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Letícia Isnard estreia com espetáculo em janeiro: “Esta peça está salvando a minha vida”

A atriz está se preparando para a estreia do espetáculo Rio 2065 que traça um panorama futurista da Cidade Maravilhosa onde tudo se tornou um parque temático privatizado. Em papo exclusivo com o site HT, ela falou sobre os julgamentos por ser artista e falta de patrocínio

Publicado em 27/12/2018 | Por Ana Clara Xavier

O futuro é incerto, mas a atriz Letícia Isnard está fazendo a sua parte. Ensaiando para o espetáculo Rio 2065, que estreia dia 09 de janeiro no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), a peça leva para o palco um espírito de ficção científica com efeitos especiais sem perder o clima de teatro, em comemoração aos 20 anos da companhia Os Desequilibrados. “Este é um gênero que se explora muito pouco, por isso está sendo super divertido e inusitado”, comentou. Com texto de Pedro Brício, o enredo se passa em um futuro próximo no qual a Cidade Maravilhosa foi inteiramente privatizada e se tornou um parque temático, o Rio Fun World. Sob o panorama de disputas políticas, a peça relembra algumas linguagens específicas cinematográficas como ação, mistério e noir. “Esta peça está salvando a minha vida, porque é uma comédia e conseguir ter senso de humor neste momento é muito complicado. Nunca foi fácil e nunca será, isto é Brasil. Estamos vivendo um retrocesso de valores que está disfarçado de moralidade. Isto não é defender a família, mas, na verdade, a exclusão e a intolerância”, criticou Letícia Isnard.

Letícia Isnard vai entrar em cartaz no dia 09 de janeiro no CCBB. O espetáculo Rio 2065 conta com sete atores interpretando mais de 30 personagens (Foto: Divulgação)

Em papo exclusivíssimo para o site HT, a atriz analisou o cenário político que estamos vivendo e ainda lamentou a dificuldade de se colocar uma peça em cartaz. Apesar de estar prestes a estrear com Rio 2065, ela comentou que não está sendo fácil tocar projetos culturais interessantes. Além da falta de incentivo fiscal, ela acredita ser preocupante o estigma que diz existir com relação à classe artística, que está cada vez mais desvalorizada.  “Nós, artistas, estamos muito maltratados. Criou-se um preconceito muito grande. Acho um absurdo nos chamarem de mamadores de teta do governo. Isto é tão ridículo quanto outras fake news que estão aparecendo nos últimos tempos. Estamos muito abatidos e tristes”, lamentou

Letícia Isnard afirmou estar sendo constantemente atacada pelo fato de ser artista

De acordo com ela, é assustador a diminuição do público nas plateias dos teatros nacionais. No entanto, esta escassez está mais ligada à falta de divulgação e incentivo. “Gostaria que a imprensa voltasse com o tijolinho, porque facilita na hora da procura. O povo precisa saber o que está rolando, porque nós não temos o poder de usar as redes sociais como certas pessoas… Podíamos aprender com o inimigo”, comentou Letícia Isnard fazendo referência à forte campanha feita pela internet do presidente eleito Jair Bolsonaro que, em grande parte, o levou a ganhar o cargo.

Super politizada, a atriz soltou o verbo sobre o cenário atual. Em sua avaliação, a quantidade de ódio e a cultura de massa que se espalha pelo mundo é fruto de uma crise do sistema. “Nós estamos vivendo um momento de curva -e queda- do capitalismo. O sistema já provou que não dá certo. Só funciona se tiver uma massa de escravos para meia dúzia tomar um coquetel à beira da piscina. É uma conta que todos estão pagando juntos”, garantiu.

Apesar de traçar apenas paralelos negativos, Letícia garantiu que nem tudo são trevas. De acordo com ela, existem várias iniciativas bacanas ao redor do mundo e pessoas que estão ajudando a construir uma sociedade mais igualitária. “Enquanto estamos destruindo tudo com o petróleo, já inventaram outras fontes de energia. Temos que dar tanta voz às coisas boas quanto damos às ruins”, informou. Mesmo com todos os problemas, a atriz garantiu que a resistência e a esperança são uma realidade, inclusive, dentro do próprio ambiente artístico. “Sabemos que vamos superar tudo. Pode vir um atentado nuclear que o teatro continuará para sempre existindo. Nós conseguimos criar uma ficção científica do zero. É uma ferramenta poderosa como a literatura que nos leva a criar junto. Vamos resistir”, salientou. Não temos dúvidas!

Letícia Isnard fez um apelo para que as pessoas deem tanto ibope para quem está tentando fazer a diferença quanto dão para as desgraças (Foto: Divulgação)

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