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“Os Dez Mandamentos”: trama da Record estreia contando a história de Moisés, enquanto a bancada evangélica ataca sua concorrente

Vendida ao público como “primeira novela bíblica da TV”, folhetim anotou 12 pontos na audiência e começou dando motivos para o telespectador acompanhá-lo

Publicado em 24/03/2015 | Por João Ker

*Com Lucas Rezende

A famosa história bíblica de Moisés é o fio condutor de “Os Dez Mandamentos”, folhetim que a Rede Record estreou na noite desta segunda-feira (23) no seu novo horário de novelas (às 20h30). De forte apelo religioso, a trama chega à casa dos brasileiros justamente na semana em que se inicia com força total um movimento da Frente Parlamentar em Defesa da Família Brasileira para que se boicote por 35 dias a trama da concorrente, “Babilônia” (TV Globo), um primor de folhetim como você viu aqui. Uma boa briga entre o sagrado e o profano. 

Se de um lado, a trama de Ricardo Linhares, João Ximenes e Gilberto Braga é injustamente atacada com um discurso de ódio por desmoralizar a família brasileira e pregar a homossexualidade com um beijo gay entre as personagens de Fernanda Montenegro e Nathália Timberg (como você já viu aqui), do outro, a emissora do Bispo Edir Macedo conta com a sorte de estrear em um terreno minado, justamente em um momento onde o conservadorismo clama por ter seus ideais expostos na tevê.

Com mais 149 capítulos pela frente, “Os Dez Mandamentos” será dividida em quatro etapas para contar a conhecida saga de Moisés, escrita nos livros Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, da Bíblia Sagrada. A trama narra a vida do menino que sobreviveu a uma chacina comandada pelo poderoso Faraó Seti (Zécarlos Machado – “o nome” do capítulo), querendo dar fim ao povo hebreu. A ironia do destino leva Moisés a ser adotado pela filha do Faraó, Henutmire (até então encarnada por uma doce Mel Lisboa). Esse fato é apenas o começo de uma trajetória até o encontro de Moisés com Deus no Monte Sinai para dar origem aos mandamentos que intitulam a trama. Grandes passagens religiosas como a abertura do Mar Vermelho, a chegada dos hebreus à Terra Prometida e as Dez Pragas do Egito dão tom à produção.

Zecarlos Machado como o terrível Faraó Zeti de "Os Dez Mandamentos" (Foto: Divulgação)

Zecarlos Machado como o terrível Faraó Zeti de “Os Dez Mandamentos” (Foto: Divulgação)

Qualquer semelhança com obras do mesmo gênero da emissora, como “A História de Ester”, “José do Egito” ou “Rei Davi”, não são mera coincidência. Todas estão sob a batuta de Viviane de Oliveira que, depois de colaborar com o roteiro de “Show do Tom” e “Os Mutantes”, embarcou pela verve que mais agrada à alta cúpula: a religiosa. Por mais que esteja apoiada sob uma obra antiga, rica em detalhes e que facilmente ganha ares de novelão, a trama ainda carece de grandes diálogos, com um texto, até então, raso. Gravar os nomes dos personagens (Zípora, Joquebede e Nefertari) é tarefa difícil, mas o bom senso com o linguajar da época prevaleceu.

As locações de "Os Dez Mandamentos" incluem o Deserto do Atacama (Chile), além do do Monte Sinai, Rio Nilo e Mar Vermelho (Egito) (Foto: Divulgação)

As locações de “Os Dez Mandamentos” incluem o Deserto do Atacama (Chile), além do do Monte Sinai, Rio Nilo e Mar Vermelho (Egito) (Foto: Divulgação)

Com cada capítulo orçado em R$ 700 mil – já que são 28 cenários e uma cidade cenográfica com mais de 7 mil m² – , “Os Dez Mandamentos” é um suprassumo dos rostos mais conhecidos do casting do RecNov: Sérgio Marone, Camila Rodrigues, Gisele Itié, Mel Lisboa, Samara Felippo, Larissa Maciel e Denise Del Vecchio. Com um figurino impecável – carregado de makes com olho de gato, túnicas e saiotes – e um cenário fidedigno ao Egito de 1300 a.C – as vilas dos hebreus dão um quê de déjà vú em quem acompanhou outras produções da casa -, a trama já chegou colocando o pé na porta com uma chacina de bebês hebreus pelo exército egípcio que, sem dúvida, fisgou o telespectador, ainda nos primeiros minutos, e os convenceu a dar uma chance à história dirigida por Alexandre Avancini (de “Presença de Anita” e “Kubanacan”).

Roger Gobeth e Samara Felippo em cena de "Os Dez Mandamentos" (Foto: Divulgação)

Roger Gobeth e Samara Felippo em cena de “Os Dez Mandamentos” (Foto: Divulgação)

Prova disso foram os números de audiência. Por mais que tenha fechado os índices com 12.1 pontos, sendo alcançado no empate por alguns poucos minutos pelo SBT, “Os Dez Mandamentos” conseguiu fazer com que William Bonner e Renata Vasconcellos abrissem apenas 13 pontos de diferença, anotando um dos piores números do ano. O elenco que causou esse reboliço na noite de estreia não sobreviverá até a segunda etapa, quando nomes como Lisandra Souto, Paulo Gorgulho, Benvindo Siqueira e Vera Zimmermann assumirão as rédeas, com um Moisés já crescido e o enredo adiantado.

Sérgio Marone em cena de "Os Dez Mandamentos", a nova novela da Rede Record (Foto: Divulgação)

Sérgio Marone em cena de “Os Dez Mandamentos”, a nova novela da Rede Record (Foto: Divulgação)

A estreia serviu para mostrar que “Os Dez Mandamentos” é uma boa opção para ampliar o leque do horário que, além dos noticiários, conta com um novelão dublado turco e duas novelinhas para o público teen. O investimento alto valeu, já que tanto o elenco que estreou quanto aquele que está por vir tem currículo, isso sem falar na audiência receptiva. Por si só, a história de Moisés já é um acontecimento, o que facilita (e muito) o discorrer de um bom produto. O telespectador de bom gosto – conservador ou não – tem motivo para comemorar e aquecer os motores do horário nobre porque, é bom lembrar, logo na seqüência há Fernanda Montenegro e Nathália Timberg, lembrando que a realidade contemporânea também é coisa de boa novela.

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