles, Zé Pedro levou à São Paulo Fashion Week uma mistura da nata da MPB com a música eletrônica. “Me deixei fazer Geni aqui. Cheguei e foi como uma reencarnação. Hoje, aqui é minha casa”, ri. Suas melhores lembranças vêm logo do início: “Eu já fiz de tudo. Até regi um coral de torcedores do Corinthians! Lembro muito bem de ter feito a trilha para um desfile da Forum, a convite de Giovanni Bianco, no SESC Pompeia. Foi a minha primeira vez aqui, em 1996″, recorda.

Zé Pedro conta que~foi tão apedrejado quanto Geni quando resolveu misturar clássicos de Maria Bethânia com música eletrônica (Foto: Gabriel Barrera | Studio RGB)

Zé Pedro conta que foi tão apedrejado quanto Geni quando resolveu misturar clássicos de Maria Bethânia com música eletrônica (Foto: Gabriel Barrera | Studio RGB)

Jackson Araújo é um daqueles profissionais de mil e uma utilidades na indústria da moda, tido como referência em todos eles: produtor musical, diretor criativo, coordenador de semanas de moda na África e por aí vai. Categórico, ele fala direto qual a sua maior saudade dos tempos passados na SPFW: “Sinto falta de quando a opinião das colunistas de moda conseguia influenciar uma massa e não havia essa solidificação de notícias superficiais, rasas e sem uma análise crítica sobre o conteúdo”.

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Com um infinidade de histórias divertidas na manga, Fábio Sales é o cara que coordena toda a segurança do evento desde quando ele começou, encabeçando o serviço da empresa Faqui. Ele diz que já viu de tudo nesses 20 anos: “Sempre que Gisele desfila é difícil, mas já temos um esquema infalível. Tem gente que tenta se esconder em tudo quanto é lugar para vê-la, até embaixo da passarela, achando que nós não vamos checar”, ri. “As situações mais atípicas são quando vem um astro internacional ou alguém inédito, como foi o caso da Xuxa, que causou bastante caos aqui”, comenta, dizendo que as pessoas tentam de tudo para entrar, desde a sedução até às famosas carteiradas de “sou amiga do fulano”. E como Fábio gostaria de comemorar esse aniversário? “Com um desfile gigante onde todo mundo pudesse ver esse mundo da moda”.

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Costanza Pascolato dispensa apresentações: a consultora e ícone da moda está sempre atraindo multidões por onde passa, posando pacientemente para cada uma das selfies que lhe são pedidas. Pegando HT pelo braço, ela explica que a São Paulo Fashion Week é um reflexo do que acontece na economia criativa do país: “O mundo inteiro está passando por uma crise financeira agora. No Brasil, isso parece pior para a moda, porque não há apoio efetivo dos governos que ajude a amparar a indústria. Estamos passando por um momento de transformação e basta saber apostar no nicho certo. O problema é saber qual”, diz.

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Falando em selfies, flashes e fãs, Dudu Bertholini é nome que raramente não está sendo assediado pelos corredores da SPFW. O stylist e estilista cita a maior transformação que ele enxergou ao longo das décadas: “A moda agora está mais profissionalizada, podemos até perceber um DNA mais forte da moda brasileira”, comenta. Seus melhores momentos? Os desfiles que eu fiz com a Neon. Ficou muita história boa!”.

Dudu Bertholini relembra os tempos com a Neon, enquanto posa no backstage da Cavalera com os índios Yuwanawá (Foto: Gabriel Barrera | Studio RGB)

Dudu Bertholini relembra os tempos com a Neon, enquanto posa no backstage da Cavalera com os índios Yuwanawá (Foto: Gabriel Barrera | Studio RGB)

Uma das tops que fez carreira dentro da SPFW ao longo desses 20 anos, Renata Kuerten hoje já é apresentadora de televisão e comenta que só tem memórias boas desses 11 anos participando do evento: “Teve um momento especial em que eu participei de um dream team de modelos e fizemos uma turnê de desfiles naquele ano. Eu acabei andando em 50 passarelas e fiquei em segundo lugar no ranking geral de quem fez mais entradas!”, comenta orgulhosa.

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