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Na peça “Perdas e Ganhos”, Nicette Bruno encara seu primeiro monólogo e brilha com texto comovente

Baseada no livro de Lya Luft, obra traz uma reflexão sobre os altos e baixos da vida e tem forte semelhança com a história pessoal da atriz

Publicado em 20/02/2015 | Por Heloisa Tolipan

*Por Júnior de Paula

Quinta-feira (19/2), às 18h, com um calor de rachar no Rio de Janeiro, cerca de 300 pessoas estavam sentadas no Teatro Leblon, na Sala Fernanda Montenegro, para mais uma sessão de “Perdas e Ganhos”, peça adaptada e dirigida por Beth Goulart do livro de Lya Luft para uma cada dia mais genial Nicette Bruno mostrar todo o seu talento. Do alto de seus 82 anos e mais de 60 dedicados à carreira, este é o primeiro monólogo ao qual ela se arrisca e que começou a nascer há cerca de cinco anos. Ela, em conversa com a filha, disse que queria adaptar o livro da escritora gaúcha e, à época, Paulo Goulart (1933-2014), seu marido e companheiro por também 60 anos, deu o maior apoio à ideia da amada de fazer sua primeira incursão sozinha no palco.

Beth Goulart e Nicette Bruno juntas no Teatro Leblon (Foto: Divulgação)

Beth Goulart e Nicette Bruno juntas no Teatro Leblon (Foto: Divulgação)

Acontece que, no meio disso tudo, a doença de Paulo se agravou e ele faleceu, fazendo com que o projeto ficasse guardado na gaveta por um tempinho. Em maio do ano passado, Nicette e Beth começaram as leituras e o processo de colocar no palco os textos confessionais de Lya, que tanto diziam o que a própria atriz gostaria de dizer. Em determinado trecho, por exemplo, com os olhos marejados, mas a voz firme, a atriz diz que “perder o amor para a morte é a perda das perdas. Eu quero viver da maneira que ele gostaria que eu vivesse, bem, integralmente, saudavelmente, com alegrias possíveis e projetos até impossíveis”.

No palco, além dos momentos quase biográficos, ela reflete sobre as perdas e ganhos do envelhecer, sobre a infância, sobre a morte e até sobre a segunda chance ao amor. A direção de Beth, sua filha, é muito delicada e sempre em função de fazer Nicette, com justiça, brilhar. O cenário lindo de Ronald Teixeira serve como plataforma muito inteligente para as muitas projeções exibidas no palco, num crossover entre teatro e cinema. Pontos altos da apresentação de 50 minutos na qual Nicette interpreta uma mulher que se permite a novas experiências dentro de sua rotina e, ao fim, vira anjo.

Nicette Bruno apresenta o monólogo "Perdas e Ganhos" (Foto: Divulgação)

Nicette Bruno apresenta o monólogo “Perdas e Ganhos” (Foto: Divulgação)

A luz de Maneco Quinderé também é um acerto e a proposta de colocar personagens em meio à narrativa, como a mãe que perde o filho, é inteligente e dá frescor ao monólogo. Ah, e não dá para deixar de citar a trilha sonora, que traz Nicette ao piano, tocando uma música composta para Paulo Goulart. Outro detalhe importante é o aviso de desligar os celulares antes de a peça começar, narrado pelo saudoso e querido ator. Programa imperdível para quem quer ver uma diva das artes brasileiras no palco e refletir sobre as perdas e ganhos da vida.

Nicette Bruno apresenta o monólogo "Perdas e Ganhos" (Foto: Divulgação)

Nicette Bruno apresenta o monólogo “Perdas e Ganhos” (Foto: Divulgação)

 

* Junior de Paula é jornalista, trabalhou com alguns dos maiores nomes do jornalismo de moda e cultura do Brasil, como Joyce Pascowitch e Erika Palomino, e foi editor da coluna de Heloisa Tolipan, no Jornal do Brasil. Apaixonado por viagens, é dono do site Viajante Aleatório, e, mais recentemente, vem se dedicando à dramaturgia teatral e à literatura

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