Silvia Pfeifer celebra personagem em ‘Dona de Mim’ e revela: “Fiquei 10 anos fora da Globo e 3 sem atuar na profissão”


Após 10 anos afastada das novelas globais, a atriz retorna destacando-se em um papel de relevância e densidade emocional. Envolvida também com o teatro e o cinema, ela valoriza temas ligados à maturidade e às relações afetivas após os 60 anos. A trajetória profissional de Sílvia Pfeifer é entrelaçada a um processo pessoal de redescoberta após o divórcio de um longo casamento. Sem idealizações, fala da importância de relações verdadeiras e do respeito mútuo e segue motivada pelo desejo de ser desafiada

*por Vítor Antunes

Ainda que esteja diariamente na abertura da reprise de “Plumas e Paetês”, no Globoplay Novelas, ex-canal Viva, o público aguardava por um retorno mais expressivo — e por que não dizer triunfante — de Sílvia Pfeifer às novelas. Esse retorno, enfim, aconteceu. A atriz está de volta em “Dona de Mim”, trama de Rosane Svartman que não apenas lidera a audiência em sua faixa como vem superando o desempenho de “Vale Tudo”, no horário nobre. Sílvia antecipa o que o público pode esperar de Rebeca, sua personagem na história. “Estou muito feliz com esse convite. Antes mesmo de ser chamada, já tinha comentado que era uma novela legal, cuidada, muito bonita, com uma escrita boa e um elenco coeso. A direção de arte é bonita, assim como a fotografia, e a história acontece em poucas cenas. É um novelão! Minha personagem é a Rebeca e entro junto da minha mãe, vivida pela Rosamaria Murtinho. Ambas visitam Rosa (Suely Franco), mãe de Abel (Tony Ramos). Ela é chamada para planejar como ficará a situação das empresas quando Rosa não estiver mais apta, já que ela aponta estar com Alzheimer. Rebeca e Abel tiveram um romance no passado. A personagem é interessante, importante, não é apenas uma aparição. Deve ficar por cerca de 30 e poucos capítulos”, conta.

Voltar às novelas dá, realmente, um frio na barriga. Fiquei três anos sem gravar. Dez anos fora da Globo – Sílvia Pfeifer

Sílvia Pfeifer volta às novelas da Globo depois de 10 anos (Foto: Divulgação)

Para este ano, Sílvia Pfeifer está envolvida em múltiplos projetos que reafirmam sua versatilidade e interesse por temas sensíveis à sua geração. Está desenvolvendo um projeto ao lado de Caetano O’Maillen e Rafael Primot, e, paralelamente, trabalhos com Helena Fernandes e Adriana Garambone. Além disso, está em pré-produção de um longa-metragem ao lado de Mayara Magrijá mencionado anteriormente — e se prepara para uma montagem teatral com o ator Leonardo Franco. A maturidade afetiva é o eixo temático que une essas duas últimas produções. “[Na montagem teatral] Há uma ideia nossa mesmo, minha e de Leo, de uma história que aborda uma relação afetiva entre duas pessoas com 60 anos. E tanto a peça como o filme da Mayara Magri abordam esse assunto. Acho que ainda existe dificuldade em lidar com esse tema. Não é à toa que estamos falando tanto de etarismo. Muita gente está sem trabalho. Eu fiquei três anos sem trabalhar. É visível como os homens trabalham mais do que as mulheres nessa faixa etária minha”.

Enquanto Rebeca está em cena em Dona de Mim, Sílvia pode ser vista diariamente na abertura da reprise de “Plumas e Paetês”, exibida pelo Globoplay Novelas. Na vinheta original da novela, exibida em 1980, ela aparece como uma das modelos da sequência de abertura. A atriz relembra o contexto da gravação com afeto e exatidão. “Eu me tornei modelo na virada de 1978 para o ano de 1979. Eu estava no início da minha carreira de modelo, vivia em São Paulo, no Rio, viajando, fazendo desfiles em outros estados. Em 1981, eu comecei a ir para a Europa e me tornei modelo internacional. A abertura da novela foi feita no apartamento que era o estúdio do Paulo Sabugosa. Foi muito divertido e a gente adorou ver o resultado na abertura da novela”.

Silvia Pfeifer na abertura de “Plumas e Paetês” (Foto: Reprodução/TV Globo)

Sílvia recorda que a carreira de atriz surgiu de maneira inesperada, a partir de um convite que, curiosamente, não chegou a se concretizar. “Virei atriz por acaso, quando veio o convite para eu participar de um teste para um longa-metragem… que eu não fiz. Fui indicada pela Bia Lessa ao Daniel Filho e dali cheguei ao Roberto Talma e à série Boca do Lixo. A minha primeira novela, que foi Meu Bem, Meu Mal, coincidentemente, também era do Cassiano Gabus Mendes (1929–1993), tal como Plumas e Paetês“.

Sílvia Pfeifer e Olivier Anquier na campanha da Maurice Marcel (Foto: Reprodução)

RECOMEÇOS 

O que permanece após o fim de um casamento que atravessou quatro décadas? Quais perguntas emergem desse rompimento e que tipo de reinvenção ele impõe? Separada há cinco anos, após uma união de 44, Sílvia passou a revisitar os próprios afetos. “Tive um casamento muito longo. Comecei a namorar meu ex-marido aos 18 anos e me separei aos 62. Dois meses depois veio a pandemia, então fiquei num vácuo por quase um ano, sem me relacionar, sem vivenciar de fato o que era estar solteira. Não sabia o que era isso, porque sempre estive em uma relação.” A maturidade, para ela, tornou os vínculos mais conscientes: “Não existe relação perfeita, mas nos tornamos mais seletivos, mais maduros para entender o outro e o que é uma relação. E isso, eu acho muito lindo. Acho que o que vale mesmo, além do legado profissional, é o legado pessoal — os afetos, o que fizemos da nossa vida.”

A vivência da solidão tornou-se também aprendizado. “Sempre é tempo de se descobrir, de viver uma nova relação. Aprendi muito a viver sozinha, lido bem com a minha solitude. A vida é mais interessante quando compartilhada, mas tem que valer a pena. Não é para ter qualquer pessoa — é para ter alguém que realmente acrescente, que faça sentido.” O tempo da maturidade exige clareza: “Se as escolhas que estamos fazendo são mesmo as que queremos. E é nisso que tenho trabalhado. O quanto eu quero, o quanto estou aberta, como me coloco. Se estou criando muita ou pouca expectativa, se estou apta e disponível para viver isso.”

Falar de afetos na maturidade envolve também lidar com o que não se diz. “Acho importante falar sobre os medos, sobre o receio de se expor. A expectativa da vida e das relações muda com a idade. O sexo é diferente, o dia a dia é diferente. A gente se torna mais seletivo, sabe melhor o que quer e o que não quer.” O que a move agora é a busca por relevância, por sentidos maiores na arte e na vida: “Hoje, na idade que estou, quero abordar temas importantes — para a vida, para a humanidade — e me desafiar como atriz. Quero fazer algo que ainda não fiz, ser dirigida por alguém que me tire do lugar comum. Quero ser desafiada, viver algo novo.”

Eu não estou esperando o príncipe encantado, eu estou  me sentindo viva para experienciar o que a vida me der – Sílvia Pfeifer

Sílvia Pfeifer. Seu último trabalho em TV foi “Reis”, na Record TV (Foto: Divulgação)

PERIGOSAS?

Em 1992, Sílvia Pfeifer e Vera Fischer protagonizaram uma novela que só anos depois passou a ser vista com mais generosidade no que diz respeito à representação da mulher. As personagens viviam realidades distintas — uma dona de casa e a outra uma jornalista bem-sucedida —, ambas marcadas pela frustração. Em determinado ponto da trama, trocam de papel, impulsionadas pela perda de um bebê natimorto, e seguem igualmente frustradas. Era, e continua sendo, um excelente ponto de partida para debater a condição feminina sob o olhar dos anos 1990.

A atriz, então, aponta: “Sinceramente, o Carlos Lombardi faz falta. Ele tem um texto ágil, inteligente, divertido — e não é fácil de fazer. Para nós, atores, captar a alma do Lombardi exige sair do comum da interpretação. É preciso brincar com o texto, quase jogá-lo fora, mas ao mesmo tempo entender o tempo e o que ele quer dizer. E ‘Perigosas Peruas‘ é muito inteligente, muito atual. Na época, talvez eu não tenha percebido a importância que tinha. Hoje, com a idade que tenho, vejo como ele era sensível para tratar da dificuldade que a mulher tem de batalhar por seu espaço e de se entender nesse universo patriarcal. As duas personagens são questionadas em todos os aspectos. Elas se confrontam por causa de uma paixão pelo mesmo homem. Uma engravida, perde o filho. A outra tem o filho roubado. Para suportar essa dor — a perda da amiga, do filho, do homem que ela achava que era da vida dela — ela larga tudo. Sai do país, vai batalhar fora, vence. Ela bloqueia aquela mulher que era antes, tenta viver outra coisa — até de forma infantil, em certos momentos”.

Ela prossegue: “Falando com o Sebastião [Maciel, roteirista], ele disse que Leda, minha personagem, realmente não conseguia agir de outra forma. Ela ficou parada naquela idade por causa da frustração afetiva, amorosa. Graças a Deus, as coisas evoluíram. E é lindo olhar para a forma como Lombardi escreveu, mostrando como as mulheres têm chance de se mostrarem capazes, mais maduras. Na minha opinião, os homens não acompanharam de forma alguma a evolução das mulheres”.

Sílvia Pfeifer: “As mulheres avançaram e os homens não” (Foto: Divulgação)

Para Sílvia, mesmo com o passar dos anos, as mulheres avançaram — os homens, não. E por uma razão simples: eles não problematizam, nem discutem seus afetos. “Os homens ainda estão rateando nas relações. São imaturos em alguns posicionamentos, não conseguem ver a mulher como equivalente. A mulher não está disputando espaço com o homem, ela está se equivalendo a ele. O feminismo, para mim, não é sobre me igualar a um homem — eu sou diferente. Quero me equivaler, respeitando as virtudes e capacidades masculinas, mas também quero que a minha capacidade feminina, meus valores e meu comportamento sejam vistos e respeitados. E é isso que muitos homens ainda não conseguem enxergar. Por isso há tantos conflitos. A mulher hoje consegue ver quando o homem não amadureceu. Não dá para viver um relacionamento como há 20 ou 30 anos. E é aí que o conflito aparece. Cabe também a nós continuarmos amadurecendo. As mulheres estão falando mais sobre a menopausa, suas dificuldades, tudo o que fazem. Os homens também precisam começar a falar dos seus medos, das suas dores. Isso abriria espaço, traria mais compreensão. A mulher se arma, por medo — medo de não ser aceita, de não caber. O homem não tem esse medo, porque sempre teve seu lugar garantido. Mas já estamos vendo tudo isso de forma diferente. Já nos colocamos. Agora, é hora de relaxar mais e nos unir mais”.

Às vezes me pego tendo pensamentos machistas, porque fui criada numa realidade machista. Acho que as mulheres precisam se admirar mais, dar mais força umas às outras, estarem mais juntas. Homem normalmente não fala de outro homem, mas muitas vezes vemos mulheres falando de outras mulheres. Por quê? Porque aprendemos a ver a outra como adversária. Mas não é isso. Temos que andar juntas – Sílvia Pfeifer

Sílvia Pfeifer em “Perigosas Peruas” (foto: Divulgação/Globo)

Sílvia Pfeifer retorna não como quem recomeça, mas como quem prossegue — com o corpo inteiro dentro do tempo. Atriz, mulher e intérprete de sua própria trajetória, ela atravessa o presente com olhos abertos para o que ainda pulsa: a arte, os afetos, as perguntas que não cessam. Não há saudade paralisante nem afã de provar nada. Há presença. O que a move não é a busca por um papel de destaque, mas o desejo de escavar sentidos, provocar encontros e sustentar silêncios. Sua maturidade não pede licença: ocupa, questiona, transforma. E é nesse movimento sereno e insubmisso que ela continua — entre luzes de estúdio, páginas de roteiro e a disposição rara de ainda querer o novo.