Viagem & Gastronomia

Peru #day3: de porquinhos da índia assados, passando por imersão em povoados isolados até caminhadas em direção às ruínas de Pisaq

Saiba como foi o terceiro dia do site HT no Vale Sagrado e o primeiro da trilha Lares Adventure que nos levaria até Machu Picchu

Publicado em 17/06/2015 | Por Junior de Paula

Depois de dois dias conhecendo Cusco – sobre os quais já falamos (#day1 e #day2) – era hora de começar o roteiro da Lares Adventure de fato, que une aventura a aspectos culturais em multiatividades que vão desde caminhadas de muitas horas com alto grau de dificuldade, até visitas a povoados pouco – ou nada – conhecidos pelos turistas tradicionais que exploram o Vale Sagrado.

Pois bem: acordamos bem cedo e nos encontramos com o grupo formado por guias, motoristas e outros viajantes ávidos por desbravar as muitas possibilidades oferecidas e caímos na estrada por volta de 7h30. Isso, claro, depois de um café da manhã reforçado preparado pela turma do hotel El Mercado, que também integra o Mountain Lodges of Peru, grupo criado por Enrique Umbert e do qual faz parte a Lares Adventure, nosso anfitrião em terras peruanas.

Metade do grupo se separou e foi para o primeiro trekking do programa que terminaria no povoado de Viacha depois de caminhar pelas montanhas da região em uma travessia que duraria cerca de três horas. Ainda com um pouco de medo da altitude e dos seus efeitos, preferi seguir na van que faria o passeio cultural, que começaria no projeto Awanakancha e terminaria na mesma Viacha, onde encontraríamos o resto do grupo.

Awanakancha, meia hora depois de deixarmos o hotel, portanto, era a nossa primeira parada. Trata-se de uma espécie de museu, construído pela iniciativa privada com a finalidade de promover a recuperação de tecidos tradicionais andinos; tendo como objetivo principal a proteção, apresentação e divulgação da rica tradição têxtil no Peru, que enfatiza o uso de técnicas antigas de fiação, tingimento de fibra de lhamas, alpacas e vicunhas.

Um dos pontos altos da parada, aliás, é a possibilidade de conhecer de perto e entender as diferenças entre os animais clássicos dos andes, da família dos camelídeos, além de permitir o contato com tecelãs locais que produzem os tais tecidos coloridos que iríamos encontrar nos mercados de todas as cidades pelas quais passaríamos. Por lá, a gente aprendeu ainda como são tingidos os fios com materiais que são encontrados na natureza. Desde flores até fungos, tudo pode ser moído e misturado para se chegar ao tom da cor que os produtores querem chegar. Tudo, claro, feito artesanalmente e com técnicas centenárias que foram se aperfeiçoando com o decorrer dos anos, mas sem deixar que a mecanização invadisse esse universo.

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A caminho de Pisaq

Já entendendo o processo de fabricação dos tecidos peruanos – que são um hit em qualquer parte do mundo – fomos em direção a Pisaq para conhecer a cidade que é rodeada por ruínas incas e terraças agrícolas de tirar o fôlego. Mas essa descrição é assunto para outro parágrafo, mais à frente. Por enquanto, a hora era de atravessar as ruelas do pueblo colonial de Pisaq, que foi erguido no entorno do rio Urubamba e das ruínas em questão. Nosso primeiro destino por lá foi  o Jardim Botânico da cidade, que custa 6 novos soles peruanos a entrada e onde se conhece um universo todo particular de flores da região e outras trazidas de todas as partes do mundo.

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O Jardim Botânico de Pisaq

Ah, não deixe de ir ao cactário onde você pode observar o cacto assento de sogra – que é em formato de uma grande bola de espinhos – e o erótico, que cresce em formato fálico e era cultuado pelas civilizações antigas. Se tiver um tempinho livre, também dê uma passadinha no museu da batata e do milho que fica nos fundos do Jardim e abre as portas para cerca de 200 espécies destes legumes que constituem a base da alimentação andina.

Depois de muitas fotos, novas cores, formas e cheiros, fomos em busca de mais novidades no famoso mercado de Pisaq. Sob tendas brancas – que podem ser vistas lá do alto da estrada antes ainda de entrar na cidade – é possível encontrar todo tipo de artesanato produzido pelo povo dos andes. Desde um tapete de pele de lhama decorado com um desenho do Mickey até os burrinhos coloridos que são colocados nos tetos das casas como desejo de prosperidade e fertilidade representando a dualidade masculina-feminina e que são encontradas em 9 em cada 10 casas pelo caminho do vale sagrado.

Desta vez, ia resistir bravamente às compras, mas acabei cedendo à tentação de levar um suporte de garrafa d’água, porque, como já sabia, a hidratação é mais do que essencial para suportar o mal da altitude, mais conhecido como Soroche. Por três novos soles eu era o feliz proprietário de uma bolsinha colorida onde carregava a tiracolo minha maior companheira da viagem: a garrafa de água.

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Ainda no mercado, fomos conhecer o forno comunitário que se esconde em uma das portas das suas ruelas e de onde saem pães típicos e empanadas deliciosas – e quentinhas – que podem ser experimentadas e compradas direto da fonte. Como não é comum ter forno em casa, os moradores pagam alguns soles para que possam assar suas carnes e pães ali, fazendo com que seja um lugar bem concorrido. E não dá para não se compadecer dos porquinhos-da-índia, ou cuy, como são chamados por lá, que ficam encarcerados por ali prontos para serem assados. É só escolher e mandar para o forno, se tiver coragem.

Compras feitas, conhecimento adquirido e o pão nosso de cada dia experimentado, era hora de voltar para a van e subir para a comunidade de Viacha, um povoado de cerca de 500 pessoas – e 120 famílias – que moram no alto da montanha e ainda se mantêm fieis aos costumes de seus antepassados de plantação e colheita. Fomos recebidos por cerca de 20 locais com suas roupas mais coloridas e “de gala” para um almoço bem especial preparados na pachamanca, que é uma espécie de churrasco assado debaixo da terra com o auxílio de pedras quentes enterradas. Tudo acompanhado de raízes, guacamole e saladas colhidas na plantação local.

A Pachamanca

A Pachamanca

Mas como a ideia da Lares Adventure é proporcionar uma experiência legítima com as comunidades da trilha Lares, fomos levados pelos moradores na parte ainda mais alta do povoado, onde ficam as plantações, para vermos in loco o processo e os rituais feitos há centenas de anos para agradecer e preparar a pachamama – a mãe terra, na língua quechua. Um dos homens recolhem as melhores folhas de coca – três para cada um dos presentes à cerimônia de preparação da terra – , a chicha – uma bebida fermentada local – e outras oferendas que vão ser embrulhadas em folhas e cordas e enterradas como forma de retribuir à terra o que ela está fazendo crescer. Em seguida, fomos chamados pelos moradores para ajudar na colheita e usar seus instrumentos para retirar as batatas que comeríamos em seguida. Uma bonita experiência de integração e de aproximação com essa gente que precisa de muito pouco para ser feliz.

Por falar em felicidade, essa era o nosso principal sentimento quando descemos da plantação até as tendas armadas pelos moradores e a turma da Lares Adventure onde estavam servidos as carnes assadas na pachamanca – cordeiro, frango, cuy e porco – e alguns muitos tipos de batatas, mandiocas e milhos assados e temperados com aji e rocoto – as pimenta que conhecemos no mercado em Cusco, lembra?. Sentamos para compartilhar esse presente da natureza, preparado com muito carinho pelos locais, com direito a brindes com Cusqueñas – a cerveja local – e uma apresentação das mulheres que cantaram uma canção em quechua para a gente, deixando o começo da tarde ainda mais especial.

Já alimentados, tinhamos alguns minutos livres para explorar o povoado e nos vimos cercados de meninas que tinham entre 8 e 13 anos que tinham acabado de voltar da escola e estavam com seus melhores sorrisos e loucas para puxar conversa. Batemos um papo rápido em espanhol – ou portunhol, como queiram – sobre o dia na escola e como era morar ali e já era hora de descer a montanha em direção às ruínas de Pisaq numa caminhada com cenários cinematográficos que duraria cerca de duas horas morro abaixo.

Encontramos igrejinhas, pequenos pastores de ovelhas, alguns cachorros, rios, quedas d’água e vistas belíssimas enquanto nos equilibrávamos para não cair da trilha. Uma ótima prova para a minha bota nova que tinha sido comprada especialmente para a viagem, contrariando as recomendações de que nunca se coloca uma bota nova na primeira trilha da viagem. Sentia as bolhas nascendo na ponta dos dedos – por conta da descida íngrime e o contato íntimo com o couro novo do calçado – e a sensação de plenitude crescendo à medida que o nosso ponto final ia ficando mais próximo.

Uma pequena parada antes do fim da trilha que nos levaria à parte baixa de Pisaq para tirar fotos e ouvir as explicações dos guias sobre as ruínas antecederam a parte mais difícil do caminho, com degraus desnivelados e pedras soltas. Aos poucos a gente ia vendo de perto os buracos nas paredes de pedras onde se enterravam os corpos dos incas que moravam por ali antes de serem dizimados pelos espanhóis, numa espécie de cemitério da cidade dividida pelo rio, e a parte alta da cidade que funcionava como um templo em três níveis que funcionava quase como um ritual de passagem dos mortos para eternidade. Começavam a ser velados no primeiro piso, subia para o segundo, até chegar ao terceiro, onde o corpo estava pronto para ser enterrado e atingir o terceiro mundo idealizado pelos incas.

Depois de quase uma hora caminhando por Pisaq – que descobrimos que servia para quatro utilidades: agrícola, religioso, militar e político – o sol, tão cultuado pela cultura andina, começava a se pôr e era o anúncio de que o primeiro dia na trilha Lares estava chegando ao fim, numa visita quase exclusiva às ruínas, já que o pico de visitação é pela manhã. Aos poucos, fomos indo para saída do parque arquelógico, prontos e energizados para seguir em direção ao primeiro Lodge que ficava na cidade de Lamay, a poucos minutos dali.

O Lamay Lodge da Lares Adventure

O Lamay Lodge da Lares Adventure

Para quem não se lembra, os lodges da Lares Adventure foram construídos em terrenos cedidos pelos moradores locais em regime de parceria, como Enrique nos contou em entrevista exclusiva, e do qual 25% da renda dos negócios voltam para as comunidades que decidem como investir a grana em melhorias nas região. São eles – os locais – também quem trabalham nos lodges depois de passarem por um treinamento em áreas que vão desde a recepção até massagens e a cozinha.

O chef, aliás, que nos preparou o jantar no Lamay Lodge é um morador da cidade e criou pratos que incluía um Lomo com legumes, bem temperado e no ponto certo, que era a definição exata do que é a comfort food, que nos dá uma sensação de conforto depois de provada. Ao fim do jantar, com todos já felizes e cansados, tivemos um rápido briefing sobre as atividades do dia seguinte para que tivéssemos tempo de escolher as que mais nos agradavam e já estávamos prontos para dormir e aproveitar o quarto superconfortável que nos aguardava. Um dia daqueles para se guardar na caixinha de boas lembranças. Amanhã tem mais.

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