Mayara Magri estreia como diretora, fala de saudosismo na TV e retorno de “Delegacia de Mulheres” no Globoplay


Casada com o autor de novelas Lauro César Muniz, a atriz esteve em um projeto arrojado da Globo: ‘Delegacia de Mulheres’, que volta no Globoplay 35 anos depois de sua exibição na TV aberta. “Eu acho muito triste os dados que temos sobre isso hoje. Delegacia era um programa que ajudava a formar a consciência das mulheres e, em seu rastro, surgiram muitas delegacias especializadas. Se hoje elas têm medo, na época isso era muito pior”. Mayara quer ser diretora de cinema e já montou seu primeiro curta, ‘Ana Sofia’. Sobre as novelas atuais, a atriz afirma que o público consumidor de novelas é, essencialmente, maduro e que gosta de se ver representado: “Não cabe interpretar só casais de 20 anos nas tramas. Quem não assistiu hoje novela, vai assistir as antigas, porque vai gostar”

*por Vítor Antunes

O rosto de menina permanece, aliado à brejeira simpatia interiorana. Mayara Magri, quando surgiu na TV, integrou o elenco de “Os Adolescentes” (1981), da Band. Hoje, lastima que a TV não enxergue com benevolência para a maturidade. São poucos os artistas 60+, como ela, a ganharem papéis de destaque na televisão. Para a atriz, o público consumidor de novelas é, essencialmente, maduro e que gosta de se ver representado – e isso explicaria a razão de tantos remakes e reprises. “O Brasil sempre amou novela. Todos acompanhavam sob alguma forma, sabiam do que estava acontecendo. De repente, as coisas mudaram demais. E dá saudade, de você ver uma novela bacana que você amou ou rever a Betty Faria fazendo “Tieta”, ou a própria atriz, que, numa reprise recente de “O Salvador da Pátria, tinha nos jovens os seus maiores admiradores, quando fazia casal com José Wilker (1944-2014). O amor existe em todas as idades. Não cabe interpretar só casais de 20 anos nas tramas. Quem não assistiu hoje novela, vai assistir as antigas, porque vai gostar. Claro que nem todas eram incríveis, algumas acertavam mais que as outras. Mas tinha uma pureza, um encantamento”.

Mayara, assim como Lúcia Veríssimo e Eloísa Mafalda (1924-2018), esteve em um projeto arrojado da Globo: Delegacia de Mulheres, que volta no Globoplay 35 anos depois de sua exibição na TV aberta. Como o próprio nome sugere, traduzia a rotina de uma delegacia conduzida por policiais femininas. Há um debate mais aprofundado sobre a questão feminina ou isso ainda está na superficialidade, sendo algo ocasional? Como a atriz analisa as pautas femininas e feministas? “Há um debate, mas ele não avança, porque o feminicídio aumenta barbaramente no Brasil. E lá na Delegacia, a gente começou a cuidar de mulheres que passavam por isso. Creio que esse é um tema daquela época que nunca deveria ter sido deixado de lado. Se naquela época tivéssemos conseguido educar mais, se tivéssemos feito mais capítulos, poderia ter havido mais engajamento, já que o programa durou pouco. Eu acho muito triste os dados que temos sobre isso hoje. Delegacia era um programa que ajudava a formar a consciência das mulheres e, em seu rastro, surgiram muitas delegacias especializadas. Se hoje elas têm medo, na época isso era muito pior.”

Em “Delegacia de Mulheres”, Mayara viveu Belinha (Foto: Reprodução/Canal Viva)

Um dos elementos que poderiam ser problematizados hoje é que, na equipe, havia poucas mulheres na parte técnica, o que refletia o momento. Denise Saraceni dirigiu um episódio; Maria Carmem Barbosa, outros poucos. A série tinha uma estrutura conceitual muito masculina: Miguel Falabella, Marcos Paulo (1951-2012) e Wolf Maya.

A televisão tem essa capacidade de transformar, de alertar, de dar coragem. Imagina só se fizessem um Delegacia de Mulheres hoje… Seria muito mais forte. Hoje, haveria histórias novas todos os dias. E de uma forma bem mais pesada. Atualmente a mulher denuncia, a Justiça coloca medidas protetivas, mas ainda assim, o agressor não respeita. Ele vai e mata. Ele invade o trabalho dela e mata, ele entra na casa dela e mata – Mayara Magri

A última novela de Mayara Magri foi “A Escrava Isaura“, de 2004, da Record. Na Globo, foi “Salomé”, de 1991, protagonizada por Petrônio Gontijo. Sobre uma volta às novelas, ela enxerga com esperança: “Muitas pessoas estão voltando para a Globo, especialmente aquelas que são da mesma época que eu. Há de se fazer os cadastros, ou ainda haver as indicações… Tudo mudou e eu estou em São Paulo [onde não há uma grande produção de teledramaturgia]”.

Mayara Magri em “Salomé” (Foto: Reprodução/Globo)

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Um trabalho importante da carreira de Mayara completa, neste ano, quatro décadas. Trata-se de “A Gata Comeu“, sucesso dos anos 80, que tem uma legião de fãs até hoje. “Eu nunca pensei que a novela fosse fazer tanto sucesso, muito menos a Babi. O cabelinho dela com o rabinho atrás virou um hit. Eu não gostei, fiquei arrasada, mas muita gente teve aquele corte. De repente, as coisas foram acontecendo, as personagens, o sucesso. A novela tem muita ingenuidade. O público sente falta disso, de verdade”.

Não quero ser babaca, mas eu não quero ver só personagens maus fazendo maldade o tempo todo. Eu não gosto. Eu não não acho que isso seja legal para ninguém. Acho que tem que ter poesia também – Mayara Magri

Jayme Periard e Mayara Magri em “A Gata Comeu”. Trama é um clássico da teledramaturgia brasileira (Foto: Nelson di Rago/TV Globo)

NOVA FACETA

Apesar de estar numa fase mais tranquila da vida, casada com o autor de novelas Lauro César Muniz — “Eu e Lauro somos muito companheiros e adoramos assistir filmes, a gente, sabe? Eu também acho uma fase da minha vida de dedicação ao meu casamento, que eu gosto muito” —, Mayara está investindo mais firmemente numa nova vertente de seu trabalho. Ela quer ser diretora de cinema e já montou seu primeiro curta, Ana Sofia, estrelado por Laryssa Ayres e Sílvia Pfeifer. “Esse filme era, inicialmente, uma peça que escrevi nos anos 1990 sobre duas bailarinas, uma de 60 e tantos anos e uma de 20 e poucos anos. Um amigo meu, Beto Bessant, adaptou e inscreveu na Lei Paulo Gustavo, em Santo André, e foi contemplado. Fizemos o projeto todo em cima da Pina Bausch (1940-2009) e a história do curta é toda baseada na relação entre as duas bailarinas. O filme foi gravado em setembro, está em montagem e, neste primeiro semestre, faz o circuito dos festivais”.

A experiência anterior de Mayara era com novela. Ela havia colaborado na direção de Cristal, do SBT, por alguns capítulos, quando ela e Herval Rossano (1935-2007) deixaram a trama. A atriz não pensa em trabalhar como diretora teatral, apesar de querer investir na direção audiovisual. “Assim como no cinema, eu aprendi que, quando você olha para um lugar onde estão os atores, você tem que ver um todo. Isso eu tive muito no filme. Enquanto o Beto estava preocupado com as lentes, essas coisas junto com o diretor de arte, de fotografia, eu estava olhando como se meus olhos fossem a câmera, olhando tudo. No momento, estou fascinada com este filme e não penso em outro, mas dirigir é algo que amo”.

Mayara Magri e Evill Rebouças, roteiristas de “Ana Sofia” (Foto: Reprodução)

Mayara Magri segue trilhando seu caminho com a mesma essência que encantou o público desde o início de sua trajetória. Há em seu olhar um reflexo do tempo, não como peso, mas como vivências. Se a televisão ainda hesita em abraçar a maturidade como ela merece, Mayara se reinventa no cinema, onde o tempo é cúmplice da sensibilidade. Inspira não só pela presença em cena, mas pela autenticidade que carrega consigo, como quem dança na delicada linha entre o ontem e o amanhã. E talvez hoje, mais do que nunca, as palavras de seu pai ressoem como profecia: “Eu não gostava do meu nome. Eu queria chamar Andreia, Paula… Meu pai falava: ‘Um dia você vai gostar muito do seu nome’. E ele estava certo”