Rodrigo Sant’Anna volta aos palcos e rebate críticos que apontam seu trabalho: “Minha história foi construída no morro”


Ele é um ator e humorista cuja arte dialoga diretamente com o povo, sem buscar aprovação da crítica elitista. Rodrigo defende que sua forma de expressão é apenas um reflexo de sua realidade. Em cartaz com a peça “Atazanado” e segue envolvido em projetos, como “Tô de Graça”, no Multishow, e o quadro “Bombástico”, no BBB, ele também reflete sobre o sonho da paternidade e a naturalização da diversidade. Para Rodrigo, a maior recompensa é a conexão genuína com o público. Apesar das críticas sobre reforçar estereótipos, ele afirma: “Muitos dos críticos nunca viveram em um subúrbio, nunca estiveram em uma comunidade e, ainda assim, sentem-se à vontade para falar sobre essa realidade. Eles não pularam o esgoto que eu pulava ao acordar para ir à escola”

*Por Vítor Antunes

Ele faz sucesso há muitos anos. É popular há muitos anos. E, na mesma proporção da aclamação popular, é criticado, muitas vezes apontado pela intelligentsia, que vê em sua arte algo menor ou menos relevante — puro sinônimo de preconceito. Rodrigo Sant’Anna, com humildade e sinceridade, sinaliza que sua arte não é para eles. Sua criação é pautada em referências que essas pessoas desconhecem. E é exatamente isso que gera o afeto do público. O povo e a crítica têm signos diferentes, e o de Rodrigo dialoga com o da “galera”, não com o do “camarote”. “O pobre, o suburbano e o favelado merecem contar as suas histórias. A minha história não é a do barquinho andando no Leblon. Interpreto o que vivo e o que vivi. As pessoas que conheço são assim: falam alto, são expansivas. Se isso incomoda, se desagrada aos críticos, eu só posso, sinceramente, pedir desculpas”.

Muitos dos críticos nunca viveram em um subúrbio, nunca estiveram em uma comunidade e, ainda assim, sentem-se à vontade para falar sobre essa realidade. Eles não pularam o esgoto que eu pulava ao acordar para ir à escola. Não viram o defunto que eu vi ao descer o morro. Eu, sim. Vivi 20 anos no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, no Rio”. O meu ‘o barquinho-vai’ era o trem chegando na estação. A minha vida inteira, enquanto eu subia o morro, jamais imaginei que fosse, um dia, agradecer por cada degrau daquele. Mas, em cada um deles, via todos os personagens que interpreto, ainda que não mensurasse isso naquele momento – Rodrigo Sant’Anna

Rodrigo volta com a montagem de sua peça “Atazanado”, que fez turnê no ano passado e agora retorna para uma temporada no Teatro Fashion Mall, no Rio, até 30 de março, antes de retomar a turnê nacional. “Inicialmente, a peça era para ser uma brincadeira com personagens, algo que eu adoro, especialmente por ficar observando esse cotidiano maluco que a gente vive. Mas queria trazer novas leituras através desses personagens. Tanto que acabei trazendo meu pai e minha mãe para a montagem”, revela. Paralelamente à peça, ele também está gravando o BBB e o programa Tô de Graça, que estreia em abril, no Multishow. “Estou trabalhando todos os dias, sem folga”.

Na peça, na cena em que os pais de Rodrigo aparecem, o ator interpreta um c*, enquanto eles representam cada lado da nádega. “Minha família está sempre envolvida no processo dos meus espetáculos. E, desta vez, em cena. Cada um faz um lado da bunda e eu estou no meio, interpretando exatamente isso. Então, é um clima descontraído, uma brincadeira em família, de fato”.

Rodrigo Santana faz personagem excêntrico, ao lado de seus pais (Foto: Luiza Rodrigues)

A BOSSA DA FAVELA

Por diversas vezes, a favela foi interpretada por quem via na pobreza uma poesia – não que ela não exista –, mas a visão partia de quem nunca morou nela. Assim, surgiram imagens como os “barracões de zinco sem telhado nem pintura”, o “barracão pobretão infeliz” ou o lugar “onde a cabrocha pendura a saia” – como nas músicas de Dalva de Oliveira (1917-1972), Elizeth Cardoso (1920-1990) e Tom Jobim (1927-1994), respectivamente. Rodrigo Sant’Anna não doura a pílula. Quando atua, fala da sua favela, da que conhece, da mesma forma que Manoel Carlos retrata o Leblon – o Leblon que ele conhece. “A história que eu tenho para contar é a história das minhas vivências. Eu falo dessas pessoas que conheci. Se alguém não se identifica, tudo bem. Mas esses são os personagens da minha família, tal como o Manoel Carlos fala da ‘Helena-do-Leblon’. Pode ser que alguém não se reconheça nela, e tudo bem também. A minha Maria da Graça, do ‘Tô de Graça’, é baseada na minha avó, que teve 20 filhos. Quando veio para cá, deixou alguns na Bahia e veio para o Rio. Então, existe essa mulher da qual estou falando. Claro que alguém pode não se sentir representado, mas esse é o recorte de uma figura que eu conheço”, frisa.

Honestamente, eu acho que as redes sociais viraram um lugar de muitos comentários, um boom de críticas e opiniões, onde todo mundo é opinativo – Rodrigo Sant’Anna

Rodrigo Sant'Anna: "Eu me vejo apenas fazendo o meu trabalho e contando a minha história" (foto: Divulgação)

Rodrigo Sant’Anna: “Eu me vejo apenas fazendo o meu trabalho e contando a minha história” (foto: Divulgação)

Ele prossegue: “Tudo o que está relacionado ao povo, às experiências populares, é sempre alvo de questionamento. Se alguém menciona algo sobre isso, não vejo problema em dizer que alguém fala alto. O problema é transformar em uma questão negativa. Ser assim é apenas uma característica. Minha família fala alto, é comunicativa, expansiva. E isso nunca foi um problema para mim. Em casa, ouvimos frases como ‘fale mais baixo’ ou ‘estou no telefone’, mas essa é simplesmente a nossa forma de ser. Nunca houve um olhar crítico ou negativo. Quando dizem que meu trabalho reforça estereótipos, na verdade, ele retrata pessoas que estão apenas vivendo. Minha família se expressa dessa maneira, e reproduzir esse comportamento não deveria ser visto como um problema. Afinal, por que falar alto é considerado uma questão? Não entendo esse preconceito contra quem fala alto. O verdadeiro preconceito está em afirmar que esse comportamento está errado. Se alguém considera isso um estereótipo, desculpe, mas estou apenas vivendo a minha realidade. Para mim, falar alto não é um erro. Expresso-me no volume que quiser. Se isso incomoda alguém, talvez a questão não esteja em mim, mas na percepção dessa pessoa”.

Não precisamos nos podar ou tentar reproduzir o comportamento de uma elite que dita que devemos falar baixo. Quem estabeleceu essa norma? Saímos de casa, enfrentamos um longo trajeto até a Zona Sul e, ainda assim, somos obrigados a nos comportar de determinada maneira. Quando alguém é mais expressivo, mais colorido, veste-se de forma alegre – algo que, para alguns, pode ser visto como exagero –, logo é rotulado como suburbano. Mas esse olhar sobre o suburbano vem da Zona Sul. É um olhar que tenta nos enquadrar em uma categoria específica. Moro na Zona Sul há 10, 15 anos, mas vivi 30 anos em outro contexto. Minha história foi construída no morro. Se eu tivesse crescido em um ambiente mais abastado, com uma realidade elitista, talvez minha forma de me expressar fosse completamente diferente. Mas foi justamente essa vivência que me trouxe até aqui – Rodrigo Sant’Anna

Rodrigo Sant’Anna é cria do Morro dos Macacos, em Vila Isabel (Foto: Divulgação)

BIG ATAZANAÇÃO

Com “Atazanado”, Rodrigo já está em cartaz há algum tempo. A peça está tão natural para ele que, durante as viagens, sua rotina de preparação se tornou mais fluida. “Eu já faço essa peça há algum tempo, já tenho o domínio dela. Geralmente, quando viajo, passamos o texto um pouquinho e ‘vambora'”.

Sobre o quadro do BBB, o Bombástico, ele diz que tem sido bem recebido pelo público, especialmente por estar sempre atualizado com os acontecimentos do programa: “Eu e o quadro de roteiristas do BBB estamos muito ligados, muito presentes, o que faz com que o humor seja muito vivo. O Big Brother é sempre um canhão de visibilidade, e o feedback tem sido muito positivo”.

Há alguns anos, Rodrigo interpretava personagens no Zorra cuja caracterização envolvia blackface, como Adelaide e Janete. Hoje, ele analisa sobre outro prisma: “Acho que temos que ter a percepção de que algumas coisas ficaram no passado, que não cabem mais, que não têm mais espaço. Estamos nos atualizando o tempo inteiro. O humor, assim como a nossa sociedade, está se aprimorando e percebendo certas questões”.

Rodrigo Sant’Anna em “Atazanado” (Foto: Luiza Rodrigues)

ATANZAÇÃO DA PATERNIDADE

Seria a paternidade uma atazanação? Não há como saber. Vinicius de Moraes (1913-1980) dizia que, para saber o que é ter filhos, é preciso tê-los. Rodrigo e o marido já declararam, em entrevista, o desejo de ter quatro filhos. O número, ele contemporiza. A vontade, não. “Ser pai é uma continuidade do que se é na vida, e eu nunca fiz essa separação. Serei um pai dentro da minha persona, da minha personalidade, dentro da minha figura de pai. Pretendo brincar com os meus filhos, dar atenção, me divertir, virar criança. Não sei se teria quatro filhos, mas sonho com aqueles que Deus quiser me dar. Sou muito religioso e venho de uma família muito religiosa: minha mãe é católica, minha madrinha é umbandista, minha avó é evangélica. Então, eu bebi de todas elas e, hoje, rezo para todos. Penso nessa quantidade e nessa criança… Mas então, você tem um projeto de paternidade para breve? Não sei, não sei ainda. Estou esperando o universo”, afirma.

Casado há pouco mais de um ano com Nelson, Rodrigo reflete sobre o debate da pauta LGBT. Para ele, apesar dos avanços, a orientação sexual ainda é um fator que limita e enquadra as pessoas. “Às vezes, acho que estamos em um caminho mais evoluído. Mas o fato de essa pergunta ainda surgir em diversas entrevistas mostra que a questão ainda não se naturalizou. Na verdade, minha identidade vai além disso. Rodrigo é gay, Rodrigo é favelado, Rodrigo é preto, Rodrigo veio do Morro dos Macacos, Rodrigo morou em Quintino, Rodrigo gosta de verde, Rodrigo tem uma avó que veio da Bahia. Há tantas outras camadas além disso. Infelizmente, essa ainda é uma pauta. Mas, sem dúvida, o fato de poder falar sobre isso em uma entrevista já mostra que avançamos um pouco. Espero que, em algum momento, essa não seja mais uma questão relevante”.

Tendo como ofício o humor, Rodrigo aponta o que o emociona: “Há muitas coisas que me emocionam. Até o próprio trabalho com a comédia me emociona. Acredito que, de certa forma, o comediante está sempre abrindo mão do prestígio, do reconhecimento nas e das capas de revistas para ocupar um espaço mais discreto, ser a contracapa. Para mim, a comédia é extremamente potente nesse lugar de emoção, nessa capacidade de me conectar com o meu povo. Quando estou na rua e alguém que vende refrigerantes na praia me diz: “Caramba, você é igualzinha à minha tia!”, isso me emociona. Porque, nesse momento, percebo que consegui transmitir algo real, algo familiar para essa pessoa. Essa conexão com o público é muito significativa para mim. No teatro, quando vejo um aplauso verdadeiramente sincero, sinto a emoção de um retorno imediato. O teatro é o único lugar que proporciona essa resposta tão viva. Além disso, há outras situações que me emocionam. Estar com meus pais e minha família reunida, por exemplo, tem um grande valor para mim. Momentos de oração também me tocam profundamente, pois me conectam com algo superior”.

Tenho consciência de que dificilmente receberei um prêmio pelo meu trabalho no humor. Poderia até me dedicar ao drama e entrar nessa disputa por reconhecimento, mas não tenho esse interesse – Rodrigo Sant’Anna

Rodrigo Sant’Anna: “Dificilmente receberei um prêmio como ator de comédia” (Foto: Luiza Rodrigues)

E ele conclui argumentando sobre sua própria profissão: “Acredito que ser ator é justamente isso: estar aberto a esse campo emotivo, sensível. E vejo essa conexão até mesmo nas redes sociais. Hoje, as redes se tornaram um território voltado à crítica, mas, no meu Instagram, por exemplo, recebo mensagens de pessoas contando suas histórias, dizendo que enfrentaram depressão e que o humor as ajudou a superar momentos difíceis. Quando percebo a força da arte agindo diretamente na vida dessas pessoas, sinto-me profundamente emocionado. No fim das contas, há muitas coisas que me emocionam, algumas até mais simples do que tudo isso”.

Rodrigo Sant’Anna sobe ao palco e leva consigo os degraus do morro, os ecos das vozes altas, os risos que preenchem os becos estreitos. Seu teatro não é metáfora distante, é carne e memória, é verdade sem retoques. Não há barquinhos deslizando sobre mares tranquilos — há o trem lotado, a correria, a sobrevivência transformada em cena. Cada gesto seu carrega uma ancestralidade que não precisa da chancela de quem nunca sentiu o cheiro do asfalto quente sob os pés descalços. Seu riso é escudo e espelho, um abraço no público que se vê ali, sem precisar pedir licença. Para quem o olha de fora, pode parecer exagero; para quem reconhece cada palavra, é apenas a verdade estampada no rosto, nos trejeitos, na maneira de falar. Suas personagens não são invenções: são retratos vivos das lutas que o ensinaram a nunca baixar a cabeça.

Ele não precisa da aprovação de quem nunca precisou pular um esgoto para ir à escola. Ele carrega no peito o orgulho de um povo que sempre existiu à margem das grandes narrativas, mas que agora tem um palco para chamar de seu. Seu humor não é concessão, é resistência. E, quando a cortina se fecha e os aplausos ecoam, ele sabe que não está sozinho: cada riso arrancado é um pedaço da sua própria história que encontrou morada em alguém.