Gente & Comportamento

No Minas Trend Inverno 2016, Salão de Negócios mostra que empresários e a indústria da moda resistem à crise. Para isso, basta se reinventar!

HT percorreu os corredores do Expominas para falar com designers estreantes e estilistas experientes sobre como anda o fluxo de vendas no evento e descobriu que, para sair do vermelho, é só mostrar o seu diferencial no mercado

Publicado em 10/10/2015 | Por João Ker

Sob o tema “A força de quem faz”, a 17ª edição do Minas Trend, além de apresentar todo o caráter artesanal da moda mineira com desfiles das coleções para o Inverno 2016 confira aqui a apresentação do #day 1 e do #day2 -, também celebra a cadeia produtiva que faz a indústria fashion funcionar. E, para isso, tão importante quanto reconhecer o trabalho de costureiras e bordadeiras, é saber valorizar aqueles responsáveis pela parte de business, representada fortemente pelo Salão de Negócios paralelo ao evento que ocupou o Expominas nesta semana.

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Na entrada do Expominas era possível conferir a exposição comemorativa dos 35 anos do Grupo Mineiro de Moda que, sob a curadoria de um de seus fundadores, o estilista Renato Loureiro, reuniu fotografias, declarações, looks dessa trajetória e vídeos de alguns dos mais simbólicos desfiles coletivos que já contaram com as direções criativas de Regina Guerreiro, Paulo Borges e Paulo Martinez este último também assinou a apresentação desta edição.

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Como mostramos durante a festa de abertura do Minas Trend, algumas oficinas também foram ministradas ao longo do evento, nas quais estilistas como Fabiana Milazzo, Debora Germani, Rogério Lima e Heliana Lages mostraram para os participantes como é feito todo o trabalho manual de suas criações. Ao terem o contato com o cuidado minucioso que vai no bordado de cada pedra, renda ou aplicação, o público pôde entender melhor o significado real de “valor agregado” a um produto que carrega em si uma mão de obra qualificada.

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Já no Salão de Negócios, 200 expositores se organizaram pelo local, dentre os quais 39 grifes participavam pela primeira vez do evento, mostrando que, mesmo em meio à crise, é necessário investir na criatividade e em uma indústria que tem tudo para fazer o diferencial em meio ao pessimismo. Dentre os estreantes, está a marca homônima de Endy Mesquita, alagoana que parece ter acertado em cheio com a fórmula de seu début, já que a coleção desenvolvida especialmente para o evento já estava esgotada. “Hoje, quem tem um diferencial sai na frente. As pessoas chegam procurando ‘algo que ninguém tem'”, explica a jovem que aposta em máxi-colares e pulseiras, com inspirações na arte barroca e rococó.

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Dividindo o estande com Endy estava Juliana Gameleira, também de Maceió e que, ao lado da irmã Ariana, lançou a Artsório há cinco anos, transformando rendas renascença em clutches e bijuterias, na síntese da criatividade e do artesanal. “Confesso que vim aberta às possibilidades e esperando o pior, mas o resultado tem sido bem melhor do que eu imaginava”, comentou com HT. A história da grife, por sinal, parece um daqueles casos em que o destino dá um empurrãozinho para que tudo dê certo: após ela e a irmã terem comprado renda com o objetivo de fazerem um vestido para o Réveillon 2008, houve uma sobra de tecido que elas resolveram transformar em gargantilha. O sucesso entre as amigas foi tanto que, à medida que as vendas pequenas cresciam, a dupla fundou a Artsório, que agora se prepara para a sua primeira loja no Maceió Shopping. E como abrir o próprio negócio em meio a um mercado que parece se retrai em tantos aspectos? “A crise veio para criar alternativas. É preciso pensar em outras maneiras de conquistar o cliente e seu próprio espaço”, aponta Juliana.

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Em sua segunda inserção no Salão de Negócios do Minas Trend, Mariah Doria também se mostra otimista com o fluxo de vendas no evento. Integrando o time de alagoanas, a designer mescla prata com pedras naturais e toda uma filosofia por trás de sua produção, fazendo um balanço dessa edição: “Sinto que o público agora está mais focado no que quer, no que procura de verdade para comprar”, explica. E qual o segredo para conseguir um aumento no lucro durante esse período? “Antes, as minhas peças eram feitas com ouro, então tive que investir na prata, para deixar o preço mais acessível”, entrega.

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Contrabalanceando com as meninas da estreia, Claudia Arbex participa do Minas Trend desde sua primeira edição, ganhou até uma exposição no evento, sempre comercializando sua fashion jewelry e em 2015 chegou a colaborar com Fabiana Milazzo. E, na sua opinião, a atual edição mostrou poder. “Está muito boa, Recebemos muitos clientes novos, além do nosso público fiel, que já conhece e acompanha a grife há muitos anos. Acho que a principal atitude para contornar a crise é investir no seu produto e dar opções para o cliente. Quem chega aqui, encontra peças de todos os tipos e preços!”, observa. E quais os itens mais procurados pelo público? “O que eu tenho mais vendido é a coleção inspirada em Yves Saint Laurent, principalmente as peças que têm gravatas borboleta”, conta.

Pela segunda vez no evento, Mírian Lima, dona da marca Infinita, conta para HT a história da grife: “Sou psicanalista, mas há cinco anos resolvi trilhar o caminho da moda, que me fascina desde criança. Tomei essa decisão aos 50 anos, durante um congresso em Paris. Criei a Infinita com meu primo, Ângelo Fonseca, e juntos decidimos perseguir o segmento do alto luxo”, explica. Para a próxima estação, a estilista lança a coleção “Narciso”, fruto de um trabalho amplo de pesquisa e aprofundamento no tema. “Eu, particularmente, não gosto muito de aparecer. Resolvi então questionar esse novo mundo onde ninguém escreve mais, no qual as relações são trocadas por figurinhas de celular etc. Sinto que, como agentes da moda, temos a obrigação de dizer algo ao mundo, e esse é o discurso que eu escolhi”, explica.

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Natural de Minas Gerais, Victor Dzenk tinha um estandes repleto de compradores quando fomos conversar com ele. Para a coleção de Inverno 2016, o estilista desenvolveu 300 peças, e comentou com HT: “Estamos tendo um retorno muito positivo. Muitos clientes antigos da marca estão renovando e também sentimos um novo mercado chegando”, conta. E, em relação a ter que diminuir o preço dos produtos para ver saída, ele comenta que não houve nenhuma alteração drástica: “Não há como mudarmos muito esse aspecto, porque desde que a crise chegou estamos tendo um aumento muito forte no preço da matéria-prima, o que acaba influenciando o próprio produto”.

Criada pelas gêmeas mineiras Carolina e Marcela Malloy, a Arte Sacra também apostou no conceito de individualidade e, com sua moda de festa autoral, lança a coleção “Romance imaginário”, inspirada por uma peça de teatro fictícia, que surgiu durante uma viagem da dupla à Áustria. Nas criações, uma mescla entre a pegada romântica através de volumes e babados, e a sensualidade da mulher contemporânea, explícita em fendas e transparência, tudo com o bordado manual como carro-chefe, e ilustrando uma dualidade entre o a riqueza do passado e a leveza do presente. “Quisemos mostrar uma princesa pós-moderna, com princess dresses, mas também fazer o contraponto com os flirt dresses,  que têm uma silhueta de sereia etc”, explica Marcela.

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E ai de quem imaginar que a grife passa pela crise. HT chegou bem em cima da hora em que as moças fechavam negócio com um cliente da Arábia Saudita, que estava com o objetivo de investir na moda brasileira após algumas experiências ruins com os mercados da China, Índia e Turquia, e ficou apaixonado pela coleção das moças. “Nós trabalhamos muito com o tema da celebração, mas acho que ninguém passa ileso por um período assim. O jeito é levar tudo com tranquilidade. Essa feira superou as nossas expectativas”, comentou Marcela, contando ainda que emprega cerca de 40 pessoas em um “laboratório” utilizado para confeccionar suas peças.

Por onde se olhava no Salão de Negócios do Minas Trend, era possível perceber que a moda mineira e, consequentemente, nacional, não mostra sinal de esgotamento. Ao contrário: tem energia suficiente para se renovar, vide os talentos que foram concebidos no concurso de novos designers do projeto “Ready to go”. Gente jovem, com força de vontade e garra, pronta para conquistar o mundo, venha o que vier. E não é assim na indústria fashion? Um ciclo sem fim, como um moinho que não importa quão baixo fique o nível da água, não para de girar jamais.

 

 

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