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Rio Festival Gay de Cinema: surfistas escorregam na parafina, jogadores saem do armário e até Neymar apoia a diversidade!

O evento, em curso na cidade-maravilha até o dia 13, coincide com a Copa do Mundo, ainda um reduto da homofobia!

Publicado em 06/07/2014 | Por Alexandre Schnabl

Paralelo a todo o bochicho da Copa do Mundo, o Rio Festival Gay de Cinema segue seu curso desde a abertura, nesta última quinta-feira (3/7), quando exibiu na Caixa Cultural OUT in the line UP” (de Thomas Castets e Ian Thomson, 2014), o curioso documentário australiano que ronda o universo dos surfistas gays. O diretor geral e curador Alexander Mello, à frente da mostra desde sua primeira edição, é categórico em afirmar que considera importante uma realização desse porte simultânea ao evento esportivo no Brasil, já que a cidade não pode parar: “Não é fácil montar o festival, que agora está na sua quarta fornada e só agora conseguiu obter patrocínio em dinheiro através da Caixa Econômica. Dessa vez ele vai até o dia 13 de julho, coincidindo com o término da Copa. E atrasar a data em função do futebol significaria mexer no calendário de eventos de cinema, já que tradicionalmente o nosso ocorre nas duas primeiras semanas de julho e já existem outras empreitadas em curso logo depois. Entendemos que não faz sentido mudar uma rotina que dá certo há quatro anos por conta da confraternização esportiva, até porque existe um público que não quer se prender aos jogos”.

"OUT in the line UP": quem diria, o paraíso dos surfistas não é tão idílico assim. Pelo menos para os gays! (Foto: Divulgação)

“OUT in the line UP”: quem diria, o paraíso dos surfistas não é tão idílico assim. Pelo menos para os gays! (Foto: Divulgação)

O coordenador de produção Rafael Fernandes concorda com Alexander, mas vai além: “Acredito que o Festival, inclusive, pode fomentar o interesse desse público em trânsito pela cidade em decorrência da Copa. Por que não?” De fato, a Cidade-Maravilha tem se tornado nestas últimas semanas também uma urbe-babado, dada a quantidade de turistas gls que aproveitaram o evento esportivo para visitar o Rio. “Basta dar uma circulada por Copacabana e Ipanema para ver como a quantidade de indivíduos desse público cresceu, comparável talvez ao Reveillon ou ao Carnaval, duas iniciativas da cidade que são enorme chamariz para este tipo de turista”, revela. Para o produtor, essa diversidade é ótima e boa para o festival, que não acredita que fique eclipsado pelo agito da Fifa: “São públicos diferentes, com obviamente alguns pontos de interseção. Afinal, será que não existe jogador de futebol gay? Ou torcedor homossexual? Pretendemos captar tambpém o público que está na cidade neste momento, independente de sua orientação sexual”.

Aliás, perguntado sobre o que acha de o evento acontecer junto com a Copa, sendo esta uma celebração de um esporte tradicionalmente machista, Alexander vai fundo: “Alguns estigmas tendem a mudar, nem que seja aos poucos”, se refere ele em sintonia com o vídeo que foi exibido no início da abertura, com atletas de diversas áreas – inclusive Neymar – apoiando a diversidade sexual nos campos e quadras. “A opção sexual não interfere nas habilidades esportivas, concorda?”, ressalta o jogador.

Campanha #ProudToPlay

O curador ainda ressalta o fato de considerar a produção cinematográfica do tema relevante: “Temos vários filmes nesta edição que lidam com esporte e é importante citar que vamos exibir na mostra três longa-metragens nacionais recentes que lidam com questões gays: “Praia do Futuro”, “Hoje eu quero voltar sozinho” e “Tatuagem”. Logo, o assunto é importante e só o fato de termos 103 produções exibidas durante o evento já é um atestado de que este cinema não é mais de exceção”.

Mas, em época de esporte na ribalta, três produções na programação do festival ganham destaque justamente por conta disso e são mais do que bem-vindas em época de agenda esportiva no Brasil: a primeira é o longa islandês “Eleven Men Out”, ficção de 2005 do diretor Robert L Douglas que narra a trajetória de Thor, um jogador de futebol que se empolga com uma vitória do seu time e sai do armário. Hum, Thor? Quer dizer que o deus do trovão é bom de bola e nem precisa segurar a peteca na hora de empunhar seu martelo Mjolnir? Bom, brincadeiras à parte, é interessante ver que esse tipo de questão pode fazer sentido na cinematografia de diversas culturas e, pelo jeito, mais uma vez o país de Björk sai na frente, mostrando que os gêiseres de lá também servem para aquecer este tipo de discussão. O filme será exibido em três dias (9, 12 e 13 de julho), praticamente coincidindo com o término da Copa do Mundo e vale uma conferida em uma dessas três oportunidades.

"Eleven Men Out": o longa islandês conta a história de jogador de futebol que se empolga e sai do armário (Foto: Divulgação)

“Eleven Men Out”: o longa islandês conta a história de jogador de futebol que se empolga e sai do armário (Foto: Divulgação)

 

Trailer Oficial “Eleven Men Out” (Divulgação)

Mas este filme não é o único dentro da mostra “Longas Especial Esportes”, que ainda contempla a produção australiana Newcastle” (de Dan Castle, 2008), sobre três irmãos surfistas. É ótimo ver que o fetiche de garotões bronzeados empunhando seus pranchões em riste e vestindo long johns que valorizam os ombros, a cinturinha marombada e as curvas do ilíaco não sobrevive apenas nas produções x-rated da Bel Ami, não é mesmo? O filme parece uma espécie de “A Lagoa Azul” (The Blue Lagoon, de Randal Kleiser, 1980), ambientado no mundo do surfe, e até o lourinho protagonista lembra um pouco o bonitão Christopher Atkins, que contracenou no clássico oitentista com a it girl Brooke Shields e foi responsável pelas poluções noturnas de toda uma geração de gays há cerca de trinta anos.

"Newcastle": como na música, está na hora dessa juventude bronzeada mostrar seu valor. O longa traz questão típicas do universo gay para o mundo do surfe (Foto: Divulgação)

“Newcastle”: como na música, está na hora dessa juventude bronzeada mostrar seu valor. O longa traz questão típicas do universo gay para o mundo do surfe (Foto: Divulgação)

 

Trailer oficial “Newcastle” (Divulgação)

E, como nem só de cachinhos parafinados, manobras radicais e ondas espetaculares vivem os praticantes desse esporte (apesar da liberdade apregoada, o surfe parece ainda ser um reduto machista mesmo hoje em dia), o festival abriu com o documentário “OUT in the line UP”, com a presença de um dos diretor Thomas Castets, fundador da organização Gay Surfers, que procura dar apoio aos praticantes desse esporte que são homossexuais. No longa, o cineasta e seus amigos falam da solidão que é ser minoria sexual em um esporte que, por lidar com as agruras mar, peca pelo excesso de testosterona exacerbado pelo seu pior viés: “Ninguém fala do assunto, ninguém quer saber, e isso acontece em parte porque o esporte se disseminou entre grupos de rapazes que, para afirmar sua masculinidade e não serem identificados por quem está de fora como uma patota homoerótica, assumiram desde então a capa de machões, de forma que não haja a menor possibilidade de terem suas identidades sexuais confundidas”. Na visão do diretor, naturalmente existem adeptos do surfe homossexuais, como em qualquer tribo do planeta, mas foi preciso a ação do Gay Surfers para incentivar a saída do armário e revelar não apenas a eles, mas ao mundo, que isso é uma coisa natural e que não é preciso viver em solidão. A produção, embora esquemática e até um pouco piegas em alguns momentos, é curiosa e vale pelo registro. Confira a programação do festival no site www.riofgc.com

Trailer oficial “OUT In The Line Up”  (Divulgação)

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