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Em sua primeira SPFW – e segunda vez fora do Piauí -, Miss Brasil Monalysa Alcântara diz que meta é conquistar a coroa mundial e comenta aumento da diversidade na moda: “Está acompanhando a sociedade”

Eleita no mês passado a mulher mais linda do país em 2017, Monalysa Alcântara foi a primeira representante do Piauí a ganhar o concurso nacional. Com 18 anos de vida e muitos sonhos pela frente, a modelo marcou presença e brilhou pelos pilotis da Bienal nesta semana de São Paulo Fashion Week

Publicado em 01/09/2017 | Por Julia Pimentel

Negra, olhos castanhos, nordestina, 1m77 de altura e 57 quilos. Esta é a nossa Miss Brasil. Eleita no mês passado a mulher mais linda do país em 2017, Monalysa Alcântara foi a primeira representante do Piauí a ganhar o concurso nacional. Com 18 anos de vida e muitos sonhos pela frente, a modelo marcou presença e brilhou pelos pilotis da Bienal nesta semana de São Paulo Fashion Week. Por aqui, Monalysa foi elogiada, incentivada e aplaudida por quem reconheceu os avanços que o Miss Brasil segue dando em sua trajetória.

Com mais de 60 anos de história, Monalysa Alcântara foi apenas a terceira negra a vencer o concurso de beleza. Antes dela, no ano passado, Raissa Santana também levantou a bandeira da diversidade tupiniquim e honrou o Brasil no Miss Universo como uma das nove finalistas da premiação. Aliás, este é o maior sonho de Monalysa no legado que se inicia. Como projeto de carreira, a modelo do Piauí contou que almeja conquista a coroa de Miss Universo. “A gente conseguiu no nosso país e agora precisamos ter muita força para vencer também no concurso mundial. É para todo o universo”, disse Monalysa que acredita que, no ano passado, o problema não tenha sido com a apresentação de Raissa Santana. “Eu fiquei louca assistindo. Gritei horrores porque, além de tudo o que a Raissa representava, também era o Brasil em um concurso mundial. Então, a gente criou uma expectativa enorme porque ela é maravilhosa e super inteligente. Mas, pelo que vimos, não era o que o Miss Universo queria naquele momento. Ainda tem isso”, analisou.

Miss Brasil Monalysa Alcântara em sua primeira São Paulo Fashion Week (Foto: Henrique Fonseca)

Mas este ano de trabalhos e compromissos está só começando para Monalysa Alcântara. Desde quando ganhou o Miss Brasil, a modelo já passou por diversas novas experiências. Inclusive, uma delas, nesta semana. Pela primeira vez, Monalysa vivenciou a loucura fashion que é a maior semana de moda da América Latina. “É tudo muito novo para mim. Eu moro em uma capital bem pequena em que o mundo da moda também não acompanha a grandiosidade de São Paulo, por exemplo. Então, eu fiquei super feliz de poder estar aqui respirando esse evento e ver pessoas tão diferentes. Eu amei”, contou animada a modelo que saiu pela primeira vez de Teresina, sua cidade natal, para o concurso, que ocorreu em São Paulo, e agora para a SPFWN44. “Lá a gente sabe da São Paulo Fashion Week pelas revistas e sites, mas nunca tinha imaginado estar aqui e ter essa oportunidade”, disse Monalysa que, como uma das conquistas da coroa nacional, irá se mudar para São Paulo para se dedicar à nova vida.

No entanto, se essa vida de top é nova para ela, o sonho já faz parte do imaginário de Monalysa Alcântara há alguns anos. Desde os dez, como nos contou, a piauiense sonha com a profissão. Mais do que um universo de glamour e beleza, o desejo em se tornar modelo também foi calcado pela identificação com as medidas deste mercado. Personagem do ditado “fazer de um limão uma limonada”, nossa Miss Brasil viu no mundo da moda uma chance de ter sua altura e seu biotipo aceitos. “Eu sofri muito bullying por ser alta e magra, que é a história de quase toda modelo. E aí a moda apareceu para mim como um lugar em que eu poderia usar essas minhas características a meu favor e trabalhar a partir delas. Depois que eu entendi isso, eu passei a querer muito ser modelo. Eu amo moda e quero continuar trabalhando com isso”, disse.

Quando criança, Monalysa contou que sofria bullying por ser alta e magra (Foto: Henrique Fonseca)

Porém, esta não foi uma caminhada muito fácil. Do Nordeste, Monalysa contou que as oportunidades não são como para as meninas do eixo Rio-São Paulo, que ainda têm mais espaço neste mercado. Ainda hoje, a modelo acredita que a moda não siga a diversidade e a grandiosidade de nosso país, com 27 estados e tantas belezas e propostas diferentes. “O mundo da moda ainda é muito concentrado no Sudeste do Brasil. Porém, eu acredito que quando as pessoas pararem de querer ficar só em São Paulo e começar a conhecer a riqueza dos outros estados do nosso país, vão perceber que há um movimento criativo muito grande, até maior do que em outros lugares mais tradicionais. As pessoas que dão essa oportunidade ao Nordeste sempre ficam maravilhadas com o que produzimos lá. Então, eu acho que quando saírem desse eixo Rio-São Paulo, vão perceber que temos um potencial muito grande”, apontou Monalysa que vê no Dragão Fashion Brasil, a maior semana de moda de região Nordeste, um grande trampolim para oportunidades em outros estados. “Eu acredito que o evento retrate muito a moda do Nordeste e é um movimento muito importante para a nossa região. Mas o Dragão é apenas uma semana de moda. A tendência é que a gente tenha cada vez mais. Pelo menos é isso o que eu espero”, completou.

E não é só geograficamente que Monalysa Alcântara acredita que a moda deva expandir. Cada vez mais, o mercado fashion tem agregado novas identidades às passarelas com a presença de outras curvas, cores e gêneros. “A moda está acompanhando o que a sociedade está vivendo. É uma revolução em todos os sentidos de gênero, padrão, raça e estereotipo. As gordinhas estão ganhando espaço, as negras se destacando e as trans ganhando reconhecimento. Então, eu acredito que este progresso esteja certíssimo e é esse caminho que temos que seguir. O Brasil é um país muito plural com uma diversidade enorme. A gente não pode ignorar isso”, bradou a modelo que, assim como Raissa Santana, será uma representante das belíssimas mulheres negras que temos em nosso país.

“O Brasil é um país muito plural com uma diversidade enorme” (Foto: Henrique Fonseca)

Mas as semelhanças param por aí. “Nós temos uma afinidade porque nós duas somos negras. E aí, com isso, carregamos as mesmas dores e histórias da vida. No entanto, somos completamente diferentes para além disso e viemos de cantos opostos – ela do Paraná e eu do Piauí. Então, eu acho que agora começa o meu reinado com as bandeiras que eu quero levantar. É um momento em que eu tenho voz, influência e a oportunidade de falar para as pessoas de temas que eu acredito. Eu espero ter a representatividade e a força que ela teve. A Raissa é maravilhosa e foi uma Miss que certamente ficará marcada em nossa história”, disse a piauiense que, como uma das bandeiras de seu reinado, irá destacar justamente a força do povo negro, que não pode ganhar status de minoria em nossa sociedade heterogênea. “É daquilo que eu posso falar porque vivi na pele tudo o que essa temática traz. Por isso, me vejo na obrigação de usar a minha voz para levantar esse assunto e tudo o que a mulher sofre. O machismo também é uma questão que eu bato muito na tecla antes mesmo de entrar no concurso de Miss Brasil. Fora que eu também quero levar o nome do meu estado para o mundo e mostrar que os nordestinos também têm muita força”, completou a Miss Brasil 2017, Monalysa Alcântara.

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