*por Vítor Antunes
Não é a primeira vez que a barriga de aluguel aparece como tema em uma novela — e dificilmente será a última. A adoção ilegal também não é novidade no repertório da teledramaturgia brasileira. Ainda assim, “Três Graças'” tem conseguido trazer esse debate à tona de uma maneira pouco comum: sem interromper o fluxo da história, sem transformar o tema em sermão. O assunto surge dentro da própria engrenagem da trama. Quem conduz essa linha narrativa é a atriz Alana Cabral, intérprete de Joelly. Pela personagem, a novela se aproxima de um tema que geralmente fica à margem do debate público. Para a atriz, trata-se de um assunto ainda pouco discutido. “Esse é um tema muito sério e que, muitas vezes, acaba ficando invisível. Quando a gente começou a falar sobre isso na novela, eu mesma fui pesquisar mais e fiquei chocada com a quantidade de histórias e denúncias que existem. Então, acho muito importante quando a dramaturgia traz esse tipo de assunto para o horário nobre, porque a novela entra na casa das pessoas, provoca conversa e faz com que muita gente passe a olhar para essa realidade com mais atenção.”
A novela das nove tem um alcance gigantesco. Muita gente assiste, comenta, discute. E ainda ganha dimensão nas redes sociais. Então, quando um tema desses aparece na trama, ele deixa de ser algo distante e passa a fazer parte do debate do dia a dia. Tenho recebido muitas mensagens de pessoas dizendo que foram buscar mais informações sobre o assunto depois das cenas, ou que começaram a conversar sobre isso em casa – Alana Cabral

Alana faz sua primeira prtagonista na TV em “Tres Graças” (Foto: Guilherme Lima)
Nas últimas semanas, as cenas exigiram da atriz uma carga dramática incomum. Na trama, Joélly enfrenta um parto em uma clínica clandestina e vê o próprio filho ser levado. É o tipo de sequência que desloca a narrativa do terreno cotidiano para uma zona de tensão que cobra da intérprete não apenas técnica, mas também disponibilidade emocional. Alana conta que a preparação foi marcada por pesquisa e conversas longas com a equipe. Sem experiência pessoal com a maternidade, buscou referências em relatos de outras mulheres. “Foi um processo bem intenso. Eu não tenho filhos, então busquei muitas referências em relatos de mulheres, vídeos, entrevistas… e ouvi histórias muito fortes. Também tive muita conversa com a direção que foi extremamente cuidadosa nesse processo. Além de ter como suporte um texto muito redondo e impecável que chega às minhas mãos. A gente ensaiou bastante, falou muito sobre o estado emocional da Joélly naquele momento, que é de muita vulnerabilidade. No set também existia um clima de muito respeito, porque todo mundo sabia da importância e da delicadeza daquelas cenas”.
A personagem também abriu espaço para outro tema sensível: a violência obstétrica, experiência que muitas mulheres reconhecem apenas depois de ouvi-la nomeada. Para a atriz, a novela ajuda a iluminar um problema frequentemente tratado como episódio isolado.
Quando a gente começa a ouvir relatos, percebe que é algo muito mais comum do que deveria. Muitas mulheres passaram por situações difíceis e às vezes nem sabem que aquilo se configura como violência obstétrica. Então trazer isso para a novela também ajuda a dar nome às coisas, a informar, a abrir espaço para que essas mulheres falem sobre suas experiências e até denunciar. Acho que ainda é um tema que precisa de muito debate e conscientização – Alana Cabral

Alana cabral: Novela propoe debate e conscientização (Foto: Guilherme Lima)
PROTAGONISTA
Fazer uma novela das nove, no Brasil, é entrar em um espaço de visibilidade que poucos atores experimentam. A rotina é exigente, os capítulos se sucedem com rapidez industrial e cada cena carrega o peso de um horário que ainda concentra milhões de espectadores diante da televisão. Para Alana Cabral, protagonista da trama das nove, a experiência tem o sabor particular da estreia em um posto de enorme exposição. “É um momento muito especial para mim. Fazer uma novela das nove sempre foi um sonho enorme, então, desde os meus primeiros trabalhos na TV, vivo tudo isso com muita gratidão e também com muito senso de responsabilidade. A rotina é intensa, as cenas são desafiadoras, mas ao mesmo tempo é uma oportunidade incrível de aprendizado. Eu sinto que estou crescendo muito como atriz nesse processo.”
A atriz diz que tenta manter a personagem ancorada na realidade que a inspirou. “A Joélly não é só uma personagem de ficção, ela representa histórias que, infelizmente, existem na vida real. Então procuro sempre tratar cada cena com muita verdade e cuidado. Quando vejo que a personagem está provocando reflexão, gerando debate, eu sinto que o trabalho está cumprindo um papel importante. Eu me inspiro muito nas pessoas e nas histórias reais. Gosto muito de observar, ouvir, entender diferentes vivências. Acho que isso alimenta muito o meu trabalho como atriz, porque a gente acaba levando um pouco dessas referências para a construção dos personagens”.

Alana Cabral: Eu me inspiro em pessoas reais (Foto: Guilherme Lima)
Ao lado dela, o trio central de Três Graças reúne ainda Dira Paes e Sophie Charlotte. Entre Alana e Dira há uma diferença de quatro décadas de vida — um contraste que, no set, se transforma em aprendizado. “A Dira é uma referência muito grande para mim, como atriz e como pessoa. Ela tem uma presença, uma generosidade no set, uma entrega ao trabalho que é muito inspiradora. A nossa relação é muito bonita, de muito respeito e troca. Eu aprendo muito observando a forma como ela constrói as cenas, como se prepara. A vitalidade que ela tem, aliada a essa paixão pela arte e a uma trajetória tão sólida, são incríveis como exemplo para mim.”
No centro desse movimento está Alana Cabral. Pela Joélly que constrói em cena – frágil, atravessada pela dor, mas nunca reduzida a ela – a atriz transforma um drama particular em algo que ressoa para além da ficção. É por meio de sua interpretação que temas espinhosos, muitas vezes mantidos à margem do debate público, encontram espaço no horário de maior audiência da televisão brasileira. Assim, entre a intensidade das gravações e a cadência diária dos capítulos, Alana acaba fazendo mais do que conduzir a trajetória de uma personagem: dá rosto e voz a histórias que, fora da tela, ainda lutam para ser ouvidas.
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