Stênio Garcia sobre afastamento das novelas: “Parece que pessoas da minha idade não cabem nesse mundo veloz”


A trajetória da teledramaturgia brasileira tem deixado de lado alguns de seus pilares mais sólidos. A ausência de veteranos nas novelas escancara uma lacuna preocupante, em que o talento e a história acumulada parecem não garantir mais espaço nas tramas. Apesar de seguir ativo, estudando e atuando, Stênio Garcia, um dos maiores nomes da atuação nacional não é escalado para uma novela completa há mais de uma década. Ainda que convites para teatro e cinema surjam, a televisão parece caminhar em outra direção — mais veloz, mais jovem e menos receptiva à maturidade. “Eu não assisto [televisão], mas acho que os novos autores estão acompanhando a internet, e parece que pessoas da minha idade não cabem mais”

*por Vítor Antunes

Impossível falar na história da televisão brasileira sem citar o nome de Stênio Garcia. Ícone absoluto das artes cênicas, ele segue como uma figura magistral no teatro, no cinema e, sobretudo, na teledramaturgia nacional. Com mais de duzentos personagens em sua trajetória, o ator marcou presença em obras imorredouras, como “O Clone” e “Que Rei Sou Eu?”, consolidando um legado de intensidade, versatilidade e comprometimento com a profissão. Sua vida e obra já foram tema de mais de uma publicação.

“Eu tenho três biografias escritas por pessoas incríveis”, comenta o ator, com a serenidade de quem já atravessou diversas fases da indústria e da própria vida. Mesmo aos 93 anos, Stênio Garcia não se permite a imobilidade criativa: “Fiz um filme em 2022, Me Tira da Mira. Não estou parado. Faço comerciais e estudo muito”. No entanto, sua última novela completa foi em 2012, “Salve Jorge”. Seis anos depois, em 2018, fez uma breve participação em “Deus Salve o Rei”. Recentemente, pôde ser visto na reprise de “Corpo a Corpo“, no Viva.

Flávio Galvão e Stênio Garcia em “Corpo a Corpo” (Foto: Nelson di Rago/TV Globo)

Ainda hoje, ele recebe convites frequentes para voltar aos palcos. Mas pondera, com sabedoria e autoconsciência, suas escolhas. Sobre uma possível volta às novelas, é direto: “Vai depender de qual personagem irão me oferecer. Não aguento mais um Tio Ali [de O Clone], que gravava todos os dias — eram 70 páginas por semana. Enfim, se for um personagem que me instigue e com um ritmo de gravação menos intenso, posso ir sim. Sigo sendo muito chamado para teatro — já foram mais de cinco peças. Porém, nenhuma me estimulou. Mas há duas em andamento que, se a produção realmente começar, irei conversar e ver as possibilidades. Mas, com 93 anos, o ritmo de ensaio tem que ser ajustado para mim”.

Muitos dos meus amigos atores contemporâneos já faleceram, infelizmente. É claro que, para nós que estamos vivos, sofremos o etarismo, porque o mundo mudou. As coisas são imediatistas, os jovens querem a velocidade da internet. Eu não assisto [televisão], mas acho que os novos autores estão acompanhando a internet, e parece que pessoas da minha idade não cabem nesse mundo veloz. Acredito que possa ser isso – Stênio Garcia

Ao refletir sobre sua relação com a televisão, revela que, ironicamente, sempre foi um fazedor mais do que um espectador. “Na verdade, eu fiz muita televisão e, com isso, nunca consegui parar para assistir. Ou você faz, ou assiste. Quando estava em casa, estava estudando, decorando e relaxando. Hoje, só vejo séries, filmes e esportes. Muitos dizem que está diferente, mas o mundo está completamente diferente com o advento da internet”.

Stenio Garcia tem 93 anos e está desde 20123 sem fazer uma novela completa (Foto: Arquivo Site HT)

Com um repertório que atravessa gerações, ele reluta em escolher um papel favorito: “Ahhh, são mais de 200 personagens entre teatro, cinema e TV. Na TV: o Aleijadinho [Caso Especial, 1977], Corcoran [“Que Rei Sou Eu“, 1989], Zé do Araguaia [“Rei do Gado“, 1996], Tio Ali [“O Clone, 2001], Bino [“Carga Pesada“, 1979-1981 e 2003-2007] e Asmodeu [Hoje é Dia de Maria, 2005]. Difícil escolher um!”. A mesma dificuldade parece existir no reconhecimento institucional a esses colossos da dramaturgia. Atores veteranos — especialmente os com mais de 65 anos — têm sido cada vez mais raros nas novelas, um fenômeno que levanta questionamentos sobre visibilidade, etarismo e memória cultural.

A presença de personagens maduros na televisão tem sido a exceção, não a regra. Em “Vale Tudo”, Odete Roitman, vivida por Débora Bloch, é um exemplo isolado — e vale lembrar que a atriz tem menos de 65 anos. Na atual novela das seis, a vilã é interpretada por Lília Cabral, aos 67. Na faixa das sete, recentemente, Betty Faria e José de Abreu foram dos poucos artistas com mais de 80 anos a aparecerem com destaque. Já em Dona de Mim, novela contemporânea da mesma faixa, a presença veterana ficou por conta de Suely Franco.

Stênio Garcia e Marilene Saade estiveram na festa que celebrou os 60 anos da Globo (Foto: Divulgação/Globo)

Cada vez mais, grandes atores e atrizes com história e talento acumulado estão fora das tramas. E cada vez menos o público — que também envelhece — se reconhece nas telas. Seria uma mudança de paradigmas, um reflexo do corte de gastos ou uma escolha editorial? Não há uma resposta única. Mas é certo que a ausência desses artistas não se dá por falta de capacidade, e sim de espaço.

Stênio, que saiu de Mimoso do Sul, no interior do Espírito Santo, para conquistar os palcos e os estúdios das grandes capitais, não se esquece de suas origens: “Saí de Mimoso e vim para o Rio com 12 anos com minha mãe. Lá está a minha raiz. Mesmo não tendo mais ninguém lá, foi lá que nasci e vivi até os 12 anos. Visitava muito, mas, infelizmente, todos se foram, e as primas vivas moram aqui. Hoje sinto apenas saudades”.

O tempo passado evoca saudades, mas também sabedoria. Stênio Garcia permanece presente, ativo, lúcido — no trânsito respeitoso entre memória e ação. Ele sabe seu valor, reconhece a transformação dos tempos, mas recusa-se a se render à mediocridade. Sua jornada continua como testemunho vivo de uma arte que, apesar de tantas mudanças, ainda precisa reverenciar quem a construiu.