*por Rodrigo Otávio
Mais uma novela das 19h da TV Globo se aproxima de seu desfecho – a novela acaba dia 26/04 -, enquanto a próxima produção do horário, “Dona de Mim”, já começa a ser anunciada. Nesse intervalo de transição entre uma trama que se encerra e outra que se inicia, é oportuno fazer um balanço sobre “Volta por Cima”, uma novela que, embora não tenha alcançado status de fenômeno nas redes sociais, se destaca por sua consistência, maturidade e escolhas criativas importantes.
Escrita por Claudia Souto, Volta por Cima talvez represente o trabalho mais sólido da autora em sua carreira solo até o momento. Embora “Pega Pega” tenha obtido maior sucesso comercial e “Cara e Coragem” tenha apresentado propostas interessantes sem necessariamente se destacar em execução e audiência, “Volta por Cima” – carinhosamente apelidada de “Voltão” nas redes – demonstra uma narrativa mais resolvida, com personagens mais bem construídos e um arco dramático que equilibra humor, crítica social e emoção de maneira orgânica.

Fabricio Boliveira foi o protagonista masculino da novela. Destaque positivo (Foto: Divulgação/Globo)
Identidade visual e interferência estética
Um ponto que merece atenção técnica é a identidade visual da novela, que, por vezes, remete à estética de “Vai na Fé”, novela exibida 2023 e foi um grande sucesso de público e crítica. A semelhança na paleta de cores, nos cenários urbanos e até na linguagem da direção de arte fez com que internautas confundissem, ocasionalmente, entre as duas produções. Embora isso possa ser visto como uma coincidência estética ou mesmo uma tentativa de manter um padrão visual de sucesso no horário, também revela um desafio: como construir uma identidade própria em um cenário de memória televisiva cada vez mais fragmentada e acelerada pelas redes sociais?
Audiência sólida e carisma narrativo
Apesar de não ter se tornado um fenômeno digital ou viralizado nas redes, “Volta por Cima” manteve uma audiência sólida ao longo de sua exibição, o que, no contexto atual da TV aberta, é um trunfo considerável. Na sexta-feira, 4 de abril, por exemplo, a trama marcou 22 pontos na Grande São Paulo, três vezes mais que a segunda colocada no mesmo horário, o que atesta seu desempenho consistente. Mais do que isso, é importante ressaltar que a audiência foi conquistada com honestidade narrativa, sem apelar para fórmulas ultrapassadas ou reviravoltas desconectadas – caso de “Mania de Você“, finalizada recentemente.
O carisma da novela também esteve presente no casal protagonista, vivido por Fabrício Boliveira e Jéssica Ellen, ambos em seus primeiros papéis centrais na faixa das 19h. A química entre os dois atores, aliados a uma abordagem leve e ao mesmo tempo socialmente consciente, trouxe frescor à trama e possibilitou um tipo de identificação rara em novelas contemporâneas. A representatividade racial e a construção de personagens negros com camadas e centralidade na narrativa merecem ser amplamente celebradas.
O retorno de veteranos e revelações
Outro mérito de Volta por Cima foi sua capacidade de equilibrar rostos conhecidos com novas revelações. A volta de Lucinha Lins à teledramaturgia da Globo, após mais de duas décadas – desde sua participação em “Chocolate com Pimenta” e “Estrela Guia“, sua última novela inteira –, foi um dos pontos altos. Assim como o retorno de Tereza Seiblitz, ausente desde a temporada de 2002 de Malhação, que brilhou ao interpretar Doralice, uma personagem de forte presença cênica. As participações especiais de João Vitti e Rita Guedes também contribuíram para a construção de uma dramaturgia sólida, com diversidade de perfis e experiências.
Entre os novos nomes, Isadora Cruz brilhou na pele da irreverente Roxelle, um tipo completamente distinto de sua protagonista em Mar do Sertão, mostrando versatilidade e domínio de timing cômico. Amaury Lorenzo, por sua vez, entregou um Chico envolvente, embora com nuances que lembrassem seu personagem Ramiro em “Terra e Paixão”. Já Vítor Sampaio surpreendeu ao transformar um personagem inicialmente pequeno, Jô, em uma presença significativa, graças à sua entrega e talento. Olho nele!

Osmar (Milhem Cortaz), Doralice
(Tereza Seiblitz) e Tati (Bia Santana) em cena. Milhem e tereza foram destaques (Foto: Divulgação/Globo)
A revolução silenciosa dos personagens amarelos
Um dos aspectos mais inovadores de Volta por Cima – e que deve ser reconhecido com propriedade técnica e política – foi a maneira como tratou os personagens de ascendência asiática, um grupo frequentemente negligenciado ou estereotipado na teledramaturgia brasileira. A novela trouxe um núcleo inteiro inspirado nos doramas, com Allan Jeon liderando a trama, mas também ousou ao apresentar personagens como Alberto Fontoura, interpretado por Chao Chen, que não tinha nenhuma ligação direta com esse núcleo nem carregava o típico sobrenome oriental, rompendo com estigmas e abrindo novas possibilidades para a representatividade da comunidade amarela. Inclusive, Alberto teve direito a uma namorada, Doralice. Jacqueline Sato também esteve presente de forma independente, sem estar atrelada a arquétipos previsíveis, o que reforça esse movimento de inclusão mais complexa e menos caricatural.

Alberto (Chao Chen) foi mais um ponto de modernidade em “Volta por Cima” [Foto: Divulgação/Globo]
Destaques individuais e núcleo humorístico
Milhem Cortaz, com seu Osmar, foi provavelmente o grande destaque da novela. Seu personagem, um cafajeste adorável envolvido com o jogo do bicho, e que conseguiu equilibrar carisma, humor e contradições morais com maestria. Cortaz imprimiu leveza a um personagem que, em mãos menos habilidosas, poderia facilmente ter se tornado uma caricatura. Drica Moraes, por sua vez, transformou a coadjuvante Joyce em um tipo cativante, conferindo humanidade e brilho à personagem que poderia ter passado despercebida.

Drica Moraes conseguiu dar importância à Joyce, um personagem discreto (Foto: Divulgação)
Uma novela redonda e representativa
“Volta por Cima” foi, ao lado de “Garota do Momento”, uma das melhores novelas exibidas em sua faixa nos últimos tempos. Se Garota sofreu com algumas “barrigas” inevitáveis devido à necessidade de esticamento – algo comum no gênero e que não compromete sua qualidade –, Volta teve o mérito de ser mais enxuta, coesa e emocionalmente honesta. Em muitos momentos, chegou a ofuscar a novela das 21h exibida no mesmo período, a esquecível “Mania de Você”, que não conseguiu emplacar no horário nobre. E, não resta dúvida, muito melhor que sua antecessora, a triste chanchada-pop “Família é Tudo“.
Claudia Souto encerra essa jornada com uma novela que talvez não tenha sido um estouro de repercussão digital, mas que marcou por seu equilíbrio, representatividade e compromisso com uma narrativa bem contada. E isso, em tempos de volatilidade estética e narrativa, já é uma grande vitória.
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