*por Vítor Antunes
Uma atriz que se revelou poetisa e que, pelos poemas, acabou se fazendo conhecida. Esta é Vitória Rodrigues, atualmente no elenco de A Nobreza do Amor e lançou seu primeiro livro de poemas, cordéis e “xêro no cangote”. Aliás, este é o nome do livro: “Dengo e Cheiro no Cangote, dessa jovem trovadora urbana”. “São poesias que eu venho escrevendo há muitos anos. O livro foi lançado enquanto estou fazendo a novela. É uma felicidade. Minha meta é, depois de concluída A Nobreza do Amor, fazer alguns encontros com o público.” O livro tem 88 páginase tem tanto poesia popular em forma de cordel, quanto poesias mais contemporâneas.”
A atriz foi ajudada pelo colega de elenco Lázaro Ramos para poder lançar o livro. “Ele me disse: ‘Espera aí, que eu vou te ajudar’. De fato, as poesias já existiam, mas precisava desse empurrãozinho da experiência, né, desse cara maravilhoso que é o Lázaro. Enfim, é um privilégio, uma honra muito grande poder estar convivendo com essas pessoas, trabalhando com essas pessoas — que vai para além do âmbito só de trabalho.”

Vitória Rodrigues estreitou os laços com Lázaro Ramos em razão da novela (Foto: Marcella Saraceni)
Vitória fala de onde vêm as suas inspirações para o livro. “A minha inspiração tem as suas raízes na cultura popular de onde eu nasci, que é lá no interior de Alagoas, das minhas vivências, dessa literatura de cordel. Mas o que me inspira mesmo são as relações humanas, o que me toca, o que as pessoas me transmitem — e eu tenho o “mau costume” de achar que tudo é sobre amor, e até as injustiças do mundo são por falta dele”.
Então, isso me inspira: querer escrever até quando é para falar sobre injustiça, a gente escreve nesse lugar da falta desse amor; quando a gente quer falar sobre romance, quando a gente quer falar da dor do cotovelo. Das trocas com os meus amigos também, de ouvir as histórias deles, de me influenciar por isso. Acho que das canções que eu ouço — o meu estado de poesia está na essência humana, sabe? Está com as pessoas que têm esse brilho no olho pela natureza, pela cultura – Vitória Rodrigues
Cria de uma escola de formação de atores que por anos foi espoliada — e segue sendo —, com problemas graves de manutenção e estrutura, Vitória fala sobre a depredação da Escola de Teatro Martins Pena. “A Martins é, infelizmente, uma escola de resistência. Acho uma pena, porque a escola mais antiga da América Latina, que formou grandes atores, é pública — e é lamentável que, por ser pública e por ser uma escola de teatro, ela seja tão sucateada. Quando eu entrei já teve paralisação, teve greve, a gente foi para a rua, a gente lutou, e infelizmente dez anos depois ainda está acontecendo isso, de uma forma ainda pior: os alunos tiveram que estudar em outro lugar enquanto a escola vai sendo ‘reformada’ — mas não é. É triste ver o sucateamento de uma escola tão poderosa como a Martins Pena. Não dá para acreditar que fazem isso, com tantas pessoas incríveis que se formam lá, artistas maravilhosos — e não só como atores. A Martins é escola de vida: ela te prepara para ser iluminador, sonoplasta, figurinista, tantos lugares do teatro. É uma pena mesmo. Não sei nem o que dizer mais.”

Edifício da Martins Penna em ruínas no Centro do Rio (Foto: Reprodução/Facebook)
PENTE QUENTE
A Nobreza do Amor é uma trama que vem gerando discussões, especialmente em razão de ter um elenco majoritariamente negro e nordestino. “A gente está fazendo uma obra que nunca foi vista na televisão. Tanto porque é a primeira novela em 60 anos de Globo que traz essa temática voltada para uma ficção na África e num Nordeste não estereotipado. São dois universos muito bonitos, mas que sempre passam pelo estereótipo.”
No caso de Vitória, há também outro elemento de interesse para o público geral: o fato de que até mesmo os políticos da cidade nordestina retratada na trama são negros. Segundo a atriz, um ponto importante de representatividade foi a questão dos cabelos da personagem, que gerou identificação com o público telespectador. “A minha personagem traz uma identidade tão grande para o público — e isso passa pela questão do cabelo. Enquanto nos personagens que vêm da África a gente está vendo essa coisa linda dos cabelos, das tranças, dos turbantes, no Brasil o fato de a personagem ser uma primeira-dama gerou estranheza, especialmente em razão dos cabelos. Eu também já alisei meu cabelo para entrar nesse padrão. As meninas sempre tiveram que alisar o cabelo, porque ele era tido como ruim, como duro, como pouco bonito. Agora a gente está trazendo o nosso cabelo, o nosso poder, através dessa coroa. E a minha personagem ainda não tem essa consciência — ela ainda alisa para ser aceita nessa sociedade, assim como milhões de pessoas fazem isso até hoje.”

Vitória Rodrigues aponta que seu personagem traz debates sobre cabelos em consonância com a cena contemporânea (Foto: Marcella Saraceni)
No que diz respeito à caracterização, inicialmente era usado um pente quente de ferro, e não uma escova, no cabelo da personagem. “Tantas pessoas que a gente conhece já passaram por isso — eu mesma já passei, para ter passabilidade. Ela só vai se sentir aceita se estiver com esse cabelo alisado, arrumado, como ela diz. Mas ela vai ter essa viradinha de chave logo mais para frente, e vai ser muito bonito de acompanhar. A gente leva um tempo para entender como cuidar desse cabelo, como ele vai trazer a gente para um lugar confortável, para um lugar de empoderamento de fato.”
Acho que a gente pode ter o cabelo que quiser, mas com a consciência do pertencimento e da valorização desse cabelo tão poderoso. Acho muito lamentável que ainda haja tantas pessoas que não conseguem se orgulhar dessa coroa que carregam — Vitória Rodrigues
Vitória Rodrigues: O cabelo é uma coroa (Foto: Marcella Saraceni)
Natural de Alagoas, a atriz conta como teve de lidar com o seu sotaque, fortemente ligado às raízes nordestinas. “O sotaque sempre foi, infelizmente, uma questão aqui no Sudeste, principalmente em relação a obras e tal. A gente sente que está caminhando para um lugar melhor, mas ainda falta muito. Acho que o sotaque é uma das coisas mais lindas que a gente tem dentro da nossa língua. Eu lembro que quando me mudei para o Rio, um amigo que também é de Alagoas me disse: ‘Neutraliza o teu sotaque, para eles te aceitarem mais.’ Eu lembro que tive essa parada e disse: ‘Gente, não faz sentido.’ Daí eu bati o pé. Foi dentro da escola de teatro que eu percebi que estava lutando contra a maré.”
Para a atriz, o fato de a novela das seis trazer personagens negros e nordestinos retira tanto o continente africano quanto a região do lugar da estereotipação. “Tanto nós nordestinos quanto o povo africano, até hoje, somos muito estereotipados. É muito doido, porque a África é um continente, e o Nordeste é uma região com tantos estados, com tantas diferenças, com uma pluralidade absurda, com povos de traços muito diferentes — e as pessoas colocam tudo numa caixinha só, como se fosse a mesma coisa. Existe essa romantização, existem os estereótipos, esse lugar de achar que o povo africano é um povo só, sendo que a África é um continente imenso. Tem os seus vilões, tem os seus heróis. É bom a novela trazer esse lugar para que as pessoas comecem a desconstruir essa visão totalmente equivocada de que África é uma coisa só, de que Nordeste é uma coisa só — porque não é. É muito plural.”

Vitória Rodrigues: A África e o Nordeste são plurais (Foto: Marcella Saraceni)
Segundo Vitória, este é um momento de pluralidade de protagonismos. “Acho que a gente está caminhando para um lugar da diversidade mesmo: poder ver pessoas gays, lésbicas, bissexuais, protagonistas trans, pessoas pretas, pessoas nordestinas em seu estado mesmo — nordestina de lá, daquele lugar. Histórias contadas por atores daquele lugar é muito importante. Acho que tudo isso a gente está começando a ver: histórias de pessoas com deficiência também, esses espaços que são tão limitantes dentro da televisão, dentro do que a gente cresceu assistindo — esses corpos perfeitos, esses olhares azuis. É bonito ver agora que está começando a mudar, que a gente tem histórias incríveis, interessantíssimas, de todo mundo.”
Entre versos, personagens e lutas por representatividade, Vitória Rodrigues parece caminhar na contramão dos silêncios. Traz no sotaque a força de suas origens, na poesia o afeto das relações humanas e, na dramaturgia, a defesa de histórias que por muito tempo permaneceram à margem. Seja nas páginas de Dengo e Cheiro no Cangote ou nas cenas de A Nobreza do Amor, a atriz alagoana reafirma que arte também é pertencimento. E, enquanto transforma memórias, amores e resistências em palavra e imagem, segue provando que algumas vozes não nasceram apenas para interpretar o mundo, mas para ajudá-lo a se reconhecer em toda a sua pluralidade.
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