*por Vítor Antunes
Ela não para. O alto astral, o sorriso na voz e o jeito de menina perduram. Essa é a sempre inquieta Regiane Alves, que agora se lançou em mais um desafio: um livro infanto-juvenil. “Em ‘Meu Mundo É Uma Bola’ , eu abordo a importância das relações e o que um esporte pode trazer na vida de uma criança. E a aceitação das diferentes classes sociais dentro do que uma única bola pode proporcionar na vida — e como isso reverberar na vida adulta também. O livro é muito gracioso e escrito em parceria com a pedagoga Liliane Mesquita. Trata-se de um projeto feliz, porque veio de um dos meus filhos, o Antônio, através do esporte — pois tenho um filho atleta”.
A atriz aponta que o outro filho, João Gabriel, tudo leva a crer, seguirá na linha artística da família. O garoto é também neto de Regina Duarte. “João Gabriel fez o curso de teatro, três peças — e esse ano fez “Paixão de Cristo” comigo. Ainda estou em dúvida, mas há tempo para entender, para saber”.

Regiane Alves, inspirada nos filhos escreveu seu primeiro livro (Foto: Leo Aversa)
Regiane Alves está em cartaz ao lado de Nívea Maria em “Querida Mamãe”. A peça ocupa o Teatro dos Quatro até 28 de junho e trata da complexidade da relação entre mães e filhas. No segundo semestre, a montagem segue para São Paulo, em agosto, no Teatro Renascença, com temporada até outubro. A atriz comenta: “Muitas vezes a gente julga o comportamento da mãe ou do pai, mas quando você vê, também repete — sem ter essa percepção. A minha personagem é uma médica, uma mulher que teve um casamento ruim, um homem horrível. Ela teve uma filha, a relação com essa filha também não é bacana. Ela se apaixona por uma mulher, e isso gera um grande conflito na mãe. A gente questiona muito o porquê. Essa mãe é um pouco narcisista, fala de um preconceito, mas depois aceita, de alguma forma, a escolha da filha. A peça, no final, é um pouco sobre isso: falar sobre o amor, falar sobre o resgate das relações — que podem ser feitas em qualquer momento da sua vida. Esse é o bacana do texto.”
Regiane celebra a parceria com Nívea Maria. “Ela faz parte da nossa vida, da nossa infância, do nosso imaginário. Quando eu olho para Nívea, admiro essa atriz tão disponível aos 79 anos, tão comprometida em acertar, tão bonita e ativa. É muito bonito de ver.”

Regiane Alves e Nivea Maria em “Querida Mamãe” (Foto: Leo Aversa)
Em “Querida Mamãe”, a relação entre mãe e filha se estremece quando a moça se descobre lésbica já na maturidade. Esta é mais uma das várias personagens lésbicas que Regiane tem vivido nos últimos anos. “Parece que eu descobri o público que eu acho que não tinha prestado atenção — e até me senti um pouco ignorante nisso. Tipo: meu Deus, por que não prestei atenção? Na época de “Vai na Fé” houve a polêmica do beijo que demorou para acontecer. Depois eu fui fazer a peça sobre autismo, que era a história dos três irmãos, em que a mãe morre e deixa a herança ao filho autista, como se a gente achasse que aquele filho não seria capaz de gerir a situação — e era o que mais sabia de tudo. Quando eu vou para o teatro, falo sobre autismo; quando vou para a televisão, falo disso também. Esse é o ponto: o autista, o negro, o gay — eles não são parte da sociedade, eles são a sociedade”. Mais recentemente, Regiane viveu a mãe do casal “Loquinha”, de “Três Graças“.
“Há muitas mensagens que recebi, após “Vai na Fé”, dizendo: ‘Meu sonho é ter um almoço, um jantar exatamente como aconteceu naquela cena.’ Porque a pessoa gay não tem direito a um almoço e um jantar com a mãe e com o pai? A personagem da peça, por exemplo, questiona: Pera aí — você vai fechar a porta da minha casa aos 50 anos porque estou me envolvendo com uma mulher? O que há de tão diferente nisso? Então, eu acho que quanto mais a gente tiver esses personagens colocados na dramaturgia, quanto mais a gente tiver no teatro, tiver nos livros, melhor.” — Regiane Alves
Ela prossegue: “O meu lado enquanto atriz me faz olhar determinadas situações de outro ponto de vista, e fico muito feliz com isso. Por outro lado, como humanidade, acho que todo mundo tem que ser visto pela sociedade. Todo mundo tem os mesmos direitos. Por que validamos tanto a relação entre homem e mulher? A gente passou por um momento em que tivemos muita estatística sobre feminicídio — que é real, muito forte no nosso país”.
A arte é cultura. A arte é educação. É através dela que as pessoas vão ter uma reflexão. Quando a gente coloca numa TV aberta, numa novela, ela tem uma potência maior – Regiane Alves

Regiane Alves e Priscila Sztejnman em ‘Vai na fé’ (Foto: Reprodução/Globo)
MUDANÇAS
Para Regiane — que surgiu nacionalmente ao fazer Fascinação, no SBT, em 1998 —, diferentemente daquela época em que os talentos eram muito concentrados na televisão, hoje o mercado é multiplataformas, e aí reside o desafio de se estabelecer como artista. “Hoje eu acho bem pulverizado. A gente tem um mix de tudo, e isso é importante. Numa escalação, é válido o produtor de elenco trazer uma cara nova, novos talentos — mas sou muito a favor de que os atores veteranos estejam juntos também, misturados. Os atores de 40, 50 anos carregam uma memória afetiva que a gente sente falta. A geração de 10, 15 anos não sabe muito bem quem foi essa geração — então ela precisa aprender, mas a gente também precisa se colocar de frente com essa galera que está chegando”.
Ela pondera: “Eu entendo que a gente passou por um momento em que havia os grandes atores, as grandes estrelas — depois veio esse movimento da internet indo para a televisão. Mas acredito que sejam mídias completamente diferentes. O que você vê nas redes sociais, o que você consome lá, é bacana, é interessante — mas talvez não fale muito com o público que gosta de televisão. E o público que lê livro, às vezes, não é o mesmo que vê televisão. Têm as novelinhas verticais agora também, que já prometem entregar para outro público, outra linguagem, outra dramaturgia — esse público mais jovem conseguindo consumir o que é novela. Acho que tem espaço para todo mundo, mas acho que os bons vão ficando.”

Para Regiane Alves, este é um tempo de mudanças (Foto: Leo Aversa)
Entre os palcos, as páginas de um livro e as telas que atravessam gerações, Regiane Alves segue em movimento, guiada pela mesma inquietação que marcou sua trajetória desde os primeiros passos na dramaturgia. Seja ao falar de afeto, diversidade, maternidade ou pertencimento, a atriz transforma cada personagem e cada projeto em convite ao diálogo. E talvez seja justamente aí que resida sua força: na capacidade de compreender a arte como ponte. Uma ponte que une mundos, aproxima diferenças e lembra que, no fim das contas, as histórias mais importantes são aquelas capazes de ampliar o olhar e devolver humanidade ao cotidiano.
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