Polêmica: de vilã a loba, Odete Roitman no remake de ‘Vale Tudo’ é sucesso na web por elitismo e curtição da fortuna


Odete Roitman (Débora Bloch) é a verdadeira estrela do remake de “Vale Tudo”, da TV Globo. Comentários dos telespectadores, nas redes sociais, revelam que a vilã “roubou” para si o protagonismo da trama. O fenômeno Odete Roitman no remake de ‘Vale Tudo’ escancara uma inversão curiosa: a vilã, antes odiada na primeira versão da novela na década de 80, hoje é celebrada. Em tempos de desconfiança das instituições e valorização do individualismo, sua frieza e pragmatismo parecem seduzir mais do que assustar. Hoje, o público não apenas aceita as particularidades da maléfica, mas concorda com sua percepção de mundo, o que reflete mudanças — ou contradições — nos valores sociais contemporâneos. Doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), o roteirista Lucas Martins Néia avalia o fascínio do público: “A gente vê, na Odete Roitman, todos os setores de aversão à pobreza da sociedade brasileira, muito fortes nas nossas elites. A projeção se dá pelo desejo de muitas pessoas se verem no lugar social que a personagem ocupa”.

Polêmica: de vilã a loba, Odete Roitman no remake de 'Vale Tudo' é sucesso na web por elitismo e curtição da fortuna

*por Luísa Giraldo

Esqueça os laços e as sapatilhas vermelhas de Solange Duprat (Alice Wegmann), mocinha do remake de “Vale Tudo”, da TV Globo. O público na web está é curtindo Odete Roitman (Débora Bloch), uma das vilãs mais icônicas da novelas globais. A milionária, interpretada por Beatriz Segall (1926-2018) em 1988, detesta o Brasil, toma decisões problemáticas e diz absurdos sem tamanho. Essa postura polêmica gerou bastante controvérsia na primeira versão da novela, ainda marcada pelo forte machismo estrutural. Hoje, em um contexto de crescente valorização de pautas sociais e de debates políticos, esperava-se uma reação ainda mais contundente por parte da audiência. A surpresa foi justamente o contrário: grande parte dos telespectadores concorda e está embarcando na onda elitista de Odete.

“Até o final da novela, o enredo vai mudar e vão matar outro personagem porque o público está amando a Odete”, escreveu um internauta. Outra opinou: “Acho ela uma diva”. Enquanto outra usuária brincou ser “100% com OR” e torce para que a personagem seja eterna. O apoio à Odete é tamanho que perfis em homenagem a ela, paródias e fan bases já surgiram. O @odeteroitman_real tem mais de 8 mil seguidores. Fora isso, no X (ex-Twitter), trocadilhos como “Topete Roitman”, em razão do seu penteado, ou “F0dete”, em razão de seu, digamos, apetite sexual, já surgiram. Provas do apoio à “loba”.

O fenômeno Odete Roitman no remake de Vale Tudo escancara uma inversão curiosa: a vilã, antes odiada, hoje é celebrada. Em tempos de desconfiança das instituições e valorização do individualismo, sua frieza e pragmatismo parecem seduzir mais do que assustar. A novela segue atual justamente por isso: revela que, no Brasil, o moralmente duvidoso ainda encontra eco — e aplauso.

Há mais de três décadas, Beatriz deu vida à personagem maléfica que jamais foi esquecida pelo público. Apelidada de “vilã das vilãs”, Odete Roitman chocava a audiência dos anos 80 por uma série de motivos: ser sexualmente ativa aos 60 anos, mãe ausente e não ter papas na língua em uma série de preconceitos. A rejeição pública a uma mulher com um perfil tão forte era previsível.

Odete Roitman de Debora Bloch é uma "loba" em relação à personagem de Beatriz Segal (Reprodução/TV Globo)

A Odete Roitman de Débora Bloch é uma “loba” em relação à personagem de Beatriz Segall (Reprodução/TV Globo)

O ibope de Odete foi tanto que os fãs da trama, décadas depois, se preocuparam com o legado da vilã nas mãos de Débora, fadada a lidar com comparações e críticas até hoje. A atriz deu conta do recado: não apenas criou uma Odete para chamar de sua – cruel, elegante e extremamente manipuladora –, mas ofereceu a faceta de mulher empoderada e sensual. Assim, no remake de “Vale Tudo”, a maléfica tem sido vista como “uma mãe incompreendida, admirada por sua franqueza com os filhos e elogiada por aproveitar sem culpa a fortuna, viajando pelo mundo e se envolvendo com amantes mais jovens”.

Doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), o roteirista Lucas Martins Néia avalia o fascínio do público pelos antagonistas. “Cabe ao vilão ou à vilã levar a história adiante com os conflitos. Na vilania feminina, essa personagem está em um lugar de transgressão da norma imposta às regras da mocinha, que deve seguir determinados códigos em questões de padrões de beleza e de comportamento”.

Em ‘Vale Tudo’, há liberação sexual de uma mulher mais velha e de comportamento. É uma questão moral. Em contraponto à Raquel (Taís Araujo), com a honestidade, que é a espinha dorsal dessa novela, há Odete Roitman, capaz de qualquer tipo de ardil pelos próprios interesses. Isso fascina o público. Além do choque de ver a personagem falar barbaridades, ela pode liberar questões que estão dentro de nós, inclusive alguns preconceitos — Lucas Martins Néia.

Dramaturgo e diretor teatral, ele reconhece que, em relação à vilã, “o público se divide entre a ojeriza e a identificação. A gente vê, na Odete Roitman, todos os setores de aversão à pobreza da sociedade brasileira, muito fortes nas nossas elites. A projeção se dá pelo desejo de muitas pessoas se verem no lugar social que a personagem ocupa”.

Ele descreve que a narrativa original, de 1988, surgiu em consonância com os acontecimentos políticos do país. Após décadas de Ditadura Militar, a sociedade brasileira experimentava os primeiros anos da redemocratização, isto é, uma recém-nascida liberdade de expressão e de pensamento. “A novela dialoga muito bem com seu tempo e com aquele momento tão importante do país. Tudo isso coopera para o fascínio do público por Odete Roitman”.

Essa personagem afeta o público de diversas maneiras; ora de rejeição, ora de identificação. O que percebo, nessa versão, é que Odete parece um pouco mais afável com aqueles ao seu entorno. A personagem parece mais humana. Dá dimensão de que, por mais que não use métodos ortodoxos, essa mulher está preocupada com sua família, além de agir de forma intempestiva por amor. Essa construção chega no público também — Lucas Martins Néia

Comentários nas redes sociais revelam a adesão do público à nova Odete e, inclusive, colocam Solange (Alice Wegmann) como a atual vilã após rejeitar a oferta de suborno da milionária. A diretora da agência de conteúdo Tomorrow teria que convencer o namorado e caçula de Odete, Afonso Roitman (Humberto Carrão) a morar fora do Brasil. Em troca, ela ganharia estabilidade financeira e uma oportunidade de trabalho em Paris, na França, onde vive Roitman.

Telespectadores apoiam atitudes de Odete Roitman e exaltam atuação de Débora Bloch (Reprodução/Tik Tok)

Telespectadores apoiam atitudes de Odete Roitman e exaltam atuação de Débora Bloch (Reprodução/Tik Tok)

Sobre os elogios às propostas e ações sem escrúpulos de Odete, o roterista reitera a importância de abordar os limites da ética no audiovisual. “É absolutamente necessário e pertinente [que as novelas trabalhem temas como a moral]. A honestidade é um dilema muito caro da brasilidade, esse mito do país do ‘jeitinho brasileiro’. ‘Se vale à pena, ou não, ser honesto no país?’ é a pergunta que guia ‘Vale Tudo’.

Telespectadores apoiam falas problemáticas de Odete Roitman e exaltam atuação de Débora Bloch (Reprodução/Tik Tok)

Telespectadores apoiam falas problemáticas de Odete Roitman e exaltam atuação de Débora Bloch (Reprodução/Tik Tok)

Foram milhares de comentários nas redes sociais da TV Globo e do Globoplay, onde são compartilhados cortes das cenas. Definitivamente, o público condenou Solange por abrir mão da oferta tentadora e responder ser “resistência”. Praticamente três décadas depois da primeira versão, o público revela estar mais próximo do que nunca do elitismo sem caráter de Odete. “É um novo país com os mesmos problemas de sempre”, conclui o diretor.