Pressão baixa: programa de Eliana parece feito a toque de caixa e recicla fórmulas que a própria Globo já exibiu antes


Após dois anos de expectativa, Eliana estreou na TV Globo com o programa ‘Em Família com Eliana’, que acabou evocando mais memórias da própria emissora do que sensação de novidade. O formato lembra atrações antigas como ‘Tamanho Família’ e reproduz fórmulas já vistas em programas dominicais da casa. A participação das famílias dos convidados pouco acrescenta e a estrutura do programa carece de ritmo e identidade clara. A audiência inicial garante uma sobrevida confortável. A dúvida é outra. Se o programa vai conseguir transformar essa estreia em identidade própria ou se permanecerá como um mosaico de ideias já testadas pela própria TV que o exibe. Eliana, ao que tudo indica, merece mais do que um programa que parece sempre estar lembrando de outro

*por Rodrigo Otávio

Dois anos de espera para chegar a um lugar estranhamente familiar. Contratada pela TV Globo em 2024, a excelente apresentadora Eliana, finalmente, estreou no último domingo o programa Em Família com Eliana. A expectativa era compreensível. A televisão aberta ainda trata a chegada de uma apresentadora com três décadas de popularidade como um evento. O resultado, porém, parece menos uma estreia e mais uma visita a formatos já conhecidos.

O próprio nome da atração já traz um curioso eco de arquivo. Como observamos aqui mesmo no Site HT, “Em Família” remete diretamente à novela Em Família, exibida pela Globo em 2014 e última obra do novelista Manoel Carlos (1933-2026). O formato, de modo geral, opera como um grande déjà-vu dominical. O esqueleto da atração lembra imediatamente o antigo Tamanho Família, apresentado por Márcio Garcia. A estrutura de convidados com suas famílias, as disputas entre elas e a mistura de depoimentos sentimentais com pequenas provas. Outros fragmentos do repertório da casa também aparecem pelo caminho.

A audiência inicial garante uma sobrevida confortável. A dúvida é outra. Se o programa vai conseguir transformar essa estreia em identidade própria ou se permanecerá como um mosaico de ideias já testadas pela própria televisão que o exibe. Eliana, ao que tudo indica, merece mais do que um programa que parece sempre estar lembrando de outro.

Certos quadros apostam no mesmo tipo de emoção domesticada que se tornou rotina no Caldeirão com Mion e no Domingão com Huck: histórias de superação narradas em tom solene, trilha sonora crescente e abraços que chegam sempre no momento exato do corte de câmera. Até o balé do programa parece ter sido transportado diretamente do “Domingão”, como se a coreografia dominical fosse um patrimônio compartilhado da emissora.

Nesse cenário, o desperdício de talentos chama atenção. Eliana sempre foi reconhecida por um carisma espontâneo, por uma habilidade quase intuitiva de conduzir programas populares. Aqui, porém, sua presença parece excessivamente roteirizada, presa a marcações rígidas que diminuem justamente aquilo que sempre foi sua força. Ao lado dela surge Estevam Nabote, humorista talentoso da nova geração. Sua participação, no entanto, aparece de forma intermitente, como se o programa ainda não tivesse decidido exatamente o que fazer com ele

Em Família: Pedro Bial, Eliana e Belo (Foto: Globo/Bob Paulino)

A ATRAÇÃO 

Quando foi anunciada como nova contratada da TV Globo, esperava-se que Eliana ganhasse algo que a televisão brasileira raramente concede a quem chega com status de estrela: um formato moldado à sua medida. Até aqui, não foi o caso. A apresentadora passou por programas que já existiam ou por estruturas que parecem ter saído do arquivo da emissora com pequenas adaptações. Primeiro o Saia Justa, depois o The Masked Singer Brasil. Agora, em Em Família com Eliana, o que se vê é algo ainda mais curioso: uma espécie de reciclagem de antigos formatos dominicais da própria Globo, com verniz de novidade.

A fragilidade do conceito aparece logo no ponto central do programa: a presença das famílias dos convidados. Na prática, elas pouco acrescentam. Na estreia, os convidados eram Belo e Pedro Bial, pratas da casa. Durante boa parte da atração, suas famílias permanecem no palco como peças de decoração humana, aguardando uma função dramática que demora a surgir. Somente no último bloco se revela que todos estavam ali como jurados de uma disputa de talentos entre famílias de artistas espalhadas pelo país. A revelação chega tarde e, quando chega, traz consigo uma estrutura que lembra, sem muito esforço, quadros que o Domingão com Huck já utiliza em suas variações dominicais de competição.

Em Família: Eliana é maior que o próprio programa (Foto: Globo/Bob Paulino)

As famílias concorrentes também obedecem a um manual de estereótipos que a televisão brasileira insiste em manter plastificado. Uma família nordestina surge cantando Asa Branca, escolha previsível como chuva em novela rural. Já a família gaúcha, trajada com todos os códigos do regionalismo sulista, opta por cantar uma música… do Mato Grosso do Sul! O Brasil profundo, nesse tipo de programa, vira um mapa dobrado às pressas.

Antes disso, o primeiro quadro apresenta Daniel em casa com seus familiares, num formato de visita doméstica que poderia perfeitamente existir em qualquer outro programa de auditório da emissora. A entrevista com o cantor, ainda no primeiro bloco, transcorre sem grandes sobressaltos. Logo em seguida, apresentadora e convidado engatam um merchandising. A impressão que fica é a de que Daniel, artista respeitado e dono de uma carreira sólida, estava ali menos como convidado e mais como ponte para a venda de um produto. Para uma estreia, trata-se de um nome de impacto moderado, sobretudo quando a emissora costuma tratar seus lançamentos dominicais como eventos.

No meio desse mecanismo aparece Estevam Nabote, representante da nova geração do humor, escalado para cumprir a função de alívio cômico. Sua presença, no entanto, parece deslocada, como se tivesse sido enxertada na atração durante uma reunião de roteiro que decidiu que todo programa precisa de um comediante para quebrar o gelo. Curiosamente, algo parecido ocorreu na estreia do Encontro com Patrícia Poeta, que convocou Marcos Veras e Victor Sarro para funções semelhantes antes de abandoná-las discretamente ao longo do tempo. A televisão brasileira gosta de repetir experiências, inclusive as que já deram sinais de desgaste.

Talvez o problema mais visível da estreia esteja no ritmo. Ou na ausência dele. “Em Família” parece um programa ainda à procura de sua própria cadência. Quadros começam sem grande preparação e terminam sem produzir clímax. Blocos se sucedem como compartimentos independentes, sem uma progressão clara.

Em Família com Eliana (Foto: Bob Paulino/Globo)

Ou seja, a estreia revela menos sobre o potencial de Eliana e mais sobre a dificuldade da televisão aberta em imaginar novos formatos para seus próprios talentos. O programa parece excessivamente marcado, quase mecânico, como se cada bloco obedecesse a uma planilha invisível. Falta espontaneidade e, sobretudo, falta a sensação de que a atração foi pensada a partir da apresentadora e não encaixada nela.

O desempenho de audiência não foi ruim. Segundo dados consolidados do Kantar Ibope para a Grande São Paulo, principal mercado televisivo do país, Em Família com Eliana marcou 11 pontos de média, com picos de 13, entre 14h26 e 15h40. Cada ponto corresponde a cerca de 199 mil telespectadores. No mesmo horário, o Domingo Legal, apresentado por Celso Portiolli no SBT, registrou 6 pontos. A Record, com o game show Boom! de Tom Cavalcante, ficou com 5. A Band marcou 1 ponto com o Show do Esporte.