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Resgatando o nacionalismo e o encantamento, “Velho Chico” chega com a missão de aproximar o sertão nordestino dos brasileiros

A trama de Edmara Barbosa e Bruno Luperi tem supervisão cuidadosa de Benedito Ruy Barbosa e direção de Luiz Fernando Carvalho, que defendeu: “Há uma espécie de repetição excessiva de dramaturgias vinculadas ao eixo Rio-São Paulo. O Brasil precisa ser incluído na teledramaturgia”

Publicado em 08/03/2016 | Por Karina Kuperman

A partir do dia 14 de março, as casas de todo o Brasil serão invadidas pela história de “Velho Chico”, que marca o retorno da temática rural ao horário nobre e aborda, além das questões territoriais e da natureza, o romance proibido entre jovens de famílias rivais, com o rio São Francisco como pano de fundo. A trama de Edmara Barbosa e Bruno Luperi, filha e neto de Benedito Ruy Barbosa – o supervisor do texto, chega como um respiro em meio a histórias de violência nas cidades grandes. “Eu não só acho, mas tenho certeza que o Brasil precisa ser mais incluído na dramaturgia de um modo geral. Ha uma espécie de repetição excessiva de dramaturgias vinculadas ao eixo Rio-São Paulo. Não é só o Nordeste que precisa ser mostrado, mas o Sul, Norte, Centro-Oeste. O Brasil precisa ser incluído na teledramaturgia, no cinema, nas artes plásticas. Pois é um território muito rico de talentos”, defendeu Luiz Fernando Carvalho, diretor da trama.

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Elenco e equipe de “Velho Chico” comemoram o resultado das primeiras cenas da trama (Foto: AgNews)

Benedito Ruy Barbosa tem a mesma opinião: “Tempos atrás eu via novela deitado no sofá e chegava a assistir três ou quatro seguidas. Hoje não consigo mais ver. Não estou fazendo crítica a ninguém, mas precisamos resgatar a emoção que a novela traz a cada um de nós. Essa emoção que faz querer ver o capitulo de amanhã. E quando terminar o último, não sair com cara de besta de quem ficou oito meses na frente da televisão para ver isso. Temos que ter respeito pelo público, alcançamos 80 milhões de pessoas que são mães, pais, avós, tios e filhos. Temos que respeitar essas pessoas. O Brasil tem uma língua só, português. O que muda é a melodia, a música”, disse o autor.

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Elenco aplaude as primeiras cenas da novela novela das 21h (Foto: AgNews)

A história que começa no final dos anos 60 aborda questões territoriais em meio a misturas de sentimentos, personalidades, romance e drama. “Levando em consideração tudo que me perguntaram, dos motivos de se fazer ‘Velho Chico’ nesse momento, queria contar uma história verdadeira que, de certa forma, é o que estamos procurando fazer: realidade através da TV. Há muitos anos eu ainda era jornalista e resolvi, de tanto ouvir falar, conhecer o rio São Francisco. Eu sempre fui muito curioso e quis conhecer mais do chão que pisava. Pois bem, conheci o São Francisco desde a Serra da Canastra até a foz, que chegava a 40 metros de altura. Hoje se passarmos por lá de tênis não molhamos nem a meia. Como pano de fundo de uma história de amor, nós mostramos um pouco da realidade brutal pelas mãos do Luiz Fernando (diretor), que sei que vai saber arrancar daquele chão a verdade que precisa ser mostrada a todos nós e eu me incluo nisso. É uma vergonha nacional que aceitamos por não conhecer direito”, disse Benedito Ruy Barbosa, durante a coletiva de imprensa nessa segunda-feira, 7, no Museu do Amanhã, zona portuária do Rio de Janeiro.

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Rodrigo Santoro e Benedito Ruy Barbosa confraternizam em festa da novela (Foto: AgNews)

Logo nas primeiras cenas do clipe já é possível ver que a trama resgata o nacionalismo, sentimento que faz parte da proposta principal dos autores e uma das grandes características das histórias de Benedito, que assinou sucessos como “Esperança”, “Terra Nostra”, “O Rei do Gado” e outras. “Em ‘O Rei do Gado’ tivemos o problema dos sem terra que foi abordado de forma nobre, honesta e sem radicalismo. Fui freguês da ‘Voz do Brasil’ porque metiam o pau em mim. Eu só dizia a verdade. Só merece a terra aquele que a usa para si e seus semelhantes. Deus, quando fez o mundo, não dividiu terra com ninguém, então ela é de quem a usa para produzir. Nós vamos ter, nessa novela, alguns momentos que os espectadores vão ficar revoltados, mas não é culpa da novela, mas da situação do país”, explicou Benedito, que lembrou, ainda, do desvio do dinheiro público destinado ao local.

“Os milhões de reais que foram gastos lá nesses terrenos são uma vergonha. A Edmara e o Bruno foram ver de perto o que está acontecendo e são tratores apodrecendo e obras paradas. Para vocês terem ideia, os canais precisam receber água para não ficarem secos e eles não existem mais. Estão perdidos, não podem mais ser usados, é necessário fazer tudo de novo, e, como sempre, quem paga é o povo”, protestou, aplaudido de pé.

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Carol Castro e Dira Paes fizeram questão de posar com Benedito Ruy Barbosa (Foto: AgNews)

Benedito fez questão de dizer que a trama “Velho Chico” não é um protesto. “A novela não está fazendo apologia de nada e contra ninguém, mas está fazendo uma coisa vital: mostrar o que acontece com o rio que deveria ser orgulho nacional e é uma vergonha desse país”, disse ele, que pretende, por meio dos capítulos, resgatar os locais que conheceu na juventude. “O São Francisco que conheci tinha uma pureza, algo encantador. Eu olhava e achava que era uma obra de Deus”, contou. A trama, aliás, abordará com força esse encanto: “A novela vem para recuperar o amor, que é a coisa mais linda que existe no mundo. Quando um homem ama uma mulher o coração dele fica na palma da mão. É bonito ver esse sentimento proliferar numa sociedade carente de afeto. O excesso de crime e de sacanagem são falta de amor. Essa novela tem a missão de trazer o bem-querer e o amor de volta pros brasileiros. São histórias que podem parecer ficção mas são verdadeiras. Os amores existem, existiram e existirão sempre”, destacou.

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O carinho entre Benedito Ruy Barbosa e a protagonista Camila Pitanga (Foto: AgNews)

Luiz Fernando endossou: “Cada cantinho de cada imagem traz um pouco do sonho humano, do espírito e da vontade dos envolvidos de contar uma história sobre sua própria terra, sobre o paós. Nenhum ficcionista na televisão brasileira abordou tão bem as histórias do povo brasileiro, de suas questões e emoções. Benedito é um autor que, quando escreve, você acredita. Isso é uma síntese da obra dele. Claro que ‘Velho Chico’ é uma saga que envolve muitas questões, circunstancias, duelos e ações, mas poderíamos resumir tudo isso em uma única palavra que permeia e formou a história desse grande dramaturgo: amor”, disse. Pois que venha!

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