*por Rodrigo Otavio
No último domingo, as escolas de samba cariocas inauguraram a primeira noite de desfiles do Grupo Especial. Quatro agremiações atravessaram a Marquês de Sapucaí sob o signo da irregularidade, num desfile que oscilou entre equívocos de enredo, falhas de evolução e harmonia e conjuntos alegóricos desiguais. Não houve desastre retumbante, mas tampouco houve unanimidade.

Abre-Alas da Niterói (Foto: Riotur)
A Acadêmicos de Niterói escolheu homenagear o presidente Lula, tornando-se, ao que tudo indica, a primeira escola, desde a redemocratização, a reverenciar um presidente vivo, em exercício. Foi a estreia no Grupo Especial com o tema “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o operário do Brasil”. Nas alegorias, destacou-se o carro abre-alas. As arquibancadas acompanhavam cantando o samba. A quebra de carros na dispersão, por muito pouco, não afetou o fluxo da Imperatriz que vinha na sequência. O público assistiu a cena, e quase a Imperatriz atrasou seu desfile.
Depois da azul e branco de Arariboia, entrou a Imperatriz Leopoldinense, a Rainha de Ramos, com uma homenagem ao multiartista Ney Matogrosso. Sob a direção de Leandro Vieira, a escola apresentou uma comissão de frente inventiva, na qual o intérprete de Ney brilhou em picardia e irreverência, ainda que não tenha sido identificado no Livro Abre-Alas. O conjunto alegórico também apresentou irregularidades, mas houve acertos evidentes no abre-alas e nos tripés dedicados aos Secos & Molhados e à canção “Sangue Latino”. O enredo, contudo, revelou fragilidades pouco habituais para um carnavalesco que costuma defender com vigor suas narrativas. O samba-enredo foi outro ponto sensível, embora bem sustentado pelo vozeirão de Pitty de Menezes.

Ator que deu vida a Ney Matogrosso. Destaque (Foto: riotur)
Em seguida, a Portela apresentou um desfile que a credencia, infelizmente, à zona de risco. Foram poucos os momentos luminosos da Águia de Madureira. Talvez a própria águia, em sua simplicidade, tenha sido um deles. A escola enfrentou problemas em diversos quesitos e desfilou num patamar abaixo de suas concorrentes diretas. Carros alegóricos tiveram dificuldades na dispersão, impactando evolução e harmonia. No setor onde se encontrava a equipe do Site HT, no Setor 11, a escola chegou a permanecer cerca de cinco minutos parada, aguardando manobras. O carro de número cinco apresentou problemas para entrar na pista e alcançou o último módulo de julgamento avariado, o que pode custar pontos preciosos à Altaneira. Os destaques positivos ficaram, mais uma vez, com o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Marlon e Squel.

Marlon e Squel, primeiro casal da Portela (Foto: RioTur)
Fechando a noite, a Mangueira promoveu o encontro das “velhas companheiras” e entrou grandiosa. Bela, volumosa, mas com leitura difusa de si mesma. Não parecia exatamente Mangueira, o que não significa que a Verde e Rosa esteja condenada à estética da escassez. Havia, porém, signos que remetiam ao carnaval paulista, terra natal do carnavalesco Sidnei França, que apresentou o necessário enredo sobre o Mestre Sacaca. O samba, longe de figurar entre os melhores da safra mangueirense, demonstrou desgaste ainda nos primeiros quarenta minutos. Houve escolhas interessantes e disruptivas, como na Ala 3, além de um abre-alas majestoso. A bateria foi destaque à parte, sob o comando de Taranta Neto e Rodrigo Explosão. A comissão de frente não teve um grande clímax e foi linear. Num domingo de desempenhos irregulares, a Mangueira sobressaiu pela constância. Em noite de notas instáveis, regularidade virou virtude.

Apática comissão de frente da Mangueira (Foto: Riotur)
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