Izabella Camargo sonha voltar à TV e virou ativista da causa do Burnout: “Jornalistas têm e não reconhecem”


Sob a prerrogativa do “não quero ego quero ser eco”, a ex-jornalista da Globo Izabella Camargo fala em detalhes sobre como se deu a sua crise de Burnout na TV e como planeja a sua carreira para os próximos anos. Ultimamente, a comunicadora tem trabalhado como palestrante e discutido, especialmente as razões que levam as pessoas ao esgotamento mental profundo provocado pelo Burnout. Num mundo hiperconectado, competitivo e com cobranças altíssimas é difícil não ceder ao ímpeto de “melhor aluno da classe”. Izabella estabalece as diferenças entre cansaço, esgotamento e o Burnout, que geralmente vem acompanhado de uma situação de assédio. ‘Iza’ também fala do quão importante é ter uma produção sustentável e impor limites num ambiente de trabalho para não ser soterrado por ele, em especial se trabalhando numa grande empresa. Ela também ressalta que hoje há elevada quantidade de jornalistas vivendo com Burnout sem, contudo, colocar-se disponíveis para tratamento ou por não reconhecerem ou por se envergonharem disso

*por Vítor Antunes

Uma longa trajetória na televisão. Entre as atuais emissoras de TV, Izabella Camargo passou por quase todas – SBT, Band e Globo. Na Band, recebeu Menção Honrosa do Prêmio Esso e na Globo ficou por muitos anos, entre 2012 e 2018. Os anos nos veículos de comunicação revelam que o excesso de trabalho, especialmente no jornalismo, vem sendo uma tendência. Segundo Izabella, “o Burnout no jornalismo é tão alto quanto aquele que acomete aos profissionais de saúde. O problema não é apenas o excesso de trabalho, mas este somado a um ambiente de assédio”. Segundo Izabella, o tema ainda é pouco procurado ou estudado, a não ser que esteja batendo à porta. “Há quem procure saber sobre o assunto quando está vivendo na pele ou quando há pessoas próximas adoecidas. No caso do jornalismo, há pessoas que me procuraram, mas estas estão num número menor frente àquelas que não falam estar sofrendo disso e não falam por estarem envergonhadas ou se negam a reconhecer”. Izabella teve uma crise de Burnout enquanto fazia a previsão do tempo, no ar, num jornal da Globo. O esgotamento era tamanho que ela não lembrava da cidade de Curitiba, capital do Paraná. A jornalista nasceu no Paraná.

A crise de Izabella não foi discreta. Conforme citamos anteriormente, ela passou por apuros ao ao vivo enquanto fazia um dos trs jornais que apresentava pela manhã. Lembra-se perfeitamente daquele dia. Não é a única, porém. Geralmente os que compartilham da mesma situação lembram exatamente o dia em que tudo ruiu: “Não há uma pessoa que tenha me procurado que não se lembre exatamente do dia em que o corpo determinou um limite”. O motivo que desencadeou a crise –  a frase, comentário ou ordem – não nos foi revelado pela repórter. Há um imbróglio jurídico entre ela e a Globo, do qual ela prefere manter a discrição, mas relata que “foi uma sequência de situações que desencadearam. Foram vários episódios”. Afastada para tratar de sua saúde, quando Izabella voltou à emissora, foi dispensada.

Tem muita gente querendo prestígio e chegar no máximo da carreira. Só que quando chega “lá” está adoecido. Eu cheguei na principal emissora de comunicação do país e não sabia me comunicar comigo. Meu ritmo estava insustentável. Muitos de nós alcança o que deseja mas dessa forma, beirando o insustentável – Izabella Camargo

Izabella Camargo: “Não sabia me comunicar comigo” (Foto: Reprodução)

Segundo relata a comunicadora há uma diferença entre o cansaço, o esgotamento e o Burnout. “Há um caminho. Eles não são sinônimos. Quando se atinge o Burnout, associado a ele há a questão do assédio, um dano existencial que desencadeia reações num corpo que já está esgotado e o assédio é a gota que faz transbordar. Isso se dá com pessoas que engolem muitos contextos insustentáveis, pessoas que fazem o melhor possível estando com poucos recursos e que já estão no limite ou quando um superior hierárquico dá uma fala que beira o “inacreditável”, ou seja, quando o melhor de si não é mais suficiente. Numa situação desta, o corpo entra em colapso, como sinal definitivo para parar. Isso pode vir em forma de desmaio, de um apagão ou de uma perda de funcionalidade. Eu deixei de dirigir, não compreendia textos por meses. A diferença está aí. Não se pode vulgarizar o diagnóstico, já que ele é clínico, mas eu consigo perceber quando uma pessoa está vivenciando isso. Essa pessoa [que está convivendo com o Burnout] já está em sofrimento, já acumulou muitas doenças, já está com uma dor de estômago eterna e que acha que é uma gastrite, tem enxaqueca frequente, acumula doenças…”, enumera.

Quanto mais prestigio um local tem, mais o profissional se encolhe para caber nele – Izabella Camargo.

O debate sobre o Burnout ainda é incipiente ou inexistente nos veículos de comunicação? “O não falar não significa que não exista. O Burnout está em muitas redações sim, mas não há pesquisa sobre isso e não há debate sobre em estabelecer limite. As redações que ainda não aceitam isso estão com os dias contados, especialmente em razão da pluralidade de veículos hoje, que revela possibilidades onde eu não via”. Segundo relata-nos Izabella, referenciando-se a dados do INSS, a saúde mental está entre as três principais causas de afastamento do trabalho. E, só agora, depois de 24 anos, a síndrome de Burnout foi incluída no rol das doenças de trabalho. Na semana em que fizemos esta entrevista explodiu outro caso de demissão por  conta desta doença. A  jornalista Poliana Mazzo, da TV Centro América, retransmissora da Globo no Mato Grosso, foi dispensada uma semana após retornar ao expediente e havia diagnosticada com um quadro grave de síndrome de Burnout, chegando a ter crises de pânico e ansiedade na frente dos colegas.

Segundo conta Izabella, há uma tendência a culpabilizar a vítima. “Se o perfil é de muito trabalho, mas é um ambiente saudável e humano, não vai haver Burnout. A pessoa vai performar o melhor possível”. A comunicadora quer trazer o assunto ao debate, não só academicamente, mas também às empresas. “Não há pesquisa sobre isso. Quero criar um movimento capaz de fazer pensar sobre o EPI (Equipamento de Proteção Individual) de saúde mental – pode ser que seja o direito de desconexão, ainda que possa parecer óbvio, e que deveria ser oferecido. Além deste, a terapia, a atividade física”.

Izabella Camargo: É preciso olhar os próprios limites e não feri-los por demandas do trabalho (Foto: Divulgação)

MUNDO NOVO, VIDA NOVA

Para 2024, Izabella Camargo quer iniciar um movimento nacional para que se implante na empresas o EPI de saúde mental. “Durante esse 2023 eu passei em dezenas de empresas e sempre que manifestava essa intenção havia apoio. As empresas precisar pensar nisso e  também, na produtividade sustentável, um dos temas nos quais norteio as minhas palestras. Quando se fala em sustentabilidade, fala-se em ESG (Governança ambiental, social e corporativa), mas se acabamos por colocar a sustentabilidade de um lado e a produtividade do outro, isso nos faz adoecer. Se queremos um mundo sustentável e com recursos sustentáveis, é preciso produzir de modo sustentável, tendo consciência do que se faz. Não fomos doutrinados, orientados a fazer o simples e o adoecimento, em muito, se origina por falta de percepção do que é sutil”.

Antes as pessoas me pediam uma foto e hoje pedem abraço. E, não raro, choram. Quando trabalhava na TV, eu carregava o sobrenome da empresa e quando fui demitida eu não era ninguém. O tempo foi passando, fui me tratando, me realibilitando. Investir em prevenção é menor que tratamento em doenças – Izabella Camargo

E ela prossegue analisando o comportamento do jovem no mundo corporativo, no que pode desencadear uma exaustão profissional: “Aos 20 ou 30 anos entramos na armadilha da competência que é o de se dar mais trabalho para sentir-se reconhecido como profissional competente. Porém, nem sempre há recompensa em salário por isso. O reconhecimento profissional precisa vir de todas as formas, tanto emocional como financeiro. Nessa fase da vida, em que queremos mostrar o quão competentes somos, adoecemos. Não há um respeito ao limite do corpo. Com essa idade, o corpo reage de uma maneira a noites mal dormidas, a plantões de fim de semana em que o descanso não é priorizado, a almoços feitos de qualquer forma. Quando o tempo passa, o corpo exige mais recuperações. Hoje estamos expostos a estímulos mentais o dia inteiro. A gente se deixa para depois. Nesse momento, a imunidade está baixa e a irritação, alta”.

À leitura pode sugerir de que na maioria das vezes há culpa no empregador, que demanda em muita energia o seu funcionário. Mas isso não é regra. “Há quem seja assim voluntariamente, e que quer abraçar o mundo e se anular. Isso é muito presente, especialmente nos ambientes que mais performam. Essas são as pessoas que são pau para toda obra e que acabam experienciando o um abuso existencial. O excesso de trabalho é a razão para estarmos quebrados ao fim do dia, cansados, aflitos, substituindo espaços valiosos de descanso com mais estímulos. Produtividade sustentável não é sobre trabalhar menos, mas a trabalhar com limites, considerando que estamos envelhecendo mais e que passaremos mais tempo nesta fase da vida, podendo fazer o que amamos e sem prejuízo nos relacionamentos interpessoais e profissionais”.

Não é por que as noticias não param, que nós, jornalistas, não podemos ter direito à desconexão – Izabella Camargo

Izabella Camargo critica a hiperconectividade moderna: “Não há descanso” (Foto: Divulgação)

 

TELEVISÃO E SONHOS

Preguntamos à Izabella se ela pretende voltar à televisão e ela diz que “nunca quis sair, bem como nunca deixei de pensar em voltar, mas cansei de esperar. Voltar para o hard news seria minha redenção, mas o convite não veio – ou os que vieram não me agradaram. Voltaria para a TV ou rádio sim, mas também sendo útil naquilo que acredito, despertando pensamentos para as pessoas conhecerem outras coisas… Hoje tenho repertório, experiência, bagagem”. Há pouco tempo, a jornalista estava na Rádio Bandeirantes e fazia as locuções para a TV do mesmo grupo, mas não está mais lá. “O horário da rádio me prendia e não conseguia lidar”, afirma.

Num momento em que os influencers estão em profusão e as escolas de Jornalismo cada vez menos qualitativas, é possível que influenciadores substituam profissionais de comunicação? Para Camargo, não. “Há público para tudo. Há uma turma consome esse conteúdo de influencer, mas há quem precise e confie no jornalismo profissional. Sob algum aspecto, todos somos influenciadores. E há responsabilidade em quem faz conteúdo assim, mas também em quem consome. Este movimento exige coerência, é o caminho do meio. Os extremos são sempre ruins. Anteriormente havendo só a mídia tradicional e hoje que há redes sociais, todo mundo é comunicador. Claro que todo mundo pode comunicar, mas nem todos têm o que comunicar. É preciso ter responsabilidade”.

São muito distantes as Izabellas que passaram pela TV? A adolescente que fez parte do elenco do “Fantasia“, programa kitsch do SBT, daquela que passou pela Globo e Band ou a de hoje, madura, discutindo saúde mental? “Quando estava no ‘Fantasia‘, eu era adolescente e não sabia o que faria da vida. Quando cheguei à Globo vi outra capacidade de comunicação. Fora da Globo consolidei meu nome. Se antes, na TV, eu falava de vários temas, apagava incêndio todo dia, tapava buraco de rua diariamente, depois do Japão e da demissão tive que empreender a fórceps. Com o mesmo esforço que tive ao acreditar numa matéria que ninguém na emissora acreditava e que acabou recebendo menção honrosa do Prêmio Esso. Foram divisores de águas”.

Izabella Camargo no programa “Fantasia”. Ícone kitsch dos Anos 1990 (Foto: Reprodução/SBT)

Já que falamos de metas, objetivos, análises… Qual o sonho que ainda a move? “No que depender de mim, provocar que hajam leis para prevenção e políticas de saúde mental. E, como sonho também, especialmente para quem não pôde se se despedir do lugar onde trabalhava, queria ter um programa de TV, de entrevistas  ainda que eu já tenha um podcast – que foi escolhido entre os mais ouvidos do Spotify neste ano. Queria voltar para a mídia televisiva em razão de ter um maior alcance. Há muita gente que só acessa a TV ainda. Queria expandir minha voz para ainda mais pessoas”, finaliza.