Gente & Comportamento

Good Vibrations! Natiruts, Julian Marley e The Wailers trazem ao Rio a positividade do reggae, com a bênção de Gilberto Gil

Em noite calorenta na Fundição Progresso, grupo brasileiro celebra o verão e filho de Bob Marley faz dueto com a lenda da MPB

Publicado em 11/01/2015 | Por Heloisa Tolipan

*Com Yuri Hildebrand

Enquanto Maria Bethânia comemorava seus 50 anos de carreira no Vivo Rio, a Fundição Progresso transformava-se  no epicentro carioca do reggae, transbordando boas vibrações na noite deste sábado (10/1). Não é para menos: a programação inesquecível trouxe dois dos maiores nomes do gênero para o mesmo local. Um com todo o tradicionalismo brasileiro de quase 20 anos na estrada e o outro como um dos berços do gênero. Sim, a dobradinha Natiruts e The Wailers, grupo criado por Bob Marley na década de 1960, pintou os Arcos da Lapa e a Cidade Maravilhosa com as cores do rastafári.

Em épocas de pragas sociais e atentados violentos à humanidade, as vibrações tão comentadas e pregadas nas letras de Bob Marley trazem atitude, postura e credo que parecem faltar na contemporaneidade. A guerra, o genocídio, as mazelas sociais e outros problemas agravados hoje em dia eram duramente criticados pelo Rei do Reggae, mas sempre de forma suave e alegre como manda o manual do ritmo. “O que ele falaria vendo a situação do mundo hoje em dia? Cantaria ‘War’, com certeza.”, afirma Leonardo Amaral, que trabalha com transporte alternativo e foi curtir os shows deste fim de semana. Desde pequeno, ele e sua companheira, Flávia Lourenço, acompanham a música propagada por Marley; Natiruts – antes conhecido como Nativus –, Ponto de Equilibrio, Alpha Blondy e Planta e Raiz também figuram na playlist de favoritos do casal.

Flávia Lourenço e Leonardo Amaral, casal do rasta-love (Foto: Mariana Damous)

Flávia Lourenço e Leonardo Amaral, casal do rasta-love (Foto: Mariana Damous)

Com um púbico bastante diversificado, o sentimento geral era de paz, fruto da filosofia ministrada pelos dois grupos. Com a força que lhe é característica, o reggae uniu pessoas de diversos cantos do mundo. Yan Denko, suíço e estudante de Relações Internacionais na USP veio ao Rio de Janeiro a passeio, mas aproveitou para curtir o som icônico do Wailers. “Eu cresci ouvindo ska [gênero jamaicano], e com 14, 15 anos, comecei a curtir o reggae. Não sou Rastafari, mas acredito no que eles passam: amizade, paz e amor”, disse. Também presentes por lá, Rafaela Muzzy e Oscar Mariano falaram um pouco sobre a paixão pelo ritmo. “Curto o estilo desde os 10 anos. Com Ponto de Equilíbrio, Planta e Raiz, o próprio Natiruts e outros, fui conhecendo mais e o gosto foi crescendo. Sobre Bob Marley nem preciso falar, né?”, declara Oscar, que também palpitou sobre o que faria a lenda da reggae-music atualmente: “Tentaria mudar o mundo com música. Só ela consegue chegar nas pessoas a esse ponto.”

Yan Denko ao lado do ídolo (Foto: Mariana Damous)

Yan Denko ao lado do ídolo Bob Marley (Foto: Mariana Damous)

Após certo atraso exagerado, o Natiruts subiu ao palco para animar a grande massa que encheu a Fundição. Claro que, na hora, o calor, a espera e o horário ficaram para trás da apresentação. Muitas músicas conhecidas, como “Beija-Flor” e “Você me encantou demais” fizeram o público cantar junto e pôr o corpo em movimento. O ritmo mais dançante da música mundial trouxe um ar de tranquilidade para a casa. Celebrando o verão carioca, o vocalista Alexandre Carlo puxou “Dentro da Música II”, aumentando ainda mais a voz vinda da plateia. Na última quinta-feira (8/1), o grupo já havia gravado mais um “Luau Natiruts” em Salvador, contando com nomes como Ponto de Equilíbrio e Armandinho. Nesta noite, a banda de Brasília homenageou ambos com “Jah Jah me levee Desenho de Deus”, respectivamente. Além da homenagem, também apareceram pela setlist nomes como Charlie Brown Jr., Paralamas do Sucesso e Planta e Raiz. Fechando o show, o hit “Liberdade Pra Dentro da Cabeça”, com a banda pregando respeito às lendas do reggae mundial.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Já  passava das 3h quando Julian Marley subiu ao palco. Acompanhado do maior grupo de reggae da história, The Wailers, o quarto filho de Bob Marley começou sua apresentação com a melhor música possível: “Natural Mystic”, que abre um dos CDs mais famosos da banda, “Exodus”. A energia – que já estava nas alturas – voltou a explodir com o anúncio de um participante de luxo: Gilberto Gil, dono de uma releitura da obra de Bob Marley e seu amigo pessoal, subiu ao palco para cantar “No Woman No Cry”, em uma versão que mesclava português e inglês. Gil ainda falou com exclusividade ao HT, enaltecendo a imagem de Bob Marley: “Ele era um pacifista; lutava contra qualquer tipo de preconceito, segregação, apartheid… Se ele estivesse aí hoje, com certeza estaria lutando por uma sociedade mais justa, mais igualitária, como sempre lutou: através da música”. Após a participação ilustre do mestre da MPB, Julian Marley voltou a outros sucessos de seu pai como “Stir It Up”, “Rastaman Vibration” e “Roots Rock Reggae”, fechando com a clássica “Get Up, Stand Up”.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Pode soar um pouco romântico, mas certamente as boas vibrações da Fundição reverberaram pela Lapa e pelo Rio de Janeiro. As mensagens de paz propagadas por Bob Marley através de seu filho, Julian, e pela voz de Alexandre Carlo, do Natiruts, são apenas algumas das diversas outras que fazem e consomem o reggae no mundo. Seja você rastafari ou um simples adorador da música, a filosofia transmitida pela cultura e pelo ritmo jamaicano constrói um ser humano com mais leveza, tranquilidade e compaixão. Em tempos de guerra, terrorismo e extremismo, nada melhor que uma mensagem de paz com o aval de Gilberto Gil para lembrar que ainda existem aspectos positivos na vida.

Pesquisas relacionadas