Thomás Aquino quebra padrões, assume protagonismo e mostra que ser galã é também uma questão de autenticidade


O ator está em três produções, simultaneamente: ‘Guerreiros do Sol’ (Globoplay), ‘Vale Tudo’ (TV Globo) e ‘DNA do Crime’ (Netflix). Mostra versatilidade e entrega artística. Com quase 20 anos de carreira, Thomás fala sobre ter sido alçado ao posto de ‘galã’ “Nunca havia visto um rosto como o meu antes neste lugar. Era sempre um padrão: branco, olhos azuis… essas são pessoas bonitas, mas existem outros tipos de pessoas belas, que não são dessa ‘bolha”

*Por Brunna Condini

“Esse lugar que ocupo hoje é resultado de um trabalho de muitos anos, de foco, estudo, determinação, então estou sendo presenteado. Me sinto feliz pelo ator que me tornei”, afirma Thomás Aquino, em um dos momentos mais efervescentes de sua trajetória. O ator, que atualmente está em três grandes produções simultaneamente, ‘Guerreiros do Sol’ (Globoplay), ‘Vale Tudo’ (TV Globo) e ‘DNA do Crime’ (Netflix), reconhece o privilégio, mas faz questão de lembrar o caminho percorrido. “Às vezes as pessoas falam: ‘Nossa, do nada você apareceu em tudo!’. Mas não foi do nada. É um caminho longo, com muitos ‘nãos’, muitos testes, dúvidas. Estar agora em tantas produções ao mesmo tempo é uma responsabilidade. Porque sei o quanto foi difícil chegar aqui, e mais ainda, se manter. Chegar aqui é uma realização. Quando começamos a trabalhar temos uma ambição, nunca passei do limite ético dela, mas delego chegar aqui hoje pelo meu foco e dedicação. Sempre pensei: “hoje estou dando mais um passo”. E assim continua sendo, um passo após o outro”.

Com quase 20 anos de carreira, Thomás estranha ter sido alçado ao posto de ‘galã’. Para ele, o status tem mais a ver com carisma e verdade em cena do que com perfil físico. “Me sinto honrado, feliz de ganhar esse título, mas faço uma reflexão: o que é ser galã? Talvez seja o charme dos personagens”. E observa a respeito dos padrões dos ‘galãs’ na TV brasileira:

Nunca havia visto um rosto como o meu antes neste lugar. Era sempre um padrão: branco, olhos azuis…essas são pessoas bonitas, mas existem outros tipos de pessoas belas, que não são dessa ‘bolha, e mostram outros tipos de beleza, uma que vai além – Thomás Aquino

No ar em três produções ao mesmo tempo, Thomás Aquino celebra a pluralidade de papéis e questiona padrões de beleza na TV (Divulgação/Globoplay)

No ar em três produções ao mesmo tempo, Thomás Aquino celebra a pluralidade de papéis e questiona padrões de beleza na TV (Divulgação/Globoplay)

Aos 39 anos, o ator nascido no Recife, até seus 20 pensava em ser jornalista. No entanto, uma chamada para testes em 2006 no espetáculo ‘O Grande Circo Místico’, adaptação de Chico Buarque e Edu Lobo, mudou seus planos. A partir daí, a vocação despertou e Thomás foi em busca da capacitação através do teatro. Em 2013, migrou para o cinema, fazendo filmes cult como ‘Tatuagem’, de Hilton Lacerda, e ‘Praia do Futuro’ (2014) de Karim Aïnouz. Ele também brilhou em três montagens de João Falcão: ‘Ópera do malandro‘ (2014), ‘Gonzagão, a lenda‘ (2014) e ‘Gabriela, o musical ‘(2016). Além de integrar o elenco das badaladas séries ‘3%’, ‘Manhãs de Setembro‘, ‘Vidas bandidas‘ e ‘Os Outros‘. O reconhecimento internacional veio em ‘Bacurau’ (2019), de Kleber Mendonça Filho, com quem trabalha novamente no já premiado ‘O agente secreto’, previsto para o segundo semestre.

“É maravilhoso ver meu trabalho sendo reconhecido pelas pessoas, isso é o que mais me move. Mas o que mais quero não é a fama pela fama, e sim, o que o meu trabalho pode proporcionar, sabe?”, diz Thomás, que tem sido requisitado como nunca, e lança ainda este ano o audiolivro ‘O Misterioso Caso de Styles’, de Agatha Christie (1890-1976), e o longa ‘Paterno’, de Marcelo Lordello. “Já tenho projetos para 2026, mas ainda não posso divulgar”.

Thomás Aquino na pele de Josué, líder do bando dos cangaceiros em 'Guerreiros do Sol' (Divulgação/Globo)

Thomás Aquino na pele de Josué, líder do bando dos cangaceiros em ‘Guerreiros do Sol’ (Divulgação/Globo)

O momento atual também é reflexo das parcerias criativas que vêm marcando sua carreira. “Tenho muita sorte de estar trabalhando com diretores que confiam em mim, que me desafiam”, diz. Em ‘Guerreiros do Sol’, ele vive Josué, líder do bando dos cangaceiros, um personagem intenso, com forte exigência física e emocional. Já em ‘Vale Tudo’, entrega uma atuação mais contida e racional como um Mário Sérgio mais ambíguo na versão do remake. Já na segunda temporada de ‘DNA do Crime’ , na Netflix, dá vida a Wellington Pereira, o ‘Sem Alma’, um tipo sombrio, em um universo policial:

Isso é o que me instiga: poder experimentar, não me repetir. Não quero ser rotulado como um tipo de ator só – Thomás Aquino

Thomás Aquino ao lado de Alice Wegmann em 'Vale Tudo' (Divulgação/Globo)

Thomás Aquino ao lado de Alice Wegmann em ‘Vale Tudo’ (Divulgação/Globo)

Por conta das raízes no teatro, Thomás carrega a escuta e a construção coletiva como marcas de seu processo criativo. “Esse lugar do coletivo, de construir junto, é muito forte em mim. Gosto de escutar, de trocar, de entender o que o outro está propondo. E acho que isso acaba refletindo nos meus personagens. Eles nunca são só o que está no papel. Trago minhas referências, minhas vivências. E mais do que tudo, tento fazer com verdade. Pode ser um cangaceiro, um publicitário, um bandido, mas se não tiver verdade, o público percebe”.

"Me sinto honrado, feliz de ganhar esse título de galã, mas faço uma reflexão: o que é ser galã? Talvez seja esse charme do personagem em cena" (Divulgação/Globo)

“Me sinto honrado, feliz de ganhar esse título de galã, mas faço uma reflexão: o que é ser galã? Talvez seja esse charme do personagem em cena” (Divulgação/Globo)

O ator não se acomoda e aposta em papéis que o desafiem. “Tenho muito respeito pelo meu ofício, e sei que cada papel é uma oportunidade única. Às vezes me perguntam: “Você prefere cinema, televisão ou streaming?”. E digo: prefiro estar onde a história for boa. Onde o personagem me tirar do lugar comum. Porque no fim das contas, o que me move é isso: contar boas histórias”.

Guerreiros do Sol

Na nova novela do Globoplay e do canal Globoplay Novelas (antigo Viva), que tem blocos de capítulos liberados às quartas-feiras, Thomás Aquino é o cangaceiro Josué, protagonista da trama livremente inspirada na história de Lampião e Maria Bonita. Escrita por George Moura e Sergio Goldenberg. A obra retrata o universo do cangaço nas décadas de 1920 e 1930. “Ele é um homem obstinado, focado e de palavra, numa época em que a palavra valia mais do que qualquer outra coisa. É uma pessoa muito íntegra, mas também composto por dois lados quase opostos: o doce e o amargo”. E pontua uma grande dificuldade para encarnar o personagem:  “Ser líder. Já joguei basquete e era armador, líder do time, mas liderar o cangaço é bem diferente (risos). Ser líder como Virgulino Lampião (1898-1938), foi o maior desafio. Josué é ficção, mas foi inspirado em Lampião. Para mim, enquanto pernambucano, protagonizar uma história com essa persona, só me engrandece. É uma honra mostrar como o Nordeste é rico em cultura e a importância do Cangaço para a região”.

Thomás Aquino em cena de 'Guerreiros do Sol' (Divulgação/Globo)

Thomás Aquino em cena de ‘Guerreiros do Sol’ (Divulgação/Globo)

O líder do cangaço vivido por Thomás, além de saber guerrear, e isso ter exigido dele um bom manejo com armas, também traz o lado humano, vivendo uma história de amor com Rosa (Isadora Cruz), e dando seus passos no forró para aliviar a tensão; coisa que foi fácil para o ator: “Sou forrozeiro desde os 17 anos. Então, já estou com o pé de serra na alma!”.