*por Rodrigo Otávio
“Você perdeu a galinha dos ovos de ouro“. “Bebe, lacraia, bebe“. “A sua entrada não é permitida aqui, senhorita“. Essas três frases foram tiradas dos 10 capítulos iniciais de “Tudo por Uma Segunda Chance“, o novo investimento da Globo em dramaturgia pensada exclusivamente para as redes sociais. São frases que poderiam ter sido arrancadas de qualquer novela latina lacrimosa, inclusive pelo fato de não ser habitual que brasileiros usem a expressão “senhorita”.
Os dez primeiros capítulos da mininovela trazem uma chuva de clichês infantilizados, diálogos previsíveis, cenas dirigidas com honestidade, mas presas à falta de profundidade do texto escrito por Rodrigo Lassance e conduzido artisticamente por Adriano Melo. Tanto eles quanto Jade Picon, Débora Osorio e Daniel Rangel não fazem um mau trabalho. Ou seja, isso não é uma crítica, pois os artistas entregam aquilo que lhes foi pedido. Eles tentam, dentro do possível, suprir a carência de densidade do material.
A sensação é que a obra tenta forçar uma atmosfera melodramática importada, sem qualquer filtro cultural, como se a simples adoção de certos trejeitos linguísticos pudesse transformar um roteiro raso em uma epopeia emocional.
Falar que a trama é infantil e ingênua é redundante, pois é exatamente isso. O projeto, simplório, feito para “passar o tempo” de quem está rolando o feed infinitamente no Instagram e no TikTok, aposta em maniqueísmos escancarados, frases de efeito espalhadas aos montes, adjetivos derramados sem contenção e uma infinidade de caras e bocas. Ainda que seja péssimo, ele tem seu público-alvo, e portanto esses não são os “defeitos” do projeto, mas sim as características que o moldam para um público que deseja consumo rápido e emocionalmente pasteurizado. Até a última soma feita pela reportagem, a novela já foi vista por cerca de 24 milhões de pessoas, tomando por base o próprio Instagram da Globo. O episódio menos visto, o de número 8, bateu 864 mil views. O mais visto, o de número seis, 3,4 milhões.
O microdrama tem 50 capítulos, cada um com cerca de dois a três minutos, e a cada semana, sempre às terças-feiras, 10 novos capítulos são disponibilizados em blocos pensados para consumo veloz.
Soraia (Jade Picon) coloca veneno na bebida de Paula (Debora Ozório) [Foto: Divulgação/Globo]
O público de “Segunda Chance” não é formado por pessoas acostumadas com novelas tradicionais, nem por quem acompanha crítica especializada, nem por quem usa a teledramaturgia como referência estética. Trata-se de outro tipo de espectador, e a fragilidade da obra acaba funcionando como trunfo porque atende a quem deseja histórias já mastigadas e sem qualquer esforço de interpretação.
Tudo é exageradamente marcado. Nada é insinuado. É sublinhado com tinta forte. A protagonista é uma heroína injustiçada sem nuances, o herói é um panaca bonito e carismático que serve de molde decorativo, a vilã é malvada, bonita, sensual e faz uso constante da sobrancelha arqueada para pontuar cada maldade descrita minuciosamente, como se o público precisasse de placas luminosas para compreender quem é quem.
Esperar que um microdrama – uma novela feita para ser simples e ingênua – seja uma obra colossal de dramaturgia é algo como esperar que um refresco em pó entregue os mesmos nutrientes e sabor de um suco de fruta natural. O refresco só pode oferecer microplásticos, ultraprocessados e aumento de glicemia
Beth Goulart e Daniel Rangel em cena (Foto: Divulgação/Globo)
Outro destaque positivo de “Segunda Chance” é a volta de Beth Goulart, Marcos Winter e Vanessa Gerbelli à cena. É reconfortante ver intérpretes experientes surgindo, mesmo que em um produto tão frágil, e ainda assim encontrando maneiras de dar certo peso ao que lhes é oferecido. O desafio da direção ao pensar cenas em enquadramentos menores para centralizar a ação dramática é evidente e até admirável, ainda que limitado pelo formato. Há, porém, um problema grave que já nasce como mancha: ninguém da produção é creditado, nem atores, nem diretores nem roteiristas, o que pode gerar um ruído significativo com o sindicato dos atores e ainda reforça a impressão de que o próprio produto não acredita em sua seriedade.
“Segunda Chance” tem muito dos microdramas coreanos, mas não é um dorama, e isso precisa ficar claro. É um drama fácil e simplório, com plots ingenuamente engraçados ou românticos, feitos para que se saiba exatamente o que esperar antes mesmo do início. A falta de surpresas, de novidades ou de criatividade revela o nível baixo de exigência do público que busca esse tipo de narrativa. A Globo, sempre objetiva, entrega aquilo que o mercado demanda. Nos primeiros dias de exibição, a trama teve bom alcance nas redes sociais da emissora.
Reflexo de seu tempo, os microdramas refletem muito da personalidade do público atual que consome dramaturgia. Um público ávido por qualquer coisa, por qualquer história, mas também ávido por superficialidade, por fragilidade narrativa e pela ausência de esforço intelectual. Há uma clara continuidade entre esse público e aquele que, nos anos 70 e 80, consumia fotonovelas e romances de banca de jornal. As fotonovelas acabaram. Os romances ingênuos seguem firmes. A literatura de má qualidade também. E os microdramas, tão compatíveis com esse espírito, devem continuar por muito tempo. Há público para eles e a Globo pensou nisso antes de qualquer outra emissora. Record e SBT, que ainda produzem teledramaturgia, não identificaram essa fatia de mercado e isso só reforça o quanto a Globo está comercialmente anos luz à frente de suas concorrentes.
Paula (Debora Ozório) é uma ex-presidiária (Foto: Divulgação/Globo)
Ainda que haja pessoas que digam que “Tudo por Uma Segunda Chance” tem a cara do SBT, o SBT não se dignou a pensar ou produzir algo parecido. A emissora parece mais preocupada com brigas de ego e com a falta de habilidade de se comportar como empresa comercial, insistindo em agir como uma extensão da família Abravanel.
Ao apostar nesse formato com eficiência industrial, a Globo reafirma sua capacidade de ler o mercado e antecipar movimentos, mesmo quando o produto é frágil e consciente de suas limitações. No fim das contas, é menos sobre a obra em si e mais sobre o espelho que ela oferece: o de um público que não quer esperar, interpretar ou mergulhar — quer apenas rolar o dedo na tela e encontrar, em dois minutos, a emoção possível.
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