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Tudo sobre a experiência do Site HT no Festival Parintins 2018

A cidade de pouco mais de 100 mil habitantes respira a disputa entre os bois-bumbás Caprichoso e Garantido em três noites de celebração do povo das florestas e espetáculo grandioso

Publicado em 02/07/2018 | Por Junior de Paula

Depois de três dias de festa no Bumbódromo em Parintins, no Amazonas, onde duelam os bois-bumbás Caprichoso, o azul, e o Garantido, o vermelho, em uma grande ópera na selva brasileira, já sabemos que o vitorioso da 53a edição do Festival foi o Caprichoso, em resultado anunciado nesta segunda-feira. Mas, quando desembarcamos nessa ilha no coração da Amazônia brasileira, na última sexta-feira, às vésperas da primeira noite de apresentação dos dois bois, a gente sabia bem pouco. E o que descobrimos nessas 48 horas na ilha com cerca de 100 mil habitantes à beira do Rio Amazonas, que recebe outros 100 mil moradores durante os dias do Festival, é que o brasileiro é mesmo o melhor do Brasil.

(Foto: Aguilar Abecassis/Divulgação)

A cidade, que sobrevive basicamente da agricultura, e é uma das maiores do estado de Amazonas, vive uma verdadeira revolução no último fim de semana de junho há 53 anos, quando começou a celebração da farra dos bois, surgida, aliás, para arrecadar fundos para construir a catedral localizada bem no centro da ilha. De lá para cá, a festa cresceu e se transformou em uma das maiores representações da cultura brasileira, principalmente do Norte do Brasil, já que as histórias contadas no Bumbódromo, uma arena em forma de cabeça de gado, versam, basicamente, sobre lendas, rituais indígenas e costumes dos ribeirinhos através de alegorias e encenações e são distribuídas em 21 quesitos obrigatórios, avaliados por jurados, que dão suas notas e que, somadas, definem o vencedor daquele ano.

(Foto: Junior de Paula)

Tudo em Parintins, especialmente nessa época do ano, remete aos bois. Da pintura de artistas locais nas paredes, às fachadas das casas e estabelecimentos comerciais, tudo leva duas cores como destaque: o vermelho ou o azul, de acordo com a torcida do dono do local em questão. Grandes marcas presentes na cidade, como as patrocinadoras do festival, Coca-Cola e a Brahma, por exemplo, precisam se adaptar. A Coca-Cola, aliás, servida em Parintins é a única do planeta Terra que pode ser encontrada em uma lata azul. E os anúncios de cada lado reservado às torcidas – que por lá contam ponto e são chamadas de Galera – também tem as logos dos patrocinadores alteradas para as cores de cada lado. Coca-Cola com a logo azul – a mesma cor de sua maior rival, a Pepsi. Tem coisas que só Parintins faz por você.

Nosso camarote, o da Amazonastour – empresa de turismo do governo do Estado – era localizado debaixo da arquibancada do Garantido, portanto, antes de sair do barco onde estávamos hospedados, fomos orientados a não usar peças de roupa nas cores do rival e nem de dançar ou cantar enquanto o boi contrário se apresentava. É que se as torcidas se manifestam na hora em que o outro está no centro do Bumbódromo, eles podem perder pontos. Difícil foi resistir às toadas do Caprichoso cantadas com a força da voz de David Assayag, a voz mais bonita da Amazônia e o mais conhecido levantador de toadas do Brasil. Difícil também resistir à marujada, como é chamada o grupo de 400 ritmistas das apresentações, que inclui até violinos, flautas, teclado, violões e guitarras.

Os dois bois escolhem um tema a ser desenvolvido, como se fossem os enredos das escolas de samba. Durante as três noites, a história é contada em atos. Já na sexta-feira, a primeira noite aberta pelo Caprichoso, vimos contar o seu enredo “Sabedoria Popular: Uma Revolução Ancestral” e encerrar com uma cena antológica durante o auto do boi: para ressuscitar o boi morto por um escravo para satisfazer o desejo de grávida da mulher e conter a fúria do dono da fazenda, o pajé é chamado para um ritual.

O Caprichoso levou o indígena para a arena voando a bordo de um hoveboard para delírio da arquibancada azul. Tudo, aliás, com direito a participação da voz de Dona Onete, vinda direto de Belém, para cantar a toada. Foi uma cena antológica. Já no segundo dia, um dos pontos altos foi o “Ritual de Transcendência Yanomani”, cuja alegoria usada na encenação foi parcialmente destruída dois dias antes de entrar no bumbódromo por conta de um incêndio.

“Sempre disse que esse ano ia ser de dificuldade, mas elas existem para ser superadas. Tivemos um ano turbulento, fomos criticados e viramos piada do contrário, mas sempre aguentamos calados. No dia que pegou fogo a alegoria do Kennedy as lágrimas vieram, mas o Caprichoso é uma nação que sabe reconstruir. Convocamos essa nação e fomos atendidos. Em menos de doze, 80% da alegoria estava restaurada”, afirmou Babá Tupinambá, presidente do boi, em papo com o jornal A Crítica. Já o Garantido, o boi do povão, como eles gostam de dizer, também fez bonito. O bumbá do coração na testa teve como tema “Auto da Resistência Cultural”, celebrando as etnias que compuseram a formação do povo brasileiro, em especial de líderes como o cacique indígena Ajuricaba e o seringueiro Chico Mendes, que deram suas vidas em defesa dos povos da floresta. Além de Zumbi dos Palmares, representando os negros que fizeram do Quilombo dos Palmares um grito pela liberdade.

Ah, e para arrepiar todo mundo, a cantora Márcia Siqueira entoou o Canto das Três Raças, imortalizado por Clara Nunes, servindo como trilha sonora para a evolução da linda comissão de frente da Paraíso do Tuiuti, escola de samba do Rio, coreografada por Patrick Carvalho, que entrou para a história ao apresentar negros acorrentados, de modo a questionar o fim da escravidão do Brasil.

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Mas nem tudo foram flores para o lado do Garantido. De acordo com o Messias Albuquerque, vice-presidente do boi vermelho, a greve dos caminhoneiros no Brasil em maio atrasou muito o trabalho dos artesãos e da confecção das fantasias, por conta da matéria-prima que vinha de São Paulo. “Finalizamos nossas alegorias na tarde da apresentação com muita emoção mesmo. Só o Garantido consegue fazer isso”, provocou ele.

De um lado ou de outro, azul ou vermelho, entre emoções, arrepios, lágrimas e muitos sorrisos, o que o Site HT viu por lá jamais vai ser esquecido. E já está contando as horas para voltar em 2019 para celebrar a força do povo indígena, no coração da floresta, nos braços de um povo sofrido, mas cheio de criatividade, amor e civilidade. Viva, Parintins!

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