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Exclusivo! Emicida faz Copacabana pular com o Natura Musical e declara: “A arte tem o papel de não deixar que a história desapareça”

Em entrevista concedia ao HT logo após sua apresentação, o rapper comentou como o projeto é importante para difundir a arte brasileira: "Precisamos não cair no risco de achar que a região Sudeste é o norte do país, e a indústria é muito preguiçosa nesse aspecto"

Publicado em 30/11/2015 | Por João Ker

Chovia forte na Praia de Copacabana durante a tarde deste domingo (29), mas nem São Pedro conseguiu diminuir o ritmo e a empolgação do público que, de biquíni, capa de chuva, sunga ou sombrinha, aguardava ansioso pela entrada de Emicida no palco do Natura Musical. O rapper foi o terceiro artista a participar do evento e um dos maiores atrativos da programação, sendo recebido por aplausos ensurdecedores de uma legião de fãs que o aguardava, com os corpos colados na grade. E bastou ele começar as rimas de “Boa esperança”, primeira música de divulgação do seu mais recente disco, Entre crianças, quadris, pesadelos e lições de casa”, para a multidão pular junto.

Ao longo do show, Emicida provou novamente a força incrível de seu rap, assim como o havia feito durante sua recente apresentação no Circo Voador, com presença de palco, indo de um canto ao outro, animando até os VIPs como Fabiula Nascimento, Marco Pigossi e Luís Miranda, que, assim como a galera da areia, não se importaram com a tempestade. “O bom da chuva é que ela espanta os curiosos, e aí só fica quem está realmente interessado em ver o artista que admira”, brinca o rapper em seu camarim, minutos após o show, em entrevista exclusiva ao HT.

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No palco, Emicida já havia confidenciado ao público: “Vocês são as melhores pessoas com quem eu poderia tomar um banho de chuva”, disse, recebendo como resposta um urro uníssono que afirmava a recíproca. Outro grande momento em que foi ovacionado ao longo do show foi ao abordar o fuzilamento de cinco jovens pela polícia na Zona Norte, durante a noite anterior. “Não desista, Rio de Janeiro! Não se acostume ao cotidiano violento!”, disse, oferecendo a música como uma homenagem às vítimas.

“Quando Adoniran Barbosa descreveu São Paulo, ele estava entregando para o futuro um relato que não estava nos livros. Era a diáspora africana. A arte tem esse papel de não deixar que a história desapareça. É como uma tradição passada de pai para filho, e a música é algo forte, que cria uma conexão com o ubuntu. Acredito que o meu som se conecte com as pessoas dessa forma”, explica, falando sobre a filosofia africana que valoriza o relacionamento e consciência de coletividade, na qual prevalece o pensamento de que se um semelhante é oprimido, todos também o são. Diga-se de passagem, um cuidado e respeito pelo próximo que falta bastante nos tempos atuais.

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Mas Emicida tem sido assim desde o início de sua carreira: sem medo de colocar o dedo na ferida das mazelas sociais e do racismo, ao mesmo tempo em que sabe balancear suas músicas com temas românticos, religiosos ou festivos. Ele explica essa importância da troca de informações entre público e cantor: “Temos uma chance única na história de estabelecermos uma comunicação com direito a resposta, graças à internet. Isso não existia antes, e eu me sinto muito privilegiado de participar de uma geração tão alerta a isso”.

Claro, tal abordagem é constante em “Entre crianças…”, mas ele faz questão de frisar que esse não é o único propósito do álbum. “Sinto que as pessoas acham isso porque eu lancei primeiro ‘Boa esperança’ e foi algo muito impactante para o Brasil. Mas o disco fala de força, de beleza e de muitas outras coisas”, afirma. O LP, por sinal, passou por total reformulação após uma viagem do rapper à África. “Lá eu tive uma noção muito mais profunda de inteligência emocional, de uma estrutura que não é contemplada pela academia da mesma forma que um diploma. Aprendi a ouvir e receber os outros de coração aberto. Não posso me impor ou me colocar de frente para alguém, preciso ser uma porta aberta para qualquer diálogo”, explica.

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Emicida também não deixa de comentar a importância do Natura Musical e seu papel como difusor da cultura nacional. “Sempre achei esse projeto bacana, porque ele contempla todo o país. Não podemos cair no risco de acreditar que a região Sudeste é o norte do Brasil e da nossa produção cultural. A indústria é preguiçosa nesse sentido, porque quer sempre dar mais do mesmo. E a arte é a ciência do compartilhamento. Precisamos fazer justiça a essa pluralidade do nosso país”, diz, citando a diversidade do line-up do dia.

A conversa vai chegando ao fim e, para concluir, perguntamos ao rapper o que ele acha do cenário atual do hip hop e de seu próprio impacto nessa cena (ele foi nomeado um dos 30 jovens mais influentes do Brasil, pela Forbes). “O engraçado é que o hip hop não nasceu como forma de protesto, mas sim como música de festa. Depois de décadas, quando percebeu o impacto que tinha, que ele passou por essa transformação. Hoje, do Oiapoque ao Chuí, todo mundo ouve o gênero. O meu papel como artista é dar continuidade a isso, explorá-lo de uma nova maneira”, comenta Emicida. E, pelo que foi visto durante o Natura Musical, ele está no caminho certo.

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