“Difícil ver um alcoólatra relacionado ao vinho, que faz bem ao coração”, diz o ator e sommelier Antonio Calloni


A paixão vem de família: “Pequeno, com 12 anos, tomava vinho misturado com água, quando isto não era politicamente incorreto. Com o meu pai, aprendi a beber como parte da refeição. Nunca com excesso ou para ficar maluco”

* Por Carlos Lima Costa

Reconhecido pelo público, pela crítica e por seus pares como um dos melhores atores de sua geração, o também escritor Antonio Calloni tem uma faceta pouco conhecida pela maior parte dos brasileiros. Ele é sommelier formado pela Associação Brasileira de Sommeliers. “O vinho é a minha bebida predileta. Fiz o curso, em 2005, para me aprofundar nos detalhes, conhecer melhor sua história Mas a minha relação com esta bebida vem da família dos meus pais, que nasceram na Itália, e vieram para o Brasil após a Segunda Guerra Mundial. Desde pequeno, com uns 12 anos, eu tomava vinho misturado com água, quando isto não era politicamente incorreto. Com o meu pai, aprendi a beber como parte da refeição. Nunca com excesso ou para ficar maluco. Mas era eventual, não todos os dias”, revela.

Apaixonado por vinho, Calloni é também sommelier (Foto: Arquivo Pessoal)

Apaixonado por vinho, Calloni é também sommelier (Foto: Arquivo Pessoal)

Antes da pandemia, adorava participar de reuniões de degustação com outros sommeliers. “É bem legal, você socializa, cria um clima de amizade. É difícil encontrar alcoólatra relacionado a vinho, que está sempre associado à comida, saúde, faz bem ao coração”, lembra. Transitando neste universo, há três anos, teve a ideia de criar uma página no Instagram (@per_bacchum), na qual apresenta resenhas dos mais variados vinhos. Avaliações e notas às bebidas. E para a qual se dedica mais durante esta pandemia. Sorrindo, se diverte ao responder de qual país vem os seus prediletos. “Gosto dos bem encorpados. Vou puxar sardinha para o meu lado italiano. O Amarone Della Valpolicella, do Veneto, e o Primitivo Di Manduria, da região de Puglia, são os meus preferidos”, conta. E destaca um ponto importante que aprendeu em cursos e degustações. “O vinho apresenta diversas nuances. Os da Borgonha, por exemplo, são verdadeiras obras de arte. Descobri a variedade que existe no mundo. Você pode ter a sua preferência, mas o universo é variado. O nacional e o espumante brasileiro também dão um show”, completa.

Em geral, Calloni bebe uma taça no almoço. Não diariamente. E, nos finais de semana, divide uma garrafa com a mulher, a jornalista Ilse Rodrigues Garro. Eternamente associada a enlaces afetivos, esta bebida faz parte também da história dos 28 anos desta união. “Para um momento romântico é sempre bom um vinho. Mas, na medida certa. Se passar dela, você não terá momento romântico, mas sim sonolento”, pontua ele, às gargalhadas. “Admiro muito a generosidade da Ilse. Agora, o que resume o sucesso de todo casal é o querer estar junto. Mas isso pressupõe várias coisas: entendimentos, desentendimentos, bons e maus momentos”, realça. E aponta o lado mais difícil de se viver com ele: Seu jeito intempestivo. “Já fui mais. De um modo geral, melhorei bastante”, assegura, sorrindo.

Passeio anterior a pandemia (Foto: Arquivo Pessoal)

Passeio do casal anterior à pandemia (Foto: Arquivo Pessoal)

Workaholic e inquieto, Calloni também participa de vários cursos oferecidos pela área de Desenvolvimento e Acompanhamento Artístico da Globo, a DAA. “São absolutamente fantásticos. Cursos, por exemplo, sobre a Ilíada, palestras  com pessoas como Leandro Karnal.  Antes, eram no Projac, agora têm sido virtuais, mas podemos interagir”, festeja o ator, que em sua página pessoal também no Instagram, costuma ler as poesias que ele próprio escreve. “Já tive mais de 20 mil visualizações. Nas duas páginas, o retorno é fantástico, recebo muitas mensagens. Esta pandemia obriga a gente a se revelar”, diverte-se.

Pouco antes da quarentena obrigatória, Calloni lançou o romance Filho da Noite. E, no momento, dedica-se a uma nova obra, um livro de poemas ainda sem título. “Não tenho contrato fixo com nenhuma editora. Então, posso lançá-lo em um ano, dois. Não tenho nada definido”, explica ele, que já editou duas obras de poemas, como Os Infantes de Dezembro, em 2000, vencedor do Prêmio Jorge de Lima concedido pela Academia Carioca de Letras e pela União Brasileira de Escritores (UBE).

E apresenta aqui, um poema seu inédito:

…a fala do mar…

O barulho encobre a fala do mar

Estrondo que fala de água e amor

Fabricando alturas de cores lunar

Imagem de corpo espetado de flor

 

Carne que chama o rascunho da dor

Distância cortada por braço de mar

Promessa de cura, espinho e furor

Tuas coxas eternas de ninho e altar

 

A balsa intranquila viaja no sal

Procurando a boca, o sol e a fresta

Transtorna o marujo erguendo o punhal

 

Mata a fera, o escuro, e esculpe a festa

No leito, a conquista, a guerra, o gazal

O encontro do beijo na antiga floresta

Calloni ama escrever (Foto: Arquivo Pessoal)

Além de escrever, Calloni sempre teve também o hábito da leitura. Recentemente, leu Crônica da Casa Assassinada e A Luz no Subsolo, ambos de Lúcio Cardoso.  E percebeu que nos últimos tempos o povo em geral vem lendo mais. “Também procura mais séries e filmes na TV. Este foi um aspecto positivo deste isolamento social. Agora, ninguém esperava passar por isso. Estamos no olho do furacão. Acho que só vamos entender realmente o que é tudo isso depois que passar um tempo. Então, tempos obrigação biológica de viver bem dentro dessa circunstância. A vida pede isso. Já tem um tempo que faço meditação  transcendental, uma musculação leve em casa, me alimento bem. Eu e a Ilse andamos na Lagoa, saímos com máscaras, bem protegidos e em momentos que não tem muitas pessoas fazendo o mesmo”, conta. Ele não teve nenhum caso próximo nem na família.

Agora, Calloni não é daqueles que acreditam que a atual situação irá provocar uma mudança na sociedade. “Pessoalmente, temos visto poucas pessoas sem máscara e realmente é preciso usar, respeitar o distanciamento social. Quem não faz isso, não respeita a maioria que está se precavendo. É um assassino em potencial. Agora, acho que a humanidade vai continuar progredindo, aprendendo e desaprendendo como sempre foi. O processo evolutivo não é linear, é errático. Não vai ter uma mudança radical, o mundo vai continuar sendo a mesma coisa”, crê.

Caminhada e lazer somente de máscaras (Foto: Arquivo Pessoal)

Caminhada e lazer somente de máscaras (Foto: Arquivo Pessoal)

Exibida até março deste ano, a novela Éramos Seis é o mais recente trabalho como ator de Calloni. “Por enquanto não tenho nada, estou só aguardando, mas logo devem surgir coisas bacanas. O Projac já retomou com todos se protegendo. É a nova realidade. O bom é que a gente se adapta. O que todo mundo quer é ser feliz. Daqui a pouco vai ter vacina ou algum remédio que faça com que possamos conviver com isto”, torce Calloni, acrescentando: “É evidente que existem altos e baixos, mas os altos não são muito altos, nem os baixos são muito baixos. A meditação me ajuda a encontrar o equilíbrio e a Ilse também me ajuda muito”. Pelo Facetime mata as saudades de Pedro, de 26 anos, o único filho do casal.

O casal visita o filho, em LA (Foto: Arquivo Pessoal)

O casal visita o filho, em LA, em 2019 (Foto: Arquivo Pessoal)

Radicado nos Estados Unidos desde 2013, onde se formou como engenheiro musical na Berklee College of Music, em Boston, o rapaz vive em Los Angeles. Ele, por exemplo, já tocou bateria em CD do cantor e compositor norte-americano Jason Mraz. “A última vez que estivemos juntos foi em outubro, quando o visitei”, lamenta e vibra pelo fato do filho estar se destacando na área que escolheu.

“Tenho muito orgulho do meu filho. Oferecemos as condições e ele nunca se acomodou. Quer melhorar o trabalho dele cada vez mais. Também sou assim. Não acho que cheguei a lugar algum. Se chegar lá é o fim da viagem, eu gosto é do processo desta viagem. A sensação é de que sempre tenho muito a aprender, a conquistar. O processo da vida me encanta ainda demais, é provocador. Não estou parado, estou na ativa”, avalia. Tranquilo também com relação a idade. “Vou fazer 59 anos em dezembro, mas na minha cabeça já tenho 60. Assim, fica mais fácil de lidar com isso (risos). Eu e a Ilse temos muita vontade de ter um neto, mas não sei como isto vai se desenhar”,  brinca.