*Por Brunna Condini
Suzana Pires está no Brasil até dia 13 para divulgar ‘Câncer com Ascendente em Virgem‘, e conversou com o site sobre o filme, no qual ao lado de Marieta Severo, Nathália Costa e Fabiana Karla, leva para a telona a história de Clara, uma professora de matemática e influenciadora educacional que é surpreendida pelo diagnóstico de um câncer de mama. Segundo o INCA (Instituto Nacional de Câncer), só em 2025 estima-se que serão registrados quase 74 mil novos casos deste câncer no país. Levando o dado em consideração, Suzana destaca o poder da arte como instrumento para desfazer estigmas em nossa sociedade. “Tenho ouvido muito das pessoas que nunca imaginaram pensar no câncer como o filme aborda. Acho que isso é quebrar tabu, quando você mostra novas facetas do mesmo tema. Mas não fizemos o longa com este foco, fizemos a partir do blog da produtora Clélia Bessa (‘Estou com Câncer, e Daí?’, que também virou livro); a história de uma mulher que vivenciou a doença. E conseguimos colocar ali a história de todos. A Clélia fez um relato muito honesto”.
E compartilha ainda: “Ao mesmo tempo, eu atravessava e atravesso essa experiência com o meu pai (João Felippe, o Felippão), que hoje está muito frágil, mas já são 10 anos de câncer (pulmão), entre descobertas e remissões. Ele está em um momento confuso, com o que se chama de demência medicamentosa. Mas antes disso sempre disse que teve a vida que quis ter. E mesmo agora, sinto que está bem pelas recordações que sua mente tem escolhido para reviver”. Aqui, a atriz e roteirista fala sobre amadurecimento, a relação com o corpo e a sexualidade das mulheres 40+; e compartilha a profunda experiência com o filme, revelando se a jornada a deprimiu em algum momento ou só abasteceu mais sua urgência de viver.

Suzana Pires estrela filme abordando câncer e fala sobre relação com o corpo e sexualidade das mulheres 40+ (Foto: Sergio Baia)
“Acho que rolaram esses dois momentos. No campo pessoal, a tristeza vem quando você tem que lidar com um diagnóstico assim, se tratando de alguém muito próximo. Não é uma doença fácil. Desequilibra quem precisa conviver com ela, é uma balança para que se equilibrar diariamente. Em relação ao filme, na sua construção, em muitos momentos tive que me virar toda para dentro, ficar bem quieta. Dos ensaios até o último dia das filmagens, saí de casa, fiquei morando em um hotel, porque não dava para viver uma personagem assim e ter que lidar com a vida prática. Nas folgas, por exemplo, não conseguia sair, socializar. Só uma amiga muito próxima, a Thalita Rebouças, esteve comigo. Me reservei para sentir”.
Precisei entrar em contato com a tristeza durante esse trabalho, não chegou a ser uma depressão, mas tive que encarar esse sentimento. Além de todos os outros, como a alegria, as frustrações, a esperança. Fiquei muito sensível e vulnerável. E em um filme assim, a gente não pode se proteger de sentir- Suzana Pires

Clélia Bessa, Marieta Severo, Rosane Svartman, Nathália Costa, Suzana Pires e Elisa Bessa, filha de Clélia, que inspirou a produção (Divulgação)
Aprendi com o filme e acompanhando meu pai com a doença todos esses anos que o câncer está dentro da vida. E fazendo parte dela, terão momentos dramáticos e momentos engraçados, tudo que cabe ao existir. Ao conviver com a doença, também aprendermos a nos relacionar com a morte, coisa que fazemos mal. A arte, o cinema, abrem a discussão, jogam luz, assim os tabus se desfazem – Suzana Pires
Vendo beleza nas transformações
A multiartista completa 49 anos em 13 de junho deste ano, e tal qual sua personagem no filme, tem lidado cada vez melhor com sua versão na maturidade, por dentro e por fora. Ela recorda, que no longa dirigido por Rosane Svartman (contém spoiler!), tem uma cena em que Clara “se despede de um dos peitos”, quando recebe a notícia de que precisará fazer uma mastectomia total; e o faz através de um banho de mar só de calcinha. “Essa cena é muito emocionante, porque não é sobre o corpo, é sobre a liberdade. Mostrar o corpo não é uma questão para mim, até porque existe todo um cuidado da equipe. Mas para além disso tudo, teve uma coisa muito louca que aconteceu neste filme”. E conta:

“A arte, o cinema, abrem a discussão, jogam luz, assim os tabus se desfazem” (Foto: Sergio Baia)
“Eu realmente estava me despedindo, porque tirei meu silicone sete dias depois que as filmagens terminaram, já que ele encapsulou após 15 anos. Soube que teria que tirar o silicone um mês antes de começarem as filmagens. Estava ensaiando e comecei a sentir uma dor no seio esquerdo. Pensei: “Nossa, como nós, atores, somos loucos. Minha personagem tem câncer no seio esquerdo e estou sentindo dor no mesmo peito”. A dor foi aumentando, fui ao médico e ele disse que o que estava acontecendo. Acabei tendo que me despedir de um corpo que não seria mais meu também, por outras questões, claro. Foram seis horas de cirurgia. A vida foi me dando coisas para que eu utilizasse no filme, sabe?”.

“Se for pensar em maturidade, sexualmente, hoje é muito melhor. Não tenho mais nenhuma nóia. Me deixo sentir, sem medo” (Foto: Sergio Baia)
Maturidade
“Este segundo tempo da vida é muito melhor, já estamos aquecidas (risos). Gosto de me cuidar. Em termos estéticos, curto as máquinas, de laser e tal, não curto ficar injetando coisas no rosto. E passei a ter paixão por malhar, coisa que não tinha. Só malhava para personagem. Agora, todo dia de manhã tenho um momento meu: três vezes na semana musculação e duas ioga. Também faço terapia e comecei a meditar. Isso mudou a minha vida, me deixou mais firme fisicamente e mais suave por dentro. Nunca estive tão feliz”, afirma.
Tenho uma história coerente e isso me deixa grata. Sucesso para mim é ver como comecei e como estou agora, que tem coerência de valor. Agora tenho um instrumental mais sofisticado, profissionalmente. E se for pensar em maturidade, sexualmente, hoje é muito melhor. Não tenho mais nenhuma nóia. Me deixo sentir, sem medo. Temos um orgão chamado clitóris, que tem mais de oito mil terminações nervosas, para nos dar prazer. É preciso se permitir sentir, fazer esse exercício. É muito poder um corpo que pode gerar tanto prazer. Só fiz as pazes com isso depois dos 45 anos – Suzana Pires

“É muito poder um corpo que pode gerar tanto prazer. Só fiz as pazes com isso depois dos 45 anos” (Foto: Sergio Baia)
Donas das suas histórias
Depois de cuidar da divulgação do filme, ela retorna para Los Angeles, onde vive há três anos, trabalhando em salas de roteiro para grandes estúdios, como a Amazon e a Sony Studios, para a qual cria a versão brasileira de ‘Charlie ‘s Angels’ (“As Panteras’). Além disso, comanda a produtora Spiritus Entertainment, que tem a missão de facilitar a produção de conteúdos brasileiros no mercado internacional. Enquanto está por aqui, Suzana promove a nova jornada de aceleração de talentos do Instituto Dona de Si, que abre inscrições no Rio de Janeiro, Brasília, São Paulo, Salvador e Porto Alegre.“Em seis anos, já aceleramos a carreira de mais de 5 mil mulheres na indústria criativa. Vamos abrir uma jornada para 1.500 mulheres, a maior que já realizamos até agora. Estou muito feliz com essa conquista”, vibra.
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