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Sucesso em “O Outro Lado do Paraíso”, Erika Januza estrela editorial exclusivo do site HT e comenta dedicação à carreira e representatividade no mercado: “Nós precisamos ter negros na televisão”

A atriz, que está no ar como a juíza Raquel da trama das 21h da Globo, comentou ainda sobre ser referência para mulheres negras. Na televisão, Erika brilha com seu cabelo natural após um difícil período de transição capilar. "Eu tive cabelo alisado a vida inteira. Era como se fosse uma proteção para mim, um escudo da minha autoestima, porque eu não ouvia que meu cabelo era ruim ou duro"

Publicado em 19/02/2018 | Por Julia Pimentel

Body Iorane | Saia Iorane | Brinco Iara Mader para Joya Ipanema | Sandália Yves Saint Laurent (Foto: Jorge Bispo)

Para ter uma marca registrada na carreira, tem gente vai atrás de slogan, conceitos e consultorias. Mas, quando isso ocorre de maneira natural, e fruto do seu trabalho, é ainda mais especial. Essa é a nova realidade da juíza de “O Outro Lado do Paraíso”. Quer dizer, de Erika Januza. Sucesso na atual novela da 21h da Globo, a atriz contou que a personagem tem tomado conta da sua vida. “Agora eu só ouço as pessoas cochichando que eu sou a juíza da novela. Eu não tenho mais nome”, brincou a atriz que está em êxtase com esta confusão do público. Workaholic declarada, Erika saiu da casa dos pais em Contagem, Minas Gerais, para apostar em uma nova profissão no Rio de Janeiro e se dedica a honrar esta viagem diariamente. “Eu saí de casa para trabalhar. Não queria saber de namorar ou conhecer o Rio de Janeiro. Por isso tenho essa postura e me cobro sempre para manter meu foco vivo. O trabalho para mim está em um nível muito alto na minha linha de preocupação”, disse.

Body Iorane | Saia Iorane | Brinco Iara Mader para Joya Ipanema | Sandália Yves Saint Laurent (Foto: Jorge Bispo)

E foi essa versão dedicada à carreira de Erika Januza que conhecemos em um dia de fotos com a atriz. Aplaudida dentro e fora das telinhas, ela também ganhou elogios em outra posição artística: como modelo. No super editorial exclusivo do site HT, Erika posou para as lentes do sempre impecável Jorge Bispo e mesclou força e sensualidade em cliques que ajudam a contar sobre a mineirinha de Contagem. Na beleza, Everson Rocha foi o responsável pela produção e, no styling, Ale Duprat completou o poderoso time. No calor do Rio de Janeiro e entre as gravações da novela, mais uma vez, Erika mostrou que, realmente, o trabalho é sua prioridade pessoal. “Não adianta só eu estar trabalhando, eu quero ser elogiada e estar bem naquele personagem. Não posso fazer de qualquer jeito e é por isso que me dedico tanto”, contou.

Body Iorane | Saia Iorane | Brinco Iara Mader para Joya Ipanema | Sandália Yves Saint Laurent (Foto: Jorge Bispo)

Talvez por isso, certamente, na verdade, Erika Januza está colhendo os bons frutos de seu empenho na telinha. No ar em “O Outro Lado do Paraíso”, a atriz vive a intensa Raquel que, como ela contou, já está em sua quarta fase na história – em pouco mais de três meses de trama. “Eu acho que essa é a primeira personagem que eu estou tendo a oportunidade de fazer uma transformação. Tudo muda. O jeito de falar, de comportamento e postura são outros”, disse. Não é para menos. Na estreia, Erika Januza foi anunciada como uma empregada quilombola que sofreria por amor e pelos comentários da patroa racista. Mas, com o desenrolar dos capítulos, a personagem virou o jogo e hoje é a juíza da novela. Para conseguir contar esta história, a atriz viveu e segue vivendo experiências diferentes nos bastidores de “O Outro Lado do Paraíso”. “O meu desafio foi levar a menina da primeira fase para a juíza que apareceu depois. Ela se tornou uma mulher importante, mas continua carregando o jeito daquela garota do começo. Então, o meu trabalho foi fazer com que uma personagem não anulasse a outra, já que são a mesma”, explicou.

Para isso, Erika contou que não misturou as fases da personagem. “Se eu começasse a estudar a segunda fase ainda estando na primeira, eu ia acabar invadindo e misturando as posturas. Preferi fazer uma ordem e dividir bem”, lembrou a atriz que aceitou o papel mesmo sem saber desta virada da Raquel na história. “Eu nem sabia o que ia acontecer. Somente depois que eu comecei a preparação da personagem que fui descobrir que ia ter essa virada. Mas, no primeiro momento, era só a Raquel que sofria preconceito e por um amor”, disse.

Vestido Corporeum | Brinco Joya Ipanema | Sandália Yves Saint Laurent (Foto: Jorge Bispo)

Inclusive, isto foi algo que repercutiu na internet no começo da novela. Em tempos de empoderamento e tantos movimentos sociais e ideológicos, Erika Januza foi criticada por aceitar mais um papel de empregada em uma novela. Para parte do público, artistas negros não devem mais se prender aos estereótipos do passado. “No Brasil, nós temos essa ideia de que o negro sempre é o empregado, motorista ou profissões de serviço. Quando souberam, todos já começaram a criticar que eu seria mais uma negra fazendo papel de empregada. E eu entendo porque nós estamos acostumados a ver casos assim de personagens que ficam no canto da sala e nem falam nada”, disse a atriz que, mesmo antes de saber sobre os rumos da personagem em “O Outro Lado do Paraíso” defendia uma mensagem por trás. “Dizia que era uma história de amor de uma negra com um branco – que também poderia ser de um negro com negro. Isso não muda muito. Para mim, as pessoas têm uma pressa de julgar sem nem ver a história. A internet dá muita liberdade para as pessoas criticarem”, analisou.

Vestido Corporeum | Brinco Joya Ipanema | Sandália Yves Saint Laurent (Foto: Jorge Bispo)

No entanto, mesmo com este burburinho acerca da personagem, que acabou caindo por terra, Erika Januza afirmou que aceitaria fazer mais uma personagem negra na teledramaturgia brasileira. “Quando eu topei, eu não sabia se a personagem era grande ou não e se ia ter uma transformação ou não. Eu aceitei super feliz o meu papel de empregada. E mais. Saía contando para todo mundo que eu ia trabalhar. Eu deixei a minha casa em Minas Gerais por causa da minha profissão. Se eu estou em um trabalho, estou muito feliz”, disse a atriz que acredita que o discurso seja outro. “Eu acho que o mais importante não é se eu estou fazendo uma empregada ou uma juíza. Nós precisamos ter negros na televisão. A representatividade é fundamental em qualquer sociedade. No nosso caso não é diferente”, destacou.

Sobre isso, Erika Januza contou que tem acompanhado bem a força de sua história da ficção fora das telas. “Eu estava em uma festa no Réveillon quando um rapaz chegou para mim contando que já tinha dormido na rua e no lixão e, hoje, quando ele acha que vai ser barrado em algum lugar, mostra a carteirinha da OAB. E aí ele me disse que quando viu a cena em que eu volto à casa da pessoa que me humilhou e ela tem que engolir, ele se sentiu representado”, disse emocionada a atriz que, com esta e tantas outras mensagem e experiências que têm vivido com a Raquel, acredita que sua arte esteja cumprindo a função. “É uma personagem diferente para mim, para a televisão e para todos que estão assistindo. E é necessário. Hoje a teledramaturgia precisa acompanhar os movimentos da nossa sociedade. O público não aceita mais qualquer coisa e, por isso, a televisão hoje respeita o telespectador”, completou.

Terno Hugo Boss | Brincos Joya Ipanema (Foto: Jorge Bispo)

Por falar em representatividade, Erika ainda é referência por outro motivo. Na telinha, na atual fase da novela, a atriz brilha na pele da juíza Raquel que tem um figurino elegante e um super black power. Nos tribunais da ficção, Erika Januza desfila seu cabelo natural e destaca a beleza dos fios crespos no horário nobre. No entanto, esta nem sempre foi uma realidade na vida da atriz. Hoje, ela faz parte de um time de celebs que exaltam o processo de transição capilar. Além de Erika Januza, nomes como Ludmilla e Lucy Ramos também acendem holofotes para a questão. “Hoje eu me vejo nesta situação porque as meninas negras me colocam assim. Até porque, eu acho que não tem como fugir. Eu estou na televisão que serve como referência para milhares de pessoas. Se alguém identifica o seu cabelo em uma personagem da novela, automaticamente ela vira um modelo”, disse.

Mas, para hoje ostentar os cachos, Erika lembrou que viveu um processo difícil e nada espontâneo. “Eu tive cabelo alisado a vida inteira. Desde quando eu passei a poder, alisei. Era como se fosse uma proteção para mim, um escudo da minha autoestima, porque eu não ouvia que meu cabelo era ruim ou duro”, lembrou a atriz que precisou tirar o mega hair liso e cortar os fios alisados para seu primeiro trabalho na televisão. “Quando eu fiz o teste para Subúrbia, eles perguntaram se podiam cortar o meu cabelo e eu disse que sim. Não pensei na hora, mas deixei. E aí, quando eles cortaram, meu coração parou”, contou.

Body Loungerie | Saia Hugo Boss | Joias Joya Ipanema | Sandália Louboutin (Foto: Jorge Bispo)

Na época, a atriz tinha o cabelo na altura da cintura e ficou com o visual na orelha. Para a minissérie da Globo, que foi ao ar em 2012, Erika Januza Não precisou fazer muito mais que isso. Mas, depois desta experiência, ela começou a mergulhar na possibilidade de transição capilar. “Uma das caracterizadoras de Subúrbia me levou a um salão que cuidava de cabelos crespos e aos poucos eu fui indo a passos muito lentos. Nosso cabelo cresce muito mais devagar e eu costumo dizer que é um processo que demanda muita paciência. A gente tem que ir cuidando de cada fio, não dá para querer que ele cresça lindo e maravilhoso”, disse a atriz que ainda destacou que cada cabelo crespo tem sua especificidade. “Não adianta eu gostar do da Isabel Fillardis se o meu é diferente. Eu tenho que ver e aprender a gostar da minha identidade”, pontuou.

Body Loungerie | Saia Hugo Boss | Joias Joya Ipanema | Sandália Louboutin (Foto: Jorge Bispo)

E isso não foi fácil. “Levou um tempo para eu começar a gostar do que eu via no espelho. Mas, hoje, eu não me vejo com outra cara”, afirmou Erika que começou a alisar os fios com nove anos. “Antes a gente não tinha esse movimento de assumir o cabelo crespo e ir para a rua. Tínhamos todas que nos encaixar em um padrão de televisão que dizia que o bonito era o cabelo chapado. Para ser aceita, eu precisei entrar em um padrão que não era o meu”, lembrou a atriz que, além da luta psicológica, ainda sofreu com o processo de alisamento. “Se você deixasse pegar no couro cabeludo ou ficar além do tempo, dava ferida na cabeça. A ponto de sangrar. Mas, para mim, isso não importava. Eu só queria que meu cabelo ficasse liso. Era uma coisa muito louca”, revelou.

Hoje, com seu cabelo natural, Erika garantiu que não se envergonha do passado e da luta contra os fios crespos. Para ela, o mais importante é estar bem consigo mesma – não importa a textura do cabelo. “Eu não renego que eu alisava e adorava o cabelo que eu tinha. Às vezes eu faço uma escova e me sinto bem também. O mais importante é que a gente não se prenda a um padrão. Não é porque o cabelo crespo está na moda que você não pode alisar. Eu acredito que o importante é que cada uma se sinta bem da melhor forma. Ninguém precisa entrar em uma moda que não goste”, defendeu a atriz que destacou que precisamos ter liberdade para nossas escolhas.

Camisa Levi’s (Foto: Jorge Bispo)

Além desta questão, mas ainda em um ambiente próprio à atriz, o racismo é outra gaveta que está sempre aberta na vida de Erika. Inclusive, a atriz disse que sonha com uma sociedade não a questione mais sobre isso. “Eu torço para o dia em que vão falar comigo apenas sobre a personagem, sem entrar na questão se ela está passando preconceito ou não na novela. Mas, infelizmente, a gente vive em uma sociedade que não nos permite ignorar isso. Eu não posso hoje me incomodar por bater tanto na tecla do racismo, por exemplo”, disse a atriz que, embora tenha assumido o desconforto, garantiu lidar bem com a temática. “A sociedade ideal é aquela que não tem preconceito e tudo acontece de forma natural. Porém, eu sei que esta é uma realidade muito distante da nossa. Então, eu convivo muito bem com isso porque eu sou negra e nunca vou deixar de ser”, argumentou.

Choker Atelier Chilaze (Foto: Jorge Bispo)

Mesmo assim, Erika não abre mão de um cuidado especial para comentar alguns assuntos – inclusive aqueles que ela defende com propriedade. “As pessoas hoje em dia não aceitam muito a opinião do outro e isso faz com que eu não me sinta à vontade de expor a minha. Eu não entendo como alguém pode não aceitar uma visão diferente sobre um assunto”, questionou-se a atriz que destacou que isto ainda ocorre dentro de nichos já segmentados. “Se eu negra falo de um assunto que outro negro não concorda também vira um debate racial entre a gente. E aí isso faz com que a gente precise pensar muito bem antes de falar”, completou.

Camisa Levi’s | Calcinha Loungerie | Choker Atelier Chilaze (Foto: Jorge Bispo)

Mas ainda bem que a vida não é só assunto pesado e pé atrás. E no caso de Erika Januza não é diferente. Mesmo não fugindo de questões mais difíceis, a atriz traz a leveza de sua personalidade para dentro e fora do trabalho. Aliás, trabalho é uma palavra que costura boa parte dos argumentos da atriz. “A minha profissão é algo que me deixa muito feliz. Eu não sei bem explicar como é isso. Sabe aquela palavra plena? Então, é assim que eu me sinto quando estou trabalhando. Ir gravar é algo que me deixa leve. Não sei bem como explicar”, disse a workaholic.

Camisa Levi’s | Calcinha Loungerie | Choker Atelier Chilaze (Foto: Jorge Bispo)

Outro cenário que descola Erika Januza do mundo real é o Carnaval. Embora venha de uma cidade sem qualquer relação direta com a folia, a atriz é apaixonada pelos desfiles de escolas de samba desde a infância. “Eu já gostava de Carnaval antes de me mudar para o Rio. Ficava assistindo aos desfiles até o dia amanhecer pela televisão. Sempre gostei”, contou a atriz que, depois que veio para a cidade maravilhosa não largou mais a passarela do samba. Este ano, Erika Januza desfilou pela Grande Rio como uma das musas da escola. “Fui aos ensaios todos os sábados. Eu acho que essa é uma forma de interagir com a comunidade e estar presente de verdade na hora do desfile. Eu quero conhecer as pessoas, saber o samba e me sentir parte daquela família”, contou animada.

Camisa Levi’s | Calcinha Loungerie | Choker Atelier Chilaze (Foto: Jorge Bispo)

E não pense que tem sido um cansaço extra em meio às gravações de “O Outro Lado do Paraíso”. Para Erika Januza está tudo ótimo. “Não é nenhum sacrifício e também não faço pela exposição. Eu sinto muito prazer por estar respirando aquela energia”, disse a atriz que já desfilou como Xica da Silva e Oxum nos anos anteriores.

Camisa Levi’s | Calcinha Loungerie | Choker Atelier Chilaze (Foto: Jorge Bispo)

Apesar da dedicação aos novos rumos de sua personagem em “O Outro Lado do Paraíso”, Erika indicou que futuros trabalhos possam estar a caminho. “Tem novidades que eu ainda não posso falar. Mas também não estou focada nisso. Por enquanto a minha entrega é só para a Raquel que já está em sua quarta fase”, disse a atriz que se entrega ao trabalho atual, mas sem fechar os olhos para o mercado. “A profissão de ator é muito difícil porque hoje eu estou empregada, mas amanhã não sabemos. No nosso mercado temos vários exemplos de artistas que sofreram com isso”, lembrou Erika que afirmou ter medo de não conseguir novos trabalhos. “Quando eu fiz Subúrbia, ficava me perguntando se algum dia ia ter outra oportunidade na profissão. Isso faz parte de mim”, disse.

Camisa Levi’s | Calcinha Loungerie | Choker Atelier Chilaze (Foto: Jorge Bispo)

Mas o caminho da mineira de Contagem tende a ser estelar. Para o futuro, além de não parar nunca, Erika Januza contou que sonha com algumas oportunidades na carreira. “Eu tenho vontade de ser Elza Soares, Xica da Silva e alguns outros personagens. Nunca tenho um sonho só. Sou muitas”, contou a atriz. Sucesso, Erika!

Equipe

Fotos: Jorge Bispo

Beleza: Everson Rocha

Styling: Ale Duprat

Agradecimentos

Jorge Bispo

Muniky Sena

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