* por Rodrigo Otávio
A nova novela das seis, “Êta Mundo Melhor” estreou cercada de expectativa. Grande parte desse interesse se deve ao fato de ter Walcyr Carrasco como um de seus autores – desta vez em parceria com Mauro Wilson – e também pela missão de estabilizar ou melhorar os índices de audiência da sua antecessora, “Garota do Momento”, de Alessandra Poggi, que vem alcançou bons resultados tanto em audiência quanto em repercussão. No entanto, pesa contra a nova novela de Walcyr Carrasco o fato de que produções no formato de spin-off, como é o caso de “Êta Mundo Melhor”, tradicionalmente não apresentam bom desempenho. Nenhuma continuação direta de outra novela obteve sucesso expressivo ou gerou interesse prolongado.
Poucas produções apostaram nesse formato, inclusive. Na Globo, foram três. Além da atual “Êta Mundo Melhor” – continuação de “Êta Mundo Bom” (2016) – a emissora exibiu outras duas novelas com esse perfil: “Voltei Pra Você” (1983/1984), um fracasso no horário das 18h, do qual nem a protagonista Cristina Mullins disse guardar boas memórias; e “Verdades Secretas II” (2021). Apesar de ter tido grande repercussão nas redes sociais e no Globoplay, onde estreou originalmente, a trama registrou baixa audiência na TV aberta.
Outras emissoras também tentaram explorar spin-offs, mas sem êxito. A Band exibiu “Dulcinéa Vai à Guerra”, entre 1980 e 1981, como uma continuação de “Cavalo Amarelo”, que a antecedeu. O resultado não foi positivo. Já a Manchete apostou em uma sequência para “Amazônia” (1991), novela que se passava em dois períodos simultâneos (1899 e 2010), mas que acabou confundindo o público e se tornou um grande fracasso. A emissora então optou por restringir a continuação apenas ao período de época da trama original, lançando o spin-off “Amazônia – Parte II”, que fracassou tanto quanto, ou até mais que, a primeira.
Confira abaixo um pouco mais sobre as tramas que ganharam continuações:

Maria Zilda em ‘Êta Mundo Bom!’, em 2016
Globo
Êta Mundo Bom!
Candinho (Sérgio Guizé) é um caipira otimista criado por uma família que o rejeita. Expulso da fazenda, parte para a capital em busca da mãe biológica. Lá, enfrenta desafios e vilanias, mantendo sempre a esperança. Candinho é um caipira expulso da fazenda onde cresceu e parte para a cidade grande em busca da mãe biológica, Anastácia, uma milionária enganada pela sobrinha vilã Sandra. Na capital, ele reencontra Filomena, seu amor de infância, agora envolvida com o golpista Ernesto. Após muitos obstáculos, Candinho descobre sua origem, impede os planos da vilã e reconstrói a vida com a mãe, Filó e o filho. A trama é inspirada no filme Candinho, de Mazzaropi (1912-1981), e vai ganhar continuidade agora em 2025.

Débora Nascimento em “Eta Mundo Bom”. Sua personagem acabou ofuscada por Bianca Bin (Foto: Reprodução/Globo)
Voltei Pra Você
No passado, Pituca e Serelepe foram companheiros inseparáveis na infância. Pituca é Liliane, filha do temido Epaminondas Napoleão, o Coronel Epa, um dos fazendeiros mais ricos da região; e Serelepe é Pedro das Antas, filho de pais desconhecidos. Porém, a vida os afastou. Serelepe foi para um colégio interno na capital, enquanto Pituca viajou para a Europa com a mãe.
Quando retorna à cidade, já adulto, Pedro descobre que o Coronel Epa matou sua família no passado para se apossar das terras que, na realidade, pertencem a ele. Essa é a história de Voltei Pra Você, continuação de Meu Pedacinho de Chão, de 1971. Esta foi a novela que Benedito Ruy Barbosa mais detestou fazer. Foi o que ele revelou a André Bernardo e Cíntia Lopes para o livro “A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo”:
Escrevi uma novela para um elenco que não tinha escolhido, ambientada em um cenário que não era o meu. (…) Se não me engano, tomei uns 75 litros de vodca para terminar essa novela. Pergunta para a minha mulher. Ela guardou todas as garrafas para me mostrar no final da novela. Quando vi, nem acreditei! – Benedito Ruy Barbosa

Cristina Mullins foi Liliane/Pituca em “Voltei Pra Você” (foto: nelson di Rago/Globo)
Verdades Secretas II (VSII)
Angel (Camila Queiroz) retorna ao universo da moda após a morte do marido e a falência da família, determinada a fazer o que for necessário para salvar o filho doente. Giovanna (Agatha Moreira), prima de Guilherme, a acusa de assassinato e inicia uma disputa implacável para desmascará-la. O investigador Cristiano (Rômulo Estrela) se infiltra na Blanche Models e se envolve em um triângulo amoroso com Angel e Giovanna. A agência agora é liderada por Blanche (Maria de Medeiros), que guarda segredos relacionados ao controverso “book azul”. Betty (Deborah Evelyn), uma estilista casada, se apaixona por um jovem modelo e vive um romance turbulento. Enquanto isso, Ariel (Sérgio Guizé) tenta apoiar a esposa Laila (Érika Januza), mas acaba enredado pela obsessão de Blanche.
Embora tenha alcançado bom desempenho no Globoplay, Verdades Secretas II se despediu da TV aberta com apenas 9,5 pontos de audiência, segundo dados do Kantar Ibope – um número 28% inferior aos 13,2 pontos da reprise da primeira temporada.

Romulo Estrela, Camila Queiroz e Agatha Moreira, em Verdades Secretas II (Foto: Pedro Pinho)
Manchete
Amazônia – Parte 2
A trama propôs unir dois séculos – o final do século XIX e o início do XXI – por meio da história da região amazônica. No tempo presente, a protagonista é Milla (Cristiana Oliveira), uma jovem jornalista que troca o Rio de Janeiro por Manaus em busca de aventura. Lá, envolve-se com Lúcio, chefe de uma gangue de trambiqueiros do porto, um homem atormentado por visões. Amazônia foi contada de forma simultânea em dois tempos: 1899 e o futuro de 2010. No entanto, a complexidade narrativa acabou afastando o público.
Diante do insucesso, a Manchete lançou “Amazônia – Parte II”, focando exclusivamente na fase de época da história original, com maior ênfase em lendas e conflitos locais. Mesmo com a reformulação e a troca de parte da equipe criativa, a audiência permaneceu baixa. No fim das contas, Amazônia consolidou-se como um dos maiores fracassos da teledramaturgia da Manchete, contribuindo significativamente para o agravamento da crise financeira que culminaria no fechamento da emissora em 1999.

Amazônia, de 1991, na Manchete. A superprodução foi um fracasso e expôs os atores a riscos na floresta (Foto: Reprodução/Revista Manchete)
Band
Dulcinéa Vai à Guerra
Dulcinéa (Dercy Gonçalves [1907-2008]) , uma ex-vedete, tenta salvar seu teatro da falência ao acolher crianças de rua e montar um espetáculo infantil. No entanto, enfrenta a resistência do conde de Castelnuovo, que deseja demolir o local para construir um edifício comercial. Protagonizada por Dercy Gonçalves, Dulcinéa Vai à Guerra era um spin-off de Cavalo Amarelo, grande sucesso da Band no início dos anos 1980. Apesar da expectativa, a novela teve um desempenho ruim já no primeiro mês. A autora de Cavalo Amarelo, Ivani Ribeiro, recusou-se a escrever a continuação. Walter Avancini (1935-2001) então convidou Sérgio Jockyman (1930-2011), que acabou demitido no decorrer da produção. A troca de roteiristas provocou também mudanças na trilha sonora. A canção de abertura dos Demônios da Garoa – “Lenço na Molera” – foi substituída por “La Canga”, das Frenéticas. Na nova fase da novela, a trilha passou a ser composta exclusivamente por músicas do grupo, todas retiradas do álbum Babando Lamartine, que trazia regravações de composições de Lamartine Babo (1904-1963).
Bônus: outros casos de personagens que retornaram em spin-offs (em formato de séries e seriados):
Os personagens Shazan e Xerife, vividos por Paulo José e Flávio Migliaccio na novela O Primeiro Amor (1972), ganharam um seriado próprio, Shazan, Xerife e Companhia, exibido entre 1972 e 1974. A novela O Bem-Amado (1973) também foi transformada em seriado em 1980. O personagem Mário Fofoca, interpretado por Luis Gustavo em Elas por Elas (1982), teve um seriado próprio em 1983. Já Lara, personagem de Susana Vieira na minissérie Cinquentinha (2009), retornou como protagonista na série Lara com Z, em 2011. Esses casos não foram contabilizados entre os spin-offs mencionados anteriormente por se tratarem de séries ou seriados, e não de novelas.
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