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No Rio Festival Gay de Cinema, o documentário “São Paulo em Hi-Fi” mantém vivo o glamour do universo LGBT

Filme retrata a cena gay da capital paulista durante as décadas de 1960 a 1980, quando as drag queens assumiram seus tronos e a noite fervia com o brilho das plumas e paetês

Publicado em 11/07/2014 | Por Alexandre Schnabl

*Por João Ker

Marcando presença na capital fluminense, em paralelo a todo o furor da Copa do Mundo (que, por sinal, diminuiu bastante depois do último jogo do Brasil) o Rio Festival Gay de Cinema anda movimentando a cidade. Entre filmes, curtas, mostras de animação e documentários que levantam questões sobre a cultura queer, os destaques e temas parecem não ter fim, em uma programação que abrange mais de 100 títulos. Ainda assim, nesta quinta-feira (10/07) chamou atenção a estreia de “São Paulo em Hi-Fi”um doc com mais de duas horas que, apesar de tratar sobre a Pauliceia de outrora, reflete perfeitamente a inércia carioca de 2014.

Dirigido por Lufe Steffan, “São Paulo em Hi-Fi” apresenta o nascimento da cena gay na capital paulista no final da década de 1950 e início de 1960. Através de um incrível acervo audiovisual, fotográfico e depoimentos que se alternam o hilário, o emocional e o nostálgico, o filme consegue fazer um recorte que serve tanto como ótima fonte da memória brasileira como um entretenimento que marca um paralelo interessante com os dias atuais, especialmente no Rio de Janeiro.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Grandes personalidades do mundo gay aparecem durante o documentário para listar e esclarecer seus hot spots preferidos entre as décadas de 1960 e 1980 na grande São Paulo, começando pelo apertadinho Hi-Fi até o majestoso e bafônico Homo Sapiens (popularmente conhecido como HS) na Rua Marquês de Itu, famoso por ter encantado até Freddie Mercury. Pelas mesas, pistas e palcos de lugares como o Medieval, o Cowboy ou o infame Val Paraíso, gays, lésbicas e travestis se montavam até o último fio de cabelo com peles, perucas e acessórios para aproveitarem simultaneamente a noite underground proibida e a revolução sexual que estourou no período.

Depois da sua estreia em longas-metragens com “A Volta da Pauliceia Desvairada” (2012), que trata sobre a noite paulista nos dias atuais, Lufe acerta duplamente com este “Hi-Fi”. A partir dos relatos de figuras como as performáticas Kaká di Polly, Miss Biá e Gretta Starr, dos jornalistas Celso Curi, Leão Lobo e Mário Mendes e do ativista/historiador James Green“São Paulo em Hi-Fi” passa a ideia de um mundo gay que, ironicamente, é mais colorido e glamoroso do que o atual. Mas, mais do que isso, o diretor consegue fugir da armadilha fácil que seria tratar a questão gay na cidade de forma superficial e, assim, constrói de alguma maneira certa memória sobre outros assuntos inerentes à temática gay que são intrínsecos às discussões LGBT. O retrocesso da AIDS, o preconceito latente, exacerbado e escrachado nas ruas e nos lares, a perseguição policial, a falta de amparo constitucional, a prostituição, a importância inestimável do folhetim “O Lampião da Esquina” e até a dificuldade de se encontrar relacionamentos duradouros fazem suas aparições aqui e ali ao longo do filme, contextualizando um mundo desconhecido pela maioria dos jovens e adolescentes da novíssima geração.

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(Foto: Divulgação)

Ainda assim, “São Paulo em Hi-Fi” carrega um paradoxo escruciante dentro de si. Algo soa errado quando Kaká di Polly conta escandalosamente bem suas inúmeras histórias de palco e performances drag e, ao mesmo tempo, deixa claro que isso tudo acontecia às escuras, em locais que serviam como um santuário protetor contra a homofobia. Alguma coisa não parece certa quando se torna visível o tanto que gays e travestis eram abertos não só para si mesmos quanto para o mundo, em uma época onde o preconceito supostamente deveria ser pior do que hoje em dia.

Claro, houve mudanças positivas e inimagináveis nesses 30 anos: hoje, as Paradas Gays arrastam milhões pelas ruas das grandes metrópoles, há muito mais pessoas abertamente “fora do armário” (incluindo esportistas, músicos, atores e estrelas de todas as vertentes), o debate sobre direitos LGBT engrossou a voz e há até um certo tipo de liberdade para casais do mesmo sexo que se disponham a andar de mãos dadas pela rua, algo inimaginável para os anos 1980. Mesmo assim, era de se esperar que, após essas três décadas fatídicas, o progresso não tivesse andado com passos de formiga, como diria Lulu Santos.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Apenas essa semana, duas notícias relacionadas ao “mundo gay” (que, ressaltando, é o mesmo dos heterossexuais) criam um desconforto ao mesmo tempo que angustiam, revoltam e desprevinem homossexuais brasileiros. Primeiro, uma lésbica é fortemente agredida em Ipanema, em meio às comemorações da Copa, por estar acompanhada da namorada. Sim, em Ipanema, o mesmo bairro que é lar do maior reduto gay do Rio de Janeiro, a Rua Farme de Amoedo, na cidade que tanto gaba-se de ser um paraíso gay na América do Sul. Depois, um casal de homossexuais masculinos é retaliado em um supermercado de São Paulo depois de dar um selinho em público. Sim, um selinho foi categorizado pelo funcionário como algo “obsceno” e uma “baixaria” que não cabia naquele lugar.

Sim, os tempos mudaram, mas não necessariamente evoluíram. Ainda há muito o que melhorar tanto em questões sérias como no glamour noturno do universo gay, que parece ter se pedido em meio às injeções de testosterona, às idas à academia e a perda da autenticidade tão bem retratada no documentário. Fica aqui um pedido para que essa heteronormatividade seja mais do que varrida para debaixo do tapete, mas aspirada para um universo paralelo onde lâmpadas fluorescentes não sirvam como armas contra homossexuais, mas para iluminar alguma festa bombástica. E que isso não ocorra só com quem vê de fora, mas com as mesmas almas de cabeça fechada que cismam em transitar em cima do muro.

Trailer Oficial

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