Pedro Carvalho interpreta Dom Pedro I em ‘Dona Beja’ e revela bastidores de atuar em novelas no Brasil e em Portugal


O ator interpreta Dom Pedro I na nova versão da novela Dona Beja, personagem histórico visto de forma distinta no Brasil e em Portugal. A produção da HBO Max revisita um clássico da teledramaturgia originalmente exibido em 1986 pela Rede Manchete. Pedro Carvalho afirma que buscou uma interpretação própria do imperador, explorando suas contradições humanas e históricas. O ator ganhou projeção no Brasil ao protagonizar “Escrava Mãe”, em 2016, consolidando uma carreira entre Portugal e o mercado brasileiro. Em 2026, ele amplia essa trajetória com novos projetos de cinema e televisão e com iniciativas de sua produtora

*por Vítor Antunes

São muitos os Pedros que atravessam a História do Brasil. O mais conhecido deles talvez seja o que carrega dois números e duas leituras: Dom Pedro I (1798-1834). Para os brasileiros, ele permanece associado à Proclamação da Independência; para os portugueses, é lembrado sobretudo como Dom Pedro IV, o monarca que defendeu a Constituição em meio às turbulências políticas do século XIX. Pai de Dom Pedro II (1825-1891), ele ocupa um lugar singular na história luso-brasileira: é o mesmo homem, mas não exatamente o mesmo personagem em cada país. No Brasil, o retrato consagrado é o do príncipe que rompeu com Lisboa e se tornou imperador. Em Portugal, a memória pública insiste mais no soberano liberal que enfrentou forças absolutistas. Não se trata de uma contradição insolúvel, mas de uma duplicidade histórica. O mesmo indivíduo, observado a partir de margens diferentes do Atlântico, parece adquirir contornos distintos. É essa figura ambígua que reaparece agora na ficção televisiva. Na nova adaptação de “Dona Beja”, o ator português Pedro Carvalho assume o papel do imperador.

A série, produzida pela HBO Max, revisita uma narrativa que há décadas ocupa um espaço particular no imaginário popular brasileiro — uma mistura de romance histórico, intrigas políticas e personagens que parecem maiores que o próprio tempo em que viveram. Ele diz ter encontrado no personagem justamente essa camada de complexidade histórica. “Ele é uma figura histórica muito complexa e, de fato, a percepção dele em Portugal e no Brasil é bastante diferente. Então, interpretar esse personagem exigiu um olhar muito humano sobre ele — não apenas o líder político, mas também o homem apaixonado, impulsivo e cheio de contradições. Foi um trabalho muito rico porque me permitiu explorar essa dualidade histórica e emocional do personagem”.

Pedro Carvalho como Dom Pedro I, em Dona Beja (Foto: Divulgação)

A própria recepção da novela, segundo o ator, tem revelado como essa história continua viva na memória coletiva. Ele acompanha de perto as reações nas redes sociais e nas resenhas publicadas desde a estreia. “Tem sido muito bonito acompanhar a reação do público. Dona Beja é uma história que já faz parte do imaginário popular brasileiro, então existe sempre uma expectativa grande quando ela volta à televisão. Tenho visto muitos comentários nas redes sociais sobre a intensidade dos personagens e sobre a nova leitura que a novela traz. A crítica também tem destacado o cuidado da produção em revisitar esse clássico com uma linguagem contemporânea, sem perder a força dramática da obra. Para nós, atores, é muito gratificante perceber que o público continua apaixonado por essa história”.

A referência inevitável, claro, é a primeira versão da trama. Exibida em 1986 pela Rede Manchete, a novela Dona Beja tornou-se um marco da teledramaturgia brasileira, ajudando a consolidar o estilo mais ousado e visualmente ambicioso que a emissora buscava imprimir às suas produções. Ainda assim, Carvalho preferiu manter uma certa distância interpretativa daquele material. “O ator ressalta que a primeira versão da trama, exibida pela Manchete em 1986, serviu apenas como uma referência pontual. A versão original marcou uma geração. Mas procurei não me prender muito. A versão atual traz um olhar mais contemporâneo sobre as relações de poder, desejo e política da época. Então preferi construir o meu Dom Pedro a partir do roteiro, da direção e da dinâmica com os colegas de cena, respeitando a história, mas trazendo também uma interpretação própria”.

Quando interpretamos um personagem histórico ou uma figura tão emblemática, o mais importante é encontrar a verdade daquela nova leitura – Pedro Carvalho

Pedro Carvalho vive sua trajetória profissional entre Brasil e Portugal (Foto: Gonçalo Claro)

A trajetória de Pedro Carvalho tem se desenhado entre dois polos particularmente férteis da teledramaturgia de língua portuguesa: Portugal e Brasil. São indústrias com histórias distintas, dimensões diferentes e modos próprios de produzir ficção seriada. Ainda assim, compartilham uma mesma vocação narrativa — a de contar histórias longas, emocionais e intensamente centradas em personagens. “São dois mercados muito fortes e com tradições muito próprias. Em Portugal existe uma produção mais compacta, com equipes menores e um ritmo de trabalho diferente. Já no Brasil a indústria é muito maior e tem uma escala impressionante, tanto em termos de produção quanto de alcance de público. Ambos com qualidades artísticas incríveis. Ao mesmo tempo, sinto que hoje existe cada vez mais diálogo entre esses mercados, principalmente com o crescimento das plataformas de streaming. Isso cria oportunidades interessantes para atores que transitam entre diferentes países e idiomas”.

Esse trânsito começou a ganhar forma concreta em 2016, quando o ator desembarcou definitivamente no radar do público brasileiro. Naquele ano, ele protagonizou a novela Escrava Mãe, exibida pela RecordTV. A produção, ambientada no século XIX e concebida como um prelúdio da clássica história de Escrava Isaura, abriu uma porta inesperada para o ator português. Até então, sua carreira se desenvolvia sobretudo na televisão de seu país de origem. Com “Escrava Mãe”, no entanto, o Brasil deixou de ser apenas um mercado eventual e passou a se tornar uma possibilidade concreta de base profissional.

“‘Escrava Mãe’ foi realmente um marco para mim. Foi o meu primeiro grande protagonista no Brasil e um projeto que teve uma repercussão muito grande, inclusive internacionalmente. A partir dali comecei a receber outros convites e percebi que havia espaço para construir uma trajetória consistente no país. O Brasil tem uma tradição de teledramaturgia muito forte e um público extremamente apaixonado pelas histórias e pelos personagens. Com o tempo, fui criando uma ligação muito natural com o mercado brasileiro, tanto profissionalmente quanto afetivamente. Hoje sinto que minha carreira acontece justamente nesse trânsito entre Portugal e Brasil, o que para mim é muito enriquecedor.”

Pedro Carvalho estreou nas novelas brasileiras em “Escrava Mãe” da Record (Foto: Gonçalo Claro)

A convivência prolongada com os dois universos acabou moldando uma espécie de identidade profissional híbrida. Carvalho se move entre Lisboa e produções brasileiras com relativa naturalidade — um movimento que, até alguns anos atrás, era menos frequente para atores da televisão portuguesa. O crescimento das plataformas de streaming e das coproduções internacionais ajudou a tornar esse fluxo mais comum. O ano de 2026, ao que tudo indica, consolida esse momento de expansão. Enquanto aparece na televisão brasileira na nova versão da novela Dona Beja, o ator também investe em projetos autorais e em produções voltadas para o audiovisual internacional. Parte desse trabalho acontece por meio de sua produtora, a Gato Pingado:

“Este está sendo um ano muito interessante para mim, porque reúne diferentes frentes da minha carreira. Temos ‘Dona Beja’ no ar, sigo também envolvido com projetos de cinema e televisão através da minha produtora, a Gato Pingado. Temos dois longas em desenvolvimento, ‘Match Real’ e ‘Maria Soldado’, ambos com uma abordagem muito autoral. Paralelamente, finalizei recentemente as filmagens de ‘A Versão da Lei‘, dirigido por Ninna Fachinello, onde interpreto o antagonista, com data de estreia prevista para o segundo semestre deste ano, e participei da sexta temporada da série ‘Impuros’, que deverá estrear ainda este semestre na Disney+, ambos para o mercado brasileiro. O meu objetivo neste momento é consolidar cada vez mais essa ponte entre Europa e Brasil e ampliar essa presença em produções internacionais.”

Ao interpretar Dom Pedro I — o mesmo homem que em Portugal atende por Dom Pedro IV —, Pedro Carvalho acaba encarnando uma figura que, de certa maneira, espelha o próprio movimento de sua carreira. O personagem histórico atravessou o oceano entre duas narrativas nacionais; o ator atravessa hoje duas indústrias que também se observam de margens diferentes. No encontro entre ficção e biografia, o que emerge não é apenas mais uma versão de um imperador célebre, mas a lembrança de que certas histórias — e certos intérpretes — parecem existir justamente nesse espaço intermediário onde Portugal e Brasil continuam, dois séculos depois, a se reconhecer um no outro.

FOTÓGRAFO: Gonçalo Claro
ASSISTENTE DE FOTOGRAFIA: Manuel Abelho
PRODUTORA DE MODA E STYLIST: Simonne Doret
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO DE MODA: Alice Alavedra
MAKEUP & HAIRSTYLIST: Helen Munro