Sucesso na série TOP 1 ‘Os Donos do Jogo’, Pedro Lamin dispara: ‘Fracasso é aliado do risco. Aqui foi persistência”


Com atuação elogiada como Nelinho na série mais assistida da Netflix, o ator vive uma fase de amadurecimento pessoal e artístico. O ator relembra os “85 nãos” que recebeu no início da carreira, fala sobre a perda recente da mãe, vítima de câncer, o aprendizado com o silêncio e o equilíbrio que encontrou na corrida. Entre o sucesso no streaming e a busca por sentido fora dos holofotes, ele revela: “Sucesso é poder dividir tudo que estou vivendo com os meus amigos, minha família. Quando entendi isso, parei de buscar fora, e o reconhecimento do público veio naturalmente”

*Por Brunna Condini

Aos 36 anos, Pedro Lamin vive um dos momentos mais intensos e transformadores da sua vida. Com performance impactante em ‘Os Donos do Jogo’, série top 1 da Netflix, que mergulha no universo do jogo do bicho carioca, o ator traduz na pele de Nelinho uma jornada de dor, lealdade e redenção que, em certo recorte, espelha também seu caminho. “Ele é o personagem mais importante da minha carreira. Artisticamente, esse sucesso era algo que eu almejava. Em algum lugar, acreditava que ia acontecer, mas não imaginei que fosse com esse trabalho, até porque minha vida andou em um turbilhão. Minha mãe estava doente (com câncer) e partiu há quatro meses. Esse trabalho me mudou como homem e como artista”.

De ex-jogador de futebol, passando pelo papel recente de príncipe Maruan na novela ‘Mar do sertão‘ (2022/23), da Globo, ao protagonismo no streaming, Lamin soma à intensidade dos personagens a serenidade de quem aprendeu o valor do equilíbrio e do cuidado. O mesmo cuidado que dedicou à mãe, Rosana, nos últimos meses de vida, e que encontrou eco no seu personagem na série que “cuida no silêncio”. “Entendi o que é cuidado de verdade. É estar junto, ouvir, muitas vezes não falar nada. Enquanto o Nelinho cuidava do Profeta (André Lamoglia, que vive um bicheiro e faz seu irmão na produção), eu cuidava dela também. Uma coisa alimentava a outra”. A trajetória do ator é, antes de tudo, uma história de persistência. Foram “uns 85 nãos” até chegar ao primeiro grande papel, e a força de cada recusa virou combustível. “As negativas não me abalam, não me definem, não me moldam. O que me define é a vontade de continuar, de construir o futuro que almejo, ter uma família, qualidade de vida, e poder olhar para trás com orgulho”. Hoje, o sucesso chegou, mas com outro significado:

Trocaria todo o sucesso do mundo por um café com a minha mãe, por exemplo. Sucesso é poder dividir tudo que estou vivendo com os meus amigos, minha família. Quando entendi isso, parei de buscar fora, e o reconhecimento do público veio naturalmente – Pedro Lamin

Pedro Lamin vive fase de amadurecimento com 'Os Donos do Jogo': “Sucesso é poder dividir o que vivo com as pessoas que amo” (Foto: Phillip Lavra e Isadora Relvas)

Pedro Lamin vive fase de amadurecimento com ‘Os Donos do Jogo’: “Sucesso é poder dividir o que vivo com as pessoas que amo” (Foto: Phillip Lavra e Isadora Relvas)

Na trama que mergulha nas entranhas do jogo do bicho, Nelinho, embarca ao lado do irmão, Profeta, em uma jornada de poder, ambição e lealdade que começa no interior do estado e ganha grandes proporções ao chegar à capital. À medida que os dois ascendem na hierarquia da contravenção, o perigo se intensifica com a presença de Galego (Chico Diaz), líder de uma tradicional família de bicheiros que tenta manter o controle do império ao lado da mulher, Leila (Juliana Paes). A consagração de ‘Os Donos do Jogo’ como uma das produções mais assistidas da Netflix marca um divisor de águas na trajetória do ator. Mas, por trás da visibilidade e dos aplausos, há um artista em busca de profundidade. No set, ele viveu uma imersão emocional intensa, cercado por cenas de violência e dilemas morais, e encontrou na vulnerabilidade o ponto de força do personagem. “Foi um desafio lidar com esse universo, porque o Nelinho vivencia várias formas de agressão, com o pai, com as mortes que carrega e até com a forma como se enxerga, na forma como vê a própria cicatriz. Mergulhei tanto nesse ambiente que fiquei muito isolado, muito sozinho. Foi um processo de entrega total”, conta.

A Família Moraes na série: o aliado Sombra (Igor Fernandez), Esqueleto (Ruan Aguiar), o patriarca Nélio (Adriano Garib), Profeta (André Lamoglia) e Nelinho (Pedro Lamin) - (Foto: Divulgação - Netflix)

A Família Moraes na série: o aliado Sombra (Igor Fernandez), Esqueleto (Ruan Aguiar), o patriarca Nélio (Adriano Garib), Profeta (André Lamoglia) e Nelinho (Pedro Lamin) – (Foto: Divulgação – Netflix)

E continua falando do lado mais duro do personagem, o universo extremamente violento da contravenção. “Precisei mergulhar nisso de forma quase integral. Vivo em Petrópolis com a minha esposa (a gerente de marketing Moana Dantas, com quem está desde abril do ano passado), mas, durante as gravações, morei no Rio e passava o dia inteiro em preparação, e quando voltava pra casa, continuava alimentando esse universo assistindo a filmes e referências que o Heitor (Dhalia, diretor da série) pedia. Foi um período de muito isolamento. Estava só eu, o personagem e esse mundo violento, o tempo todo”. Ele conta que, em alguns momentos, sair desse estado era tão desafiador quanto entrar.

Tinha que vivê-lo quase 24 horas por dia. O set era mais um reflexo disso, um lugar muito técnico, de muito estudo, mais até do que da própria violência em si –  Pedro Lamin

Pedro Lamin é Nelinho, fiel escudeiro do irmão Profeta (André Lamoglia) em 'Os Donos do Jogo' - (Foto: Divulgação - Netflix)

Pedro Lamin é Nelinho, fiel escudeiro do irmão Profeta (André Lamoglia) em ‘Os Donos do Jogo’ – (Foto: Divulgação – Netflix)

O caminho

Nascido em Virgínia, município de Minas Gerais, e criado em Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, Pedro Lamin cresceu com os pés nos campos de futebol antes de pisar nos palcos e sets de filmagem. Na adolescência, chegou a ser contratado pelo time Serrano, mas, aos 21 anos, descobriu outra vocação: a arte. Começou a frequentar cursos de interpretação e, a partir dali, iniciou uma transição que mudaria completamente sua trajetória. O caminho, porém, esteve longe de ser fácil. Foram anos de testes, expectativas e negativas até conquistar papéis mais expressivos. “Acho que existem muitos tipos de ‘não’. Existem uns em que você sabe que entregou tudo em um teste e outros em que sabe que não entregou tudo. No momento em que você recebe o ‘não’, existe uma reflexão em cima disso, sem dúvida, mas eles não influenciam no meu dia a dia”, afirma.

Com uma visão madura sobre o processo, o ator diz que aprendeu a transformar as recusas em aprendizado. “Uma qualidade que tenho é saber que o ‘não’ é passado e não posso fazer nada. O ‘sim’ é uma possibilidade, e eu trabalho em cima das possibilidades. A força que tive para fazer o teste para o Nelinho é a mesma que tive lá em 2012, quando fiz o meu primeiro teste. Isso eu não perdi. Não me abalo com os ‘nãos’. O que me interessa é o presente e como crio a estratégia para ter o futuro que desejo”.

O Nelinho foi um presentão que eu esperei por 13 anos de carreiraPedro Lamin

"Sucesso é poder dividir tudo que estou vivendo com os meus amigos, minha família"(Foto: Phillip Lavra e Isadora Relvas)

“Sucesso é poder dividir tudo que estou vivendo com os meus amigos, minha família” (Foto: Phillip Lavra e Isadora Relvas)

Ele olha para o passado com serenidade e gratidão, não escondendo que já pensou em abandonar a profissão, mas aprendeu a enxergar esse momento como parte do processo. “Já pensei em desistir por 24 horas. No dia seguinte, eu já estava com muita vontade de realizar meus sonhos de novo. O que reflete minha carreira não é a dúvida, é a persistência. Tenho muito orgulho da minha caminhada”. Hoje, o ator encara o fracasso como um velho conhecido:

O fracasso é um aliado, um companheiro do risco. Como sempre me propus a me arriscar, aprendi a ser amigo dele. Acho que sucesso e fracasso andam juntos, um não existe sem o outro – Pedro Lamin

Movimento e equilíbrio

Para lidar com os altos e baixos da existência, Lamin conta que encontrou no movimento uma forma de autoconhecimento. “A corrida me trouxe um entendimento muito grande sobre mim mesmo. Quando comecei a treinar com planilha, por exemplo, aprendi que correr devagar também é evolução. Isso mudou minha forma de ver o tempo, de respeitar os processos. É um exercício de paciência, foco e presença”. O ator, que integra o time do Strava e tem parceria com a Osklen, segue firme nos treinos e já se prepara para seu próximo desafio: a WTR no Vale das Videiras, corrida na montanha marcada para o dia 15 de novembro: “É uma prova mais desafiadora, porque não tem os aplausos, você corre no meio do mato, sozinho. E eu gosto disso. É um momento em que me encontro comigo mesmo, onde o silêncio vira força”.

"O Nelinho foi um presentão que eu esperei por 13 anos de carreira" (Foto: Phillip Lavra e Isadora Relvas)

“O Nelinho foi um presentão que eu esperei por 13 anos de carreira” (Foto: Phillip Lavra e Isadora Relvas)