O santo graal dos colecionadores: últimas novelas com trilhas lançadas em cassete e cartuchos? Veja quais foram


O ressurgimento do interesse por mídias analógicas, impulsionado pela “anemoia” e pelo colecionismo, reacendeu a busca pelas raras trilhas de novelas lançadas em fitas cassete e cartuchos Stereo 8. Pesquisas indicam que Corpo Dourado – Internacional (1998) foi a última trilha oficialmente lançada em cassete, embora a falta de catalogação padronizada e a circulação de cópias piratas impeçam uma confirmação definitiva. Já nos cartuchos Stereo 8, formato popular apenas entre o início dos anos 1970 e 1975, a novela Gabriela é apontada como o último lançamento conhecido. O levantamento também identifica dez títulos da TV Globo e um da TV Tupi editados nesse formato, com registros preservados no acervo do colecionador Alceu Massini

*por Vítor Antunes

Muito provavelmente as novas gerações nunca ouviram a frase “não devolva a fita sem rebobinar” e, menos ainda, conseguem estabelecer a relação entre uma caneta esferográfica e uma fita cassete. Para quem cresceu consumindo música em formatos analógicos, porém, essa associação é imediata: Colocar a fita no ponto inicial sem levar ao toca-fitas. Formato popular até os anos 90, os álbuns eram lançados neste formato, bem como as trilhas de novelas. Entre os colecionadores, é consenso que a primeira trilha da Globo lançada em vinil foi Véu de Noiva (1969), enquanto a última foi A Indomada – Volume 1. Tão raro é esse disco que exemplares podem alcançar mais de R$ 4 mil no mercado de colecionadores. Quando o assunto são as fitas cassete, entretanto, o cenário é bem diferente. Não existe consenso nem sobre qual foi a primeira trilha lançada nesse formato, tampouco sobre qual foi a última.

A trilha sonora internacional de “Corpo Dourado” foi a últuima trilha aser lançada em cassete (Foto: Reprodução/Globo)

A trilha sonora em cassete mais antiga localizada até o momento foi identificada pelo autor de telenovelas, colecionador e pesquisador Vincent Villari, coautor do livro Teledrama. Trata-se da trilha da novela Antônio Maria, da TV Tupi, lançada em 1968. No caso da Globo, estima-se que uma das primeiras novelas a ganhar trilha sonora em cassete tenha sido Irmãos Coragem, de 1970. Ainda assim, o lançamento de fitas cassete só se tornou sistemático a partir de meados da década de 1970.

Segundo Vincent Villari, a última novela a ter sua trilha sonora lançada oficialmente em cassete foi Corpo Dourado – Internacional. Até o momento, há apenas um registro em vídeo dessa fita no YouTube, no canal “Raridades da Som Livre”. Um detalhe que reforça sua singularidade é que o número de catálogo da fita é diferente do utilizado no CD. Além disso, na contracapa do CD — espaço em que a Som Livre costumava informar a disponibilidade da trilha em outros formatos — não há qualquer indicação de lançamento em cassete. Fora isso, ainda há um erro: o ano que consta na fita é 1997, e não 1998.

Trilha sonora de “Corpo Dourado”, nacional e internacional e o registro do cassete da trama de 1998 (Foto: Reprodução)

Esses indícios revelam uma realidade comum no mercado fonográfico dos anos 1990: as catalogações ainda não eram unificadas, o que dificulta determinar, com absoluta precisão, qual foi a primeira e qual foi a última trilha sonora de novela lançada em cassete. Considerando que as trilhas internacionais costumavam chegar às lojas no terço final da exibição das novelas e que Corpo Dourado permaneceu no ar até agosto de 1998, é possível estimar que as últimas trilhas sonoras em cassete tenham sido lançadas no início do segundo semestre daquele ano.

A ausência de uma catalogação oficial padronizada, contudo, não é o único obstáculo para esse levantamento. Soma-se a ela o grande volume de fitas piratas e de réplicas não oficiais produzidas na época. Essas cópias continuaram circulando e sendo fabricadas, ao menos, até 2001, tornando ainda mais complexa a identificação dos verdadeiros últimos lançamentos oficiais em cassete.

Gerson Brenner e Danielle Winits em ‘Corpo Dourado’

CARTUCHOS DE OITO PISTAS

Algumas novelas brasileiras tiveram suas trilhas sonoras lançadas em cartuchos Stereo 8, também conhecidos como cartuchos de oito pistas. Em linguagem simplificada, trata-se de um formato de fita magnética semelhante ao cassete, embora com tecnologia e funcionamento diferentes. Sabe-se que as trilhas de O Cafona, Selva de Pedra e Bandeira 2 foram comercializadas nesse formato. No entanto, ainda não foi localizada uma catalogação precisa que permita identificar, com segurança, quantas e quais novelas receberam lançamentos em Stereo 8.

As evidências disponíveis indicam que apenas as trilhas lançadas entre o início da década de 1970 e 1975 foram disponibilizadas nesse formato. O registro mais recente localizado até o momento é o da trilha de Gabriela (1975), o que sugere que esta tenha sido a última novela brasileira a ter sua trilha sonora lançada em cartucho Stereo 8. A principal empresa responsável por esse tipo de lançamento foi a Tapecar, fabricante que encerrou suas atividades no início da década de 1980.

Novela “O Homem que Deve Morrer”, em cartucho de oito pistas (Foto: Reprodução/Flickr Alceu Massini)

Novela “Gabriela”. Possivelmente a última a ser lançada em cartucho (Foto: Reprodução/Flickr Alceu Massini)

Novela “O Bofe” em cartucho de 8 pistas (Foto: Reprodução/Flickr Alceu Massini)

Novela “Escalada”. Uma das últimas trilhas lançadas em cartucho (Foto: Reprodução/Flickr Alceu Massini)

Novela “O Cafona”. Primeira trilha lançada pela Som Livre, em cartuchos (Fotoi: Reprodução/Flickr Alceu Massini)

O Stereo 8, porém, nunca conquistou um mercado expressivo no Brasil. Seu público era formado principalmente por proprietários de automóveis equipados com aparelhos compatíveis, além de alguns entusiastas de equipamentos de áudio. As tiragens eram reduzidas, muitas vezes inferiores às dos LPs. Com a popularização da fita cassete, entre 1974 e 1976, o formato entrou rapidamente em declínio e praticamente desapareceu do mercado. Como curiosidade, diversos discos lançados pela CBS nos anos 1970 — incluindo títulos de Roberto Carlos — traziam na contracapa a informação de que também estavam disponíveis em “mini-tape e cartucho”.

Trilha de “Supermanoela” ligeiramente diferente da capa do vinil (Foto: Reprodução/Flickr/Alceu Massini)

Trilha de “Toninho on The Rocks”, da Tupi (Foto: Reprodução/Flickr/Alceu Massini)

No caso das trilhas de novelas, foi possível localizar, até o momento, apenas um lançamento da TV Tupi, Toninho on the Rocks, e dez títulos da TV Globo: O Cafona (Nacional), Gabriela, Selva de Pedra (Nacional e Internacional), Bandeira 2 (Nacional), O Bofe (Nacional), O Semideus (Internacional), Supermanoela (Nacional), Escalada (Internacional) e O Homem que Deve Morrer. Esse levantamento, embora ainda não possa ser considerado definitivo, reforça a hipótese de que Gabriela, concluída em outubro de 1975, tenha sido a última novela a ter sua trilha sonora editada em cartucho Stereo 8. Todos os registros fotográficos utilizados neste levantamento pertencem ao acervo do colecionador Alceu Massini, que reúne um dos mais importantes e abrangentes catálogos de cartuchos Stereo 8 dedicados à música brasileira.