*Por Vítor Antunes
Dois temas ocupam, com força quase gravitacional, o centro das discussões públicas. O primeiro é o feminicídio, impulsionado pela sucessão de casos brutalmente noticiados e pela percepção — cada vez mais explícita — de que a violência contra a mulher permanece estrutural, reiterada e, muitas vezes, socialmente racionalizada. O segundo tema emergiu da indústria cultural, mas tocava o mesmo nervo exposto: o sucesso das séries baseadas em crimes reais. O gênero, antes restrito a podcasts especializados e reportagens extensas, tornou-se vitrine das plataformas de streaming.
Um dos títulos mais comentados é “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada”, estrelado por Marjorie Estiano e Emilio Dantas e exibido na HBO Max. A produção revisita o caso que marcou a década de 1970 — o assassinato de Ângela Diniz (1944-1976) e o julgamento de seu namorado, Raul “Doca” Street (1934-2020), cuja defesa alegou “legítima defesa da honra”, reduzindo a pena e transformando a vítima em ré. No elenco, está também Pedro Nercessian, que, embora considere importante participar de uma obra com essa relevância histórica e política, confessa ser um apaixonado por outros formatos.
O ator fala de um entrelugar em que se acostumou a viver. Ele transita por vários países da Europa, embora mantenha endereço fixo em Dublin. As malas, diz ele, nunca estão totalmente prontas; apenas aguardam o próximo deslocamento. Nos últimos meses, fez uma participação na série da Record, “Paulo, o Apóstolo”, e agora grava um longa em Lisboa. Foi da capital portuguesa, em meio às filmagens, que concedeu esta entrevista.
“Pessoalmente, prefiro a ficção e a considero fascinante. Acredito que temos roteiristas tão incríveis que não precisamos nos ater apenas à realidade. Por isso, não sou tão entusiasta da onda do true crime, embora esteja atuando nesse formato, o que pode parecer contraditório. Dentro desse processo, o que me cabe é encarar a história com a responsabilidade que ela exige”.
A fala de Nercessian ecoa uma indagação recorrente entre criadores e espectadores: a linha tênue entre narrar e consumir tragédias reais. Mas, para ele, a série cumpre uma função decisiva. Ela devolve ao debate público a discussão sobre o lugar da mulher — e como esse lugar foi deslocado, tensionado e reconstruído desde o caso Ângela Diniz. “Nos anos 1970 havia uma criminalização total da mulher vítima; hoje existe um novo olhar, com a mulher reinterpretada. O que considero mais interessante não é uma mudança de julgamento. Antes, julgávamos determinadas atitudes como pouco nobres; hoje, julgamos como expressões de liberdade ou como gestos vanguardistas. Mas, de todo modo, houve um crime, e esse crime não é justificável.”

Pedro Nercessian atua em “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada” (Foto: Frances Rocha)
O julgamento continuará existindo; há grupos que, por razões culturais ou religiosas, ainda consideram aquele comportamento um vício. Em alguns ambientes, vivemos um mundo que não está tão distante dos anos 1970. Em outros aspectos, sim, há mudanças. Mas o ponto central que a série pode iluminar não é que o julgamento das atitudes mudou. O que importa é que nada justifica o feminicídio. Ele precisa acabar – Pedro Nercessian
Entre as camadas mais pessoais dessa experiência, há também um reencontro que desloca o ator para outra temporalidade. Foi gravando a série que ele reencontrou Marjorie Estiano, sua parceira de cena na época de “Malhação“, quando formavam um casal que nunca chegou a se concretizar. “Há também o reencontro com a Márjorie, que é algo que o público adora. Fizemos “Malhação” juntos, éramos um casal que não aconteceu, e agora esse reencontro gerou grande euforia. Na série, ela tem uma relação com o Doca, mas eu sou o primeiro encontro dela ao chegar ao Rio, representando essa pulsão de liberdade. De certa maneira, é outro romance que não se concretiza. Não se realiza plenamente porque meu personagem é casado, então não havia muito para onde ir. Mas, pelo menos, desta vez, eles ficam juntos.”

Pedro Nercessian reencontra Marjorie Estiano em “Angela Diniz” (Foto: Frances Rocha)
FUTURO
“O que tenho definido é uma participação em uma série na Record, na mesma linha do meu último trabalho lá, e esse é meu compromisso para janeiro. Até lá, muita coisa ainda deve acontecer aqui. Estou rodando um filme em Lisboa, na Europa. Venho para cá desde o ano passado para aperfeiçoar o inglês, e este ano fiz o mesmo. Algumas sementes que venho plantando há muito tempo finalmente deram frutos. Estou trabalhando com um diretor francês, filho de imigrantes portugueses. Estou feliz porque é um filme essencialmente português, o que me deixa particularmente contente por haver um brasileiro em uma produção que aborda as tradições de Portugal.”
Apesar de manter o passaporte carimbado com frequência, ele insiste que continua ancorado na capital irlandesa. “Eu moro em Dublin; tenho matrícula em uma escola de inglês lá e é onde estão as minhas coisas.” A vida, no entanto, não se restringe a uma cidade. Ele cultiva uma rede informal de hospedagens, quase um mapa afetivo que se estende por diferentes fusos e idiomas. “Ao mesmo tempo, mantenho uma base em Portugal, sempre tenho onde ficar e tenho amigos em diversos lugares do mundo. Fico na casa de amigos e parentes; gosto de ter essa rede e até mantenho uma lista de casas onde posso me hospedar.”
O ator, contudo, não pretende romper seus vínculos com o Brasil, mesmo circulando com desenvoltura pelo Velho Continente. A ideia de retorno é permanente, quase um centro gravitacional. “Não pretendo migrar ou mudar definitivamente; quero expandir. Desejo ter a possibilidade de transitar.” Ele conta que, à distância, o mercado brasileiro às vezes o percebe como inacessível. “Quando estou aqui, muitas pessoas no Brasil dizem: ‘Você está na Europa, não vou te chamar para trabalhar’. Respondo: ‘Em 10 horas estou no Brasil; se quiser, amanhã estou aí para trabalhar’.”
A lógica da carreira, para ele, não se resume a trocar um país por outro, mas a construir um eixo móvel. “Quero essa expansão, mas nem todos compreendem. Essa expansão de carreira é mais importante para mim do que uma migração.” O desejo de permanecer ligado às suas origens aparece como um ponto de insistência. “Não quero sair do Brasil de jeito nenhum. Tenho uma história muito forte com o país e gosto muito do Brasil; quando se sai de lá, isso fica ainda mais evidente.”
HAYASTAN!
Pedro remonta sua linhagem como quem puxa um fio que atravessa deslocamentos, silêncios e memórias herdadas. Assim como o tio, Stepan Nercessian, ele descende de armênios — uma família que, como tantas outras, levou consigo a língua, os hábitos e a ideia de pátria que, em armênio, atende por Hayastan. A origem, para ele, não é apenas anedota genealógica: é matéria viva. O ator descreve sua ligação com esse ramo da família como algo que o acompanha desde cedo, antes mesmo de compreender a extensão histórica que envolvia o sobrenome.
“Minha relação com a Armênia também é bastante intensa, principalmente porque, ao contrário da maioria das pessoas da minha idade, meu vínculo é mais próximo. Muitos da minha geração são netos ou bisnetos dos que viveram o genocídio; eu sou neto. Foram meus bisavós os diretamente associados ao episódio. Ao mesmo tempo, meu contato é muito forte com a diáspora, com essa cultura dos armênios que estiveram aqui, mais até do que com a própria Armênia. Sinto-me mais conectado às pessoas que têm essa história familiar de migração do que aos que permaneceram lá.”
Minha relação se fortalece quando vou a São Paulo ou mesmo próximo à minha casa, onde há armênios que têm um restaurante. Vou me conectando com essa diáspora, talvez mais do que com os armênios da Armênia. A comunidade armênia tem muito carinho por mim, pela minha equipe e por essas vozes artísticas. Sempre que realizo algum trabalho, amigos na Rússia comentam: ‘Há um ator brasileiro também’. Existe esse orgulho, e eles nos têm como uma espécie de porta-voz no mundo artístico – Pedro Nercessian
A Armênia contemporânea vive sob a tensão permanente com seus vizinhos — conflitos que envolvem a Turquia, o Azerbaijão e disputas territoriais cuja crônica se arrasta há décadas. Pedro observa esse cenário com distanciamento crítico, mais histórico que emocional. “Não tomo isso para o lado pessoal; entendo como funcionam as relações de poder e isso não me causa espanto. É quase uma forma de desesperança, uma constatação de que o ser humano funciona assim. Quando todos se mostram chocados com determinado conflito, geralmente há algum interesse em jogo, algum valor ou narrativa a ser construída. É a maneira triste como as coisas operam. Não tenho um sentimento passional sobre essas questões; entendo as razões estudando a história. Talvez seja um misto de desesperança e alívio. Também carrego os problemas do meu próprio país e, ao mesmo tempo, sou parte da diáspora.”

Pedro Nercessian tem ascendência armênia (Foto: Frances Rocha)
Minha conexão com aquela terra não é profunda. Meu avô não tinha facilidade em partilhar a cultura. A irmã de Stepan, por exemplo, fala sete línguas, mas ele não quis ensinar armênio a ela; dizia que seria inútil. Meu avô viu os pais serem assassinados quando tinha dois anos e vagou pelo deserto para tentar sobreviver. Acredito que havia também um impulso de recalcar essa história. Ele mantinha amigos armênios, falava o idioma com eles e frequentava a comunidade, mas não parecia querer impor aos filhos a continuidade dessa cultura – Pedro Nercessian
A ascendência artística, frequentemente tratada como privilégio, ele enxerga com sobriedade. Não a renega, mas tampouco a romantiza. Pedro diz que tirou menos proveito do que poderia, por pudor ou autossuficiência juvenil. “No início da carreira, entre os 18 e os vinte e poucos anos, havia uma pressão interna forte, o desejo de provar ao mundo que eu era realmente bom. Existia antes um olhar desconfiado. Isso aparecia, mas hoje já não. Depois dos 40 anos, isso fica para trás.” Ele reconhece, porém, que o sobrenome abriu portas. “Ainda assim, sempre surge como um facilitador. Acredito que tenha sido um facilitador mesmo, e fico feliz por ter sido. Hoje, gostaria que tivesse sido ainda mais; gostaria de ter pedido mais coisas ao meu avô, que não pedi porque queria provar que podia conquistar sozinho.” A genealogia artística é extensa: o pai, produtor de cinema; a prima, atriz e roteirista; o tio, diretor e responsável por levar Stepan ao cinema. “Cresci literalmente frequentando sets. Sempre tive esse contato com pessoas, e isso me marcou. Foi ele quem me levou ao retiro, que considero a experiência mais importante da minha carreira.”
Fui aos 14 anos, quando ele começou a administrar o local, para estudar e viver ali. Meu pai também esteve lá ajudando. Conheci atores que depois estudei na faculdade, artistas do teatro de revista, pessoas que tinham sido famosas. Foi uma formação prática e intensa, mais rica do que a de muitas instituições formais. Foi um aprendizado de vida sobre a profissão; levei um choque aos 14 anos que me ajudou a manter os pés no chão. Além disso, há as histórias: fugimos do circo, convivemos com artistas de todas as trajetórias. Foi a maior escola que meu tio me deu, sem perceber: ter me colocado no retiro – Pedro Nercessian
Como produtor cultural, Pedro também acompanha o desgaste das discussões públicas sobre políticas culturais, especialmente na internet, onde o debate sobre a Lei Rouanet costuma ser reduzido a slogans e simplificações. “Estamos gastando tanto tempo para defender a importância da lei humanitária que isso tem drenado energia de um trabalho que a classe já vinha fazendo antes da polarização: apontar as falhas. Temos listas e indicações de melhorias, mas precisámos interromper isso para defender sua própria existência. Vivemos um período muito difícil, lutando pelo básico. Não concordo integralmente com a estrutura atual; ela garante grandes produções e deixa nas mãos das empresas e do marketing escolhas que fragilizam pequenos produtores e quem mais precisa. Mas, neste momento, garantir a existência da lei é mais urgente.”
Atualmente, ele conduz um projeto derivado do ensino tradicional, com foco em temas sensíveis enfrentados por jovens. “Hoje realizo um projeto que usa o ensino tradicional. Trabalhamos temas como violência contra a mulher, bullying, depressão — questões importantes. Atuamos com jovens; depois há um grupo de mediação social com psicólogos que conversa com eles. Em seguida, os estudantes desenvolvem obras artísticas — peças, músicas, vídeos — e apresentam aos colegas e à equipe. Ao final do semestre, há uma obra artística consolidada.”

Pedro Nercessian trabalha também como produtor cultural (Foto: Frances Rocha)
A trajetória de Pedro Nercessian — entre o peso da história familiar, a gravidade dos crimes reais que revisita em cena e o fôlego de uma carreira que insiste em atravessar fronteiras — compõe a figura de um artista moldado pelo deslocamento, mas ancorado em certezas mínimas e fundamentais. Ele parece mover-se sempre entre mundos: entre a Armênia e o Brasil, entre Dublin e Lisboa, entre a ficção que o alimenta e a realidade que o convoca. Nesse trânsito, aprende a narrar sem explorar, a revisitar feridas sem transformá-las em espetáculo, a habitar o passado sem se deixar aprisionar por ele. Em meio ao barulho das plataformas, ao fervor das discussões públicas e ao cansaço das velhas violências que insistem em sobreviver, Pedro caminha como quem tenta resgatar — para si e para o ofício — um gesto simples e raro: contar histórias sem esquecer que, em todas elas, há vidas que seguem pulsando.