Vanessa Gerbelli volta ao teatro e aponta desequilíbrio em tempos de hiperconectividade, ansiedade e relações líquidas


“Estamos vivendo uma fase complexa. O celular, as redes sociais e a tecnologia estão remodelando nossos cérebros, nos tornando mais ansiosos, menos resistentes à frustração, menos aptos a ler, etc, etc. Nossa estrutura mental e emocional pioraram. Acho que fica mais difícil se relacionar consigo mesmo e com o outro, de um modo geral. Penso que devemos pensar métodos de controlar o nosso tempo de telas. E assim, entre telas luminosas e relações em fragmentos, Vanessa Gerbelli escolhe a sombra viva do palco — onde o tempo tem outro ritmo e as palavras ainda tocam fundo. Em ‘Cala a Boca e Me Beija’, ela dança com a comédia sem negar o drama do agora, e nos lembra que rir também pode ser um ato de resistência.

*por Vítor Antunes

Ela está de volta ao teatro. A atriz Vanessa Gerbelli estreia a comédia romântica “Cala a Boca e Me Beija”, ao lado do ator Charles Myara, sob direção de Ernesto Piccolo. A peça, escrita por Bia Montez e Fátima Valença, entra em cartaz no Teatro Vanucci e aborda, com leveza e ironia, os desafios da vida a dois em tempos de hiperconectividade, ansiedade crônica e relações líquidas. A montagem revela o desgaste das relações afetivas diante das novas demandas do mundo moderno — um tema que Gerbelli trata com rara sensibilidade e clareza.

Estamos vivendo uma fase complexa. O celular, as redes sociais e a tecnologia estão remodelando nossos cérebros, nos tornando mais ansiosos, menos resistentes à frustração, menos aptos a ler, etc, etc. Nossa estrutura mental e emocional pioraram. Acho que fica mais difícil se relacionar consigo mesmo e com o outro, de um modo geral. Penso que devemos pensar métodos de controlar o nosso tempo de telas, de redes, etc, mas está tudo misturado: trabalho, amizades, informações, tudo pelo celular. Acho uma encruzilhada – Vanessa Gerbelli

Apesar de ser uma comédia, a peça aponta para angústias muito reais do presente, sem recorrer ao riso fácil ou ao clichê. “A comédia tem seu tempo, sua fisicalidade, seu raciocínio. O mais difícil pra mim é o ator não cair na graça fácil pra ganhar risada a qualquer preço. Não cair em formas e fórmulas consolidadas é um desafio. Para mim, a comédia está na situação. Quem está atuando está realmente acreditando na ação, não está fazendo micagem. Grandes comediantes encenam uma situação absurda e hilária com a maior seriedade. O ator acredita e o público ama. Eu acho uma delícia fazer comédia”, diz.

Vannessa Gerbelli volta ao teatro com peça que fala do amor nos tempos modernos e dum casa em crise (foto: Divulgação)

Conhecida por personagens densas na TV, em “Mulheres Apaixonadas” e “Cabocla”, Gerbelli também faz uma crítica lúcida à atual lógica da televisão e às mudanças que vêm afastando o público das novelas inéditas. As reprises destas novelas, nas quais atuou, fizeram grande sucesso. Segundo ela, o que se vê hoje é um desequilíbrio entre arte e mercado.

Acho um sinal dos tempos. Quando se deixa de fazer primordialmente uma ‘obra’ para fazer primordialmente um ‘produto’, já fica claro que o mais importante não é a qualidade artística, mas a perseguição da audiência, com subterfúgios que muitas vezes atrapalham a qualidade da novela. Por exemplo, quando se escala determinado ator pensando mais na popularidade dele do que na adequação ao papel ou à sua capacidade, a história perde. O público não recebe o que espera – Vannessa Gerbelli

Ela relembra com carinho o tempo em que adaptações literárias faziam sucesso na televisão: “Assistíamos adaptações de clássicos da literatura para TV e amávamos. ‘Tieta’ faz um grande sucesso agora em 2025 e o texto é baseado em Jorge Amado (1912-2001)… com cenas longas, vocabulário rico. Temos histórias incríveis no Brasil, autores fenomenais. A música era um elemento muito especial nas novelas e esse recurso também parece negligenciado hoje. Temos tantos compositores bons”.

Charles Myara e Vannessa Gerbelli na montagem teatral que protagonizam (Foto: Divulgação)

Ao pensar no futuro da teledramaturgia, Gerbelli sonha com um retorno às origens, em que a arte tenha novamente um papel central no fazer televisivo: “Acredito que se voltasse a se produzir novelas pensando mais no artístico que no mercado, poderíamos voltar a um bom caminho para o gênero. O Brasil tem a tradição das novelas assim como a Inglaterra tem o teatro. Nossa cultura perde muito ao sucatear qualquer expressão que envolva arte. Arte emociona, faz pensar e transforma. Estamos precisando muito dela.”

Além da nova peça, Vanessa Gerbelli prepara outras investidas no palco. “Tenho dois textos escritos por mim que pretendo montar, produzir. Tenho em vista um musical também.” Incansável, a atriz se reafirma como uma artista comprometida com o pensamento, a emoção e o fazer cênico em sua forma mais generosa — aquela que acredita no encontro entre arte e humanidade.