*por Vítor Antunes
“Não se nasce mulher, torna-se mulher.” É com essa frase — hoje incorporada ao vocabulário comum de quem discute gênero, mas escrita há mais de sete décadas — que Simone de Beauvoir (1908-1986) abre o segundo volume de uma de suas obras mais célebres, O Segundo Sexo. Ser mulher, para Beauvoir, é o resultado de uma longa engenharia social, histórica e cultural que impõe papéis, limites e, com frequência, violência — uma violência que, 77 anos depois da publicação do livro, continua a se reinventar com uma pontaria perturbadora. A frase ressurge com força porque o país assistiu, nas últimas semanas, a episódios que parecem desenhados para confirmar a tese da autora.
A jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos, morreu durante uma atividade de rope jump, no interior de São Paulo, conduzida por uma empresa que, segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, não a prendeu à corda de segurança antes do salto. Diante das imagens e fotografias da vítima, uma parcela de homens optou por tecer comentários de teor sexual e agressivo sobre o corpo da jovem — uma espécie de vilipêndio, ou seja, de violência, contra o cadáver, num momento em que ela já não tinha como se defender.
Para a atriz Paula Cohen, ser mulher hoje é “um desafio imenso. Cada pessoa vive uma fatia de tempo nesta existência, e, de alguma maneira, a minha caminhada foi diferente da caminhada da minha avó. Acredito eu que estamos dando passos, há muito tempo, no sentido de transformar essa realidade muito opressora que foi construída para as mulheres neste mundo. Surgem movimentos como o Red Pill e toda essa onda de conservadorismo. Há estudos que apontam que a geração mais nova, formada por jovens entre 16 e 29 anos, é uma das mais conservadoras. Trata-se de uma geração mais conservadora do que muitas das gerações mais velhas que ainda estão vivas. Muitos dos adolescentes e jovens adultos envolvidos em episódios de violência atroz estão inseridos nesse contexto”, observa a atriz.

Paula Cohen: A questão feminina precisa ser discutida (Foto: Julio Aracack)
Cohen vai além do diagnóstico e aponta uma trincheira possível: “O que temos de fazer é enfrentar esse desafio, proteger-nos, informar-nos, cuidar de nós mesmas, criar redes de apoio e promover discussões sobre essas questões nos ambientes em que circulamos e trabalhamos. Trata-se de um campo essencialmente político”, aponta.
Ser mulher é, por natureza, ser um ser político, porque estamos constantemente lutando pelo direito ao nosso próprio corpo. Essa é uma parte importante da nossa batalha diária. O que temos de fazer é despertar essa consciência e buscar adentrar os espaços políticos, porque o único jeito de transformar a realidade é por meio da equidade, com as mulheres ocupando as várias funções e participando da elaboração das leis – Paula Cohen
Para Paula , há uma mudança em curso na forma como a sociedade encara os relacionamentos. “Mudamos muito. O feminismo ganhou força, passamos a nomear situações antes naturalizadas, discutimos as toxicidades das relações, as dinâmicas de poder e até questões que continuam sendo tabu, como o sucesso econômico de uma mulher. A peça também aborda manipulação envolvendo filhos, disputas de guarda e outras tensões familiares”, afirma.
A peça à qual a atriz se refere é “Finlândia”, na qual contracena com o marido, o também ator Jiddu Pinheiro. O espetáculo esteve em cartaz até o fim de maio em São Paulo e segue com novas apresentações ao longo do ano. Um dos temas centrais discutidos pela peça são justamente os impasses relacionais entre os casais. “Embora eu não tenha filhos, observava muitas pessoas ao meu redor vivendo litígios e conflitos decorrentes de relações que, em algum momento, foram muito bonitas e que acabaram se rompendo. Isso dialoga com um tempo em que as pessoas, muitas vezes, têm dificuldade de se escutar. Percebi que a peça tinha urgência e relevância para ser levada ao palco. Em sua essência, a peça expõe contradições e questões profundamente humanas”, completa Paula.
Perguntam frequentemente qual é o desafio de falar sobre feminismo e relacionamentos sem cair no panfletarismo. Acredito que todos nós tentamos transmitir alguma mensagem, mas sem fazê-lo de forma simplista ou doutrinária. O que me interessa é justamente explorar a distância que, por vezes, existe entre o discurso e a prática. Mesmo pessoas atentas às questões do mundo acabam reproduzindo comportamentos que combatem. Nesse sentido, essa peça caiu como uma luva. Muitas vezes levantamos uma bandeira, mas acabamos presos nas próprias armadilhas que denunciamos. Não existimos sem incoerências. Ser humano não significa ser plenamente coerente. Estamos constantemente convivendo com nossas contradições, e faz parte da condição humana reconhecer isso – Paula Cohen

Jiddu Pinheiro e Paula Cohen em “Finlândia” (Foto: Julio Aracack)
A atuação de Paula na montagem valeu a ela um dos prêmios mais importantes do teatro nacional, o da Academia Paulista de Críticos de Arte (APCA). “A cerimônia de entrega foi muito emocionante. O reconhecimento veio por ‘Finlândia’, mas também tem relação com uma trajetória de 30 anos de teatro e com o lugar que construí dentro do teatro paulista e brasileiro. Há quatro anos eu havia recebido o prêmio de Melhor Atriz de Televisão por uma novela que fiz. Achava curioso ter sido reconhecida primeiro na televisão. Agora, receber também um prêmio pelo teatro tem um significado muito simbólico para mim, porque o teatro é o meu lugar de origem, de onde eu venho, a minha base e a minha formação. Cada vez mais percebo o teatro como um berço. A dramaturgia e o pensamento estão na origem de tudo isso”, afirma.
A atriz nos antecipa que gravou neste ano, em março, uma série da Netflix chamada “Habeas Corpus”. É uma produção nacional que deverá estrear mundialmente pela plataforma e que trata de uma trama brasileira centrada no universo do Direito e na temática do habeas corpus.
UMA MULHER DO MUNDO
Nascida no Brasil, filha de uruguaios, judia e atuando em uma peça chamada “Finlândia”, Paula soma referências que a tornam uma mulher do mundo — e, sobretudo, um retrato fiel da diversidade que constitui o Brasil. “Nasci no Brasil, mas meus pais são uruguaios. Tive uma oportunidade muito bonita na vida, porque fui formada dentro dessas duas realidades. Considero-me totalmente latino-americana, pois carrego esses dois lugares de construção da minha subjetividade e da minha formação como ser humano. Meus pais eram imigrantes uruguaios e, quando chegaram ao Brasil, ninguém falava português. Eu nasci nesse contexto e, dentro de casa, o idioma era o espanhol. Por isso, aprendi a falar espanhol antes do português e, até hoje, falo o idioma praticamente sem sotaque. Ainda assim, preciso ficar atenta porque o meu sotaque é uruguaio. Existe uma diferença muito sutil entre o sotaque uruguaio e o argentino, mas uma diferença significativa em relação ao sotaque de brasileiros falando espanhol. Por isso, faço sempre um trabalho cuidadoso para manter a característica rioplatense da fala”, revela Paula.

Paula Cohen tem ascendência uruguaia e debate a posição do Brasil na AL (Foto: Julio Aracack)
A menção à Argentina se justifica porque, recentemente, a atriz esteve envolvida em projetos rodados em espanhol sobre o país vizinho. “Filmei um longa-metragem muito especial e internacional no começo do ano, na Itália, em Turim. Trata-se de uma produção sobre uma história argentina relacionada à ditadura militar no país. É um filme de Marco Besti, diretor italiano que também foi criado na Argentina. Ele viveu todo aquele período da ditadura, foi preso e levado para centros de detenção clandestina, que eram numerosos na Argentina”, conta.
Permeada por essas conexões, Paula diz ser necessário estabelecer essas pontes culturais latinas. “Crio essas pontes o tempo todo. Sempre que faço peças ou filmes, gosto de deixar o espanhol aparecer quando trabalho no Brasil, assim como deixo o português surgir quando estou em outros países. Às vezes com legendas, às vezes sem. Acho que precisamos aproximar mais os nossos ouvidos”.
Paula aponta uma realidade que, episodicamente, também é relatada por pessoas vindas de países vizinhos ao Brasil na América Latina: nem sempre o Brasil — e, por consequência, os brasileiros — mantém com os vizinhos hispânicos a proximidade cultural que a geografia sugeriria. “Sinto que, por causa da língua portuguesa, acabamos ficando um pouco afastados de uma imersão mais profunda na cultura hispânica e castelhana. No Uruguai, por exemplo, escuta-se muita música brasileira, que é consumida de forma bastante natural. Já em relação à literatura, embora seja possível encontrar autores brasileiros nas livrarias, tenho a impressão de que esse intercâmbio ainda acontece em menor escala. A música, por outro lado, atravessa fronteiras com muito mais facilidade. Muitas pessoas que falam castelhano têm familiaridade com o português justamente por meio das canções brasileiras. Essa é uma forma de contato cultural muito forte. Vivemos experiências muito parecidas ao longo da história, desde a colonização violenta e os massacres que marcaram nossos povos até os períodos de ditadura. Por isso, sinto que tenho essa missão e esse desejo de estreitar esses caminhos. Somos muito mais próximos do que, às vezes, imaginamos. Nossas histórias de vida guardam muitas semelhanças”, afirma.

Paula Cohen: É importante fazer pontes culturais (Foto: Julio Aracack)
Atriz que transita pela comédia e pelo drama, Paula acredita que o humor ainda é visto como um gênero menor dentro das artes dramáticas. “Acredito que a comédia ainda é subestimada como ferramenta de crítica social no Brasil. Muitas vezes ela é vista apenas pelo prisma do entretenimento e da graça imediata, sem que se reconheça seu enorme potencial crítico. Historicamente, a comédia foi tratada como um gênero menor, quando, para mim, é justamente um gênero maior. Existe um grau de elaboração muito sofisticado para compreender a ironia, a metáfora e as associações que ela propõe. Além disso, há um estado específico que o ator precisa alcançar para fazer comédia. Costuma-se falar do tempo da comédia, mas acredito que exista algo ainda mais profundo: um estado de espírito. É um canal muito particular, um jogo extremamente preciso que precisa acontecer entre o intérprete e o público. Costumo dizer que a tragédia é a comédia observada com o distanciamento do tempo. Por isso, não gosto de estabelecer fronteiras rígidas entre os gêneros. Uma comédia pode conter momentos profundamente sensíveis, assim como um drama pode trazer situações engraçadas. Quando me imaginei atriz, nunca quis me limitar a um único lugar. Sempre desejei poder fazer tudo, transitando livremente entre diferentes linguagens e formas de expressão”, completa.
Ao longo da conversa, Paula Cohen retorna, de diferentes formas, à mesma ideia: a de construir pontes. Entre idiomas e países, entre teatro e televisão, entre a comédia e o drama, entre a vida privada e as questões políticas que atravessam o cotidiano das mulheres. Em tempos marcados por discursos de ódio, violência e retrocessos que parecem desafiar conquistas consideradas consolidadas, sua trajetória aponta para o caminho oposto: o da escuta, do diálogo e da arte como espaço de reflexão. Filha de imigrantes uruguaios, atriz premiada, mulher latino-americana e cidadã do mundo, Paula segue ocupando o palco como quem ocupa também um lugar de resistência. Afinal, como lembra Simone de Beauvoir, ninguém nasce mulher: torna-se. E esse tornar-se, ainda hoje, continua sendo uma construção diária, coletiva e profundamente política.
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