*por Vítor Antunes (Colaboração Tião Uellington)
Uma novela marcada por uma audiência pífia — apesar de reunir um elenco digno de uma produção das nove —, discussões sobre seu encurtamento e a percepção generalizada de que era “excessivamente sofisticada”. Assim foi As Filhas da Mãe, ou, em seu título original, A Incrível Batalha das Filhas da Mãe no Jardim do Éden, exibida em 2001 e agora prestes a retornar, na íntegra, ao catálogo do Globoplay, no dia 27. O folhetim marcou a primeira novela de Thiago Lacerda após o sucesso de Terra Nostra e a estreia de Priscila Fantin fora do universo adolescente de Malhação. Mesmo com um time de peso — Fernanda Montenegro, Cláudia Raia, Tony Ramos, Regina Casé, Andréa Beltrão e tantos outros —, a trama não resistiu à frieza dos números. Terminou cerca de dois meses antes do previsto, “de forma atabalhoada e apressada”, segundo descreveu o jornal Tribuna da Imprensa, que foi ainda mais severo ao afirmar que a história “foi incompetente para agradar as classes D e E”.
“‘As Filhas da Mãe’ foi minha primeira novela, tão logo saí de “Malhação”. Dei vida à Joana, que era uma adolescente contra os padrões. Ela queria ser uma lutadora de tele-catch, disfarçada de “dominó negro”, justamente para não poderem mostrar que ela era uma menina. Foi uma personagem ousada, que se impõe nas suas vontades. Uma novela muito gostosa de fazer – Priscila Fantin
Em 2002, Silvio de Abreu, autor da novela, explicou em entrevista ao Jornal do Brasil: “Não é que o povo não gostou. Ele apenas não entendia nada.” A frase, que sintetiza a relação tensa entre o público e a obra, talvez explique parte do seu destino. As Filhas da Mãe foi exibida em meio a um contexto turbulento — coincidiu com o sequestro de Patrícia Abravanel e Silvio Santos, além do atentado em outubro de 2001 às Torres Gêmeas, em Nova York, fatos que alteraram profundamente o humor coletivo e a pauta midiática. A substituta, Desejos de Mulher, tampouco deu sorte: outra produção que, nas palavras da imprensa da época, “fracassou na audiência”.

“As filhas da Mãe” estará de volta no Globoplay (Foto: Divulgação/Globo)
CHANCHADA COM ALMODÓVAR
“Chanchada com Almodóvar.” Foi assim que Fernanda Montenegro definiu a novela — ironia refinada de quem acabara de vir de uma indicação ao Oscar. Na ficção, sua personagem ostentava oito estatuetas da Academia, enquanto na vida real a atriz fora indicada a uma, em 1999, por Central do Brasil. A gênese de As Filhas da Mãe foi, segundo Silvio de Abreu, inteiramente espontânea. Em entrevista à revista Isto É Gente, em 2001, o autor relatou: “O Jorge Fernando (1955–2019) queria fazer uma comédia. Primeiro escolhemos os atores, depois os personagens, e criamos uma história.”
Ainda segundo ele, a decisão de transformar Cláudia Raia em uma personagem trans partiu de uma motivação quase física: “Ela é grandona, tem um corpanzil, faz musculação”. A explicação revela um olhar típico da teledramaturgia dos anos 2000, em que o corpo do ator parecia bastar para justificar a existência de um papel. Na mesma entrevista, Silvio, conhecido por suas ambições narrativas e por sua autocrítica feroz, resumiu seu método: “Sempre penso em fazer uma novela que possa ser um marco como Cidadão Kane foi no cinema. Depois, rezo para não me humilharem demais”.
O temor inicial era de que Ramona, personagem de Cláudia Raia, fosse rejeitada. Não foi. Mas a abordagem da transexualidade era, invariavelmente, tratada como piada — reflexo direto de um tempo em que o humor ainda se sobrepunha à empatia. Mesmo assim, o enredo provocou uma reclassificação de horário. Silvio contou ao Jornal do Brasil, em 2002, que chegou a ser “xingado no cinema por causa de Ramona”. Diante da Classificação Indicativa da época, justificou-se afirmando que a personagem “não era trans, mas uma espiã” — o que, como se sabe, não era exatamente verdade.
O par romântico de Raia na trama era Alexandre Borges, que quase não participou do projeto. Ele estava inicialmente cotado para O Clone, onde substituiria Fábio Assunção no papel triplo de Lucas, Diogo e Léo. No fim, a vaga ficou com Murilo Benício, e O Clone acabou se tornando o fenômeno que As Filhas da Mãe aspirava ser.
Leonardo descobre que Ramona usava chuteiras – Manchete de O Globo (2001)

Alexandre Borges vivia Ricardo em “As Filhas da Mãe” (Foto: Divulgação/Globo)
As Filhas da Mãe não foi apenas uma novela de audiência difícil e recepção ambígua: foi também objeto de um processo judicial. O autor Reinaldo Ciambroni moveu ação contra a TV Globo, alegando que já possuía uma peça com o mesmo título. O episódio se somou ao conjunto de contradições e tropeços que marcaram a trajetória da trama de Silvio de Abreu, exibida em 2001.
O personagem Waldeck Ventura seria originalmente interpretado por Luiz Fernando Guimarães, que preferiu continuar em Os Normais. O papel chegou a ser cogitado para Diogo Vilela, mas acabou nas mãos de Lulo Scroback. Já Cleyde Yáconis, uma das grandes damas do elenco, teve cenas regravadas após a direção considerar “incompreensível” o sotaque espanhol que havia criado para sua personagem — um exemplo sintomático do descompasso entre a proposta estética da novela e a recepção do público.
“Tiro sarro da posição do homem machista, preconceituoso, em relação aos gays, de se apaixonar por uma trans” – Silvio de Abreu
Parte das gravações ocorreu no parque aquático Rio Water Planet, em Vargem Grande, no Rio de Janeiro. O local, fechado em 2018, serviu de cenário para o fictício resort Jardim do Éden, núcleo central da trama. Com 19 metros de altura e 90 de comprimento, o cenário ocupava 20 mil metros quadrados e levou cem dias para ser concluído. Com exceção do saguão, todo o interior foi recriado nos estúdios do Projac. “As piscinas que o público vê são do próprio parque aquático”, explicava a produção à imprensa da época.
A novela contou ainda com a presença de Fernanda Torres, que faria ali sua última participação em folhetins. “O Silvio tinha me chamado para uma participação maior, mas fiquei com medo. Além de Os Normais, estou com a peça (Duas Mulheres e um Cadáver) e acabaria ficando menos tempo com o Joaquim (seu filho, de 1 ano e 9 meses). Mas eu queria muito fazer a novela. Então, ele voltou a me ligar dizendo que havia escrito o passado comigo, e logo a parte dramática da história. Adorei (…) Até pela minha tendência ao humor, gravar seis capítulos, como em As Filhas da Mãe, é legal. Mas se fosse uma novela inteira talvez eu fizesse melhor a vilã”, disse Fernanda Torres. Por muito pouco a atriz não voltou em “Vale Tudo”, de 2025, como a vilã Odete Roitman (Débora Bloch). A atriz Giulia Gam chegou a ser convidada, mas recuou — e só retornaria às novelas dois anos depois, em Mulheres Apaixonadas (2003).

Reynaldo Gianecchini e Claudia Jimenez eram um par romântico (Foto: Divulgação/Globo)
Silvio de Abreu destacou, em entrevista ao Jornal do Brasil, em janeiro de 2002, que não repetiu com As Filhas da Mãe o que havia acontecido com “Torre de Babel” (1998). Na novela dos anos 1990, a intenção inicial era fazer um drama realista, mas o resultado, após sucessivas intervenções, transformou-se num folhetim convencional — o que o decepcionou. “Nesta (As Filhas da Mãe), eu não abri concessões”, afirmou o autor.
Diferentemente das produções atuais, que enfrentam dificuldades logísticas até para gravar em locações brasileiras, As Filhas da Mãe circulou por Londres, Roma, Los Angeles e Las Vegas — itinerário incomum mesmo para os padrões da teledramaturgia global do início dos anos 2000.
A novela também apresentou curiosidades de elenco e bastidores: Patrícia Travassos voltava às novelas após um hiato desde Vira-Lata (1996). “Sempre me convidavam para fazer a mesma personagem”, justificou. O ator Gustavo Falcão, pernambucano de 25 anos, estreava na televisão com o personagem Faísca, mas teve de esconder o sotaque nordestino. O papel, originalmente, seria de Matheus Nachtergaele, que acabou estreando em Da Cor do Pecado (2004). E, em meio a romances, farsas e trocadilhos, As Filhas da Mãe ousou com um triângulo — ou melhor, um “trisal” — formado por Érika (Viviane Novaes), Pedro (Pedro Garcia) e José (Bruno Gagliasso). Os três terminaram juntos, compartilhando a mesma cama.

Regina Casé em “As Filhas da Mãe” (Foto: Divulgação/Globo)
Até o rap, escolhido como elemento popular para amarrar a narrativa, acabou rejeitado pelo público. O produtor musical Mú Carvalho descreveu o processo de criação: “O primeiro passo para produzir o rap é receber a sinopse de cada capítulo. Para isso, a colaboradora do autor, Sandra Louzada, também põe a mão na massa. Depois, reúno a equipe: o músico e arranjador vocal Paulinho Soledade e o compositor Dudu Falcão”. “O Paulinho vai ao meu estúdio quase todos os dias. Já o Dudu me passa as letras por e-mail. É uma loucura. São levados ao ar de oito a dez raps por dia. Está sendo trabalhoso, mas muito interessante. O rap é uma linguagem atual. É como se fosse um repente moderno, com uma linguagem mais universal”, contou Mú, que também assinava a trilha incidental da trama.
Para evitar a fadiga do público, o produtor adiantou que, “a partir do capítulo 30, o número de raps vai diminuir para três ou quatro por edição”. Cada um durava cerca de 30 segundos, mas, a pedido do diretor Jorge Fernando, o tempo foi reduzido: “Os raps que contam cenas do passado terão 20 segundos. Os outros ficarão com 15 ou 16 segundos”. “Está sendo uma experiência prazerosa. Acho que, no final, vou me empolgar e escrever uma novela, com raps feitos pelo Silvio de Abreu”, brincou Dudu Falcão.
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