Pela primeira vez, a TV brasileira, especialmente a Globo, terá dois comunicadores PcD em seus projetos jornalísticos. São eles: Fernando Fernandes, que apresentará o Esporte Espetacular, a partir do dia 30, e Flávia Cintra, repórter do Fantástico há 14 anos. Recentemente, ainda neste mês, Pedro Henrique França, era um dos comunicadores que compunha o “Glô na Rua” – braço do Carnaval Globeleza, na emissora carioca. Mas os três não estarão no ar simultaneamente (pelo menos por enquanto).
Curiosa e coincidentemente, quem completará o trio será um personagem de novela. Uma das primeiras vezes que um jornalista apresentou um programa esportivo na TV foi… em uma novela. Em “História de Amor” (1995), reapresentada nas tardes da Globo, Edgar Assunção, vivido por Nuno Leal Maia, fica paraplégico após um acidente de carro e precisa reconstruir sua vida, apesar de seu histórico atlético. A trajetória se assemelha à de Fernando Fernandes, que apresentará o Esporte Espetacular, em razão da saída de Bárbara Coelho para a Cazé TV. E este não é o primeiro esportivo de Fernando. Ele também apresentou o “No Limite“.

A ginasta Laís Souza e Fernando Fernandes, que estreia no novo Esporte Espetacular (Foto: Divulgação/Globo)
Há algum tempo, seria muito difícil vê-los com destaque no vídeo. Em várias das entrevistas realizadas pelo Site Heloisa Tolipan, quando uma pessoa com deficiência era retratada nas novelas, havia uma recorrente estereotipação: ou era alguém que perdeu os movimentos e sonhava recuperar a mobilidade, ou era um vilão que acabava em uma cadeira de rodas como forma de expiação por seus pecados. Outras vezes, obedecia a um roteiro limitado, sendo um personagem cuja única função era ser “a própria condição com a qual convivia”. Muitas vezes, esses papéis eram interpretados por atores que não tinham deficiência alguma. No telejornalismo, essa presença era ainda mais rara.
Segundo um artigo publicado pelo Centro Universitário Anhanguera, de São Paulo, em 2023, escrito por Sarah Gomes Silva, Lislei do Carmo Tavares Carrilo, Silvia Terezinha Torreglossa e Maurício Manoel Jarra, nos cursos de Jornalismo e áreas da Comunicação (Cinema e Audiovisual; Rádio e TV; Rádio, TV e Internet; Comunicação Social – Rádio e Televisão) dos municípios paulistas, há 26.650 estudantes matriculados, sendo apenas 144 com alguma deficiência, o que corresponde a 0,54% do total. Entre essas deficiências, destacam-se a visual (54 alunos) e a física (52 alunos). Também há estudantes com autismo, deficiência auditiva, mental/intelectual e múltipla.

Carla Marins e Nuno Leal Maia em “História de Amor” (Foto: Divulgação/Globo)
COMUNICA, PCD!
Estar à frente do Esporte Espetacular é simbólico para Fernando. “Assumir um programa que faz parte da minha vida e de todos os meus domingos é o momento mais importante para mim. Falar daquilo que amo vai ser um grande desafio e um prazer dividir o programa com a Karine Alves, que é competentíssima e muito carismática. Confesso que estou ansioso e muito motivado em trazer novas ideias, um pouco do olhar que tenho sobre o esporte, para que ele se torne cada vez mais espetacular”, celebra.
Tetraplégica há 32 anos, desde que sofreu um acidente de carro, Flávia Cintra está no Fantástico desde 2010. Por anos, foi a única comunicadora com deficiência a estar no vídeo. “A Globo é gigante, e passos de gigante precisam ser mais lentos porque você pode esbarrar onde não deve e provocar um estrago”, disse ela à Folha, em 2024.

Flávia Cintra (Divulgação/Globo)
Pedro Henrique França, por sua vez, já trabalha há algum tempo como jornalista e âncora do canal/podcast PCDPOD, ao lado de Benedita Zerbini, que é surda. Neste ano, Pedro foi repórter de rua do Carnaval Globeleza, no quadro “Glô na Rua”. Em seu Instagram, celebrou a conquista, como se conversasse consigo próprio:
Era você na telinha da Globo, mas era você e mais milhares que nunca tiveram essa oportunidade. Você faz por você, mas para tantos outros. Seu sonho é que você seja mais um entre várias pessoas com deficiência nesse lugar, ainda que isso pareça tão distante às vezes – Pedro Henrique França
O artigo da Universidade Anhanguera destaca a “invisibilidade dos jornalistas com deficiência e como ela pode impactar diretamente ou indiretamente a vida de deficientes e das empresas, trazendo uma maior conscientização sobre o assunto, visando a inclusão no mercado de trabalho”. Fora das câmeras, há outros profissionais na imprensa, ainda que em número reduzido. Em outras emissoras e veículos, destacam-se nomes como Jairo Marques, conhecido por assinar a coluna “Assim como Você“, na Folha de S.Paulo, e Daniel Toko, na Record. O número ainda é pequeno, mas representa profissionais que merecem ser vistos.

Pedro Henrique França conduzindo o Glô na Rua, em março (Foto: Reprodução/Instagram)
E assim, a tela, que antes refletia apenas silhuetas desfocadas, começa a revelar contornos mais nítidos, plurais, verdadeiros. O reflexo já não é um mero artifício narrativo, mas um espelho onde tantos podem, enfim, se enxergar. Que esse despertar não seja apenas um lampejo passageiro, mas um caminho onde a representatividade não seja exceção.
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