“O que aconteceu com Mordomo Eugênio?”:Personagem de ‘Vale Tudo’ é uma “ponta” e não faz jus ao talento de Luís Salém


Na clássica novela ‘ Vale Tudo ‘de 1988, o mordomo Eugênio era um personagem culto e cinéfilo, que via o mundo sob a ótica dos grandes filmes de Hollywood. Na versão de 2025, foi reduzido a um servo protocolar. A promessa de atualizá-lo como leitor de gibis nunca se concretizou — nem cinema, nem quadrinhos, nem vida. Luís Salém, ator talentoso, virou figuração de luxo, num papel amputado por um roteiro que falha na construção de seus coadjuvantes. A novela, embora popular e cheia de memes, é irregular e oscila entre bons momentos e escolhas desastrosas. A pergunta que fica não é mais o que terá acontecido a Baby Jane?, mas o que fizeram com Eugênio?

*por Rodrigo Otávio

Um dos pilares do cinema gótico norte-americano e relíquia incontornável da era de ouro da Warner Bros., “What Ever Happened to Baby Jane?” (1962) permanece como um monumento ao grotesco, à decadência e ao narcisismo senil que ronda os bastidores de Hollywood. Dirigido por Robert Aldrich (1918-1983) e estrelado por Bette Davis (1908-1989) e Joan Crawford (1904-1977),  o filme é um marco não apenas pela tensão de bastidores, mas por sua estética sombria e seu mergulho claustrofóbico na ruína psíquica de duas atrizes veteranas aprisionadas pela fama passada e pelo ódio mútuo. Em 1988, a novela “Vale Tudo” prestava um singelo, porém refinado tributo à velha Hollywood por meio de um de seus personagens mais deliciosamente excêntricos: o mordomo Eugênio, interpretado por Sérgio Mamberti (1939-2021). Culto, cinéfilo, e de humor ácido, Eugênio via o mundo como uma sala de exibição eterna. Em sua boca, nomes como Audrey Hepburn (1929-1993) e James Dean (1931-1955) escapavam com reverência. Tudo era metáfora cinematográfica e cada situação era enxergada como uma cena clássica reinterpretada em tempo real.

Corta para 2025. A nova versão de “Vale Tudo”, traz de volta o mordomo Eugênio — agora interpretado por Luís Salem, no mesmo papel. Seu repertório foi reduzido a um loop de frases burocráticas: “O almoço está servido, Dona Heleninha” ou “Doutor Marco Aurélio está a caminho, Dona Odete”. Acabou-se o brilho. O que era charme virou protocolo. Eugênio foi apagado dramaturgicamente. E Salem, ator de grande talento, encontra-se numa missão inglória: dar vida a um personagem sem alma. Como se estivesse tentando extrair nuances de uma colher de plástico.

Estamos no capítulo 108 de um total previsto de 173. Ou seja, restam cerca de 65 capítulos para que Eugênio tente renascer em cena — ou continue sendo ofuscado por subtramas delirantes envolvendo morangos-do-amor, bebês reborn e outras excentricidades que a direção insiste em empurrar como “ousadia estética”

“O Que Terá Acontecido ao Mordomo Eugênio?” – A releitura que a IA dá ao personagem de “Vale Tudo”, caso ele fosse parte do filme clássico (Foto: Divulgação/Manipulada por IA)

E há uma questão delicada aqui, frequentemente varrida para debaixo do tapete: a assexualidade presumida do personagem. Na versão original, Eugênio soltava, vez ou outra, um comentário sobre “admirar os rapazes na praia” — o suficiente para insinuar desejos reprimidos, ou, quem sabe, apenas uma sensibilidade diferente.  Agora, na releitura 2025, Eugênio foi castigado com a dessexualização completa, tornado um servo neutro e permanentemente à disposição dos patrões da mansão Roitman.

Ele não deseja, não reage, não existe. Diferente de Audálio/Poliana, personagem de Matheus Nachtergaele que assume abertamente sua assexualidade, Eugênio parece condenado à invisibilidade afetiva — preso num limbo de silêncio e formalidade. E não apenas perdeu suas referências, sua identidade e sua voz, como também foi esvaziado de qualquer pulsão subjetiva. É o personagem mais assexual da novela — não por escolha estética ou identidade narrativa, mas por simples descaso de roteiro.

Sim, estamos em outros tempos. Sim, não se trata de repetir o passado. Mas há uma diferença entre atualizar e amputar. Ao neutralizar Eugênio, a nova “Vale Tudo”  trai a inteligência com que o personagem foi concebido: um mordomo que, mesmo nas margens da trama, carregava em si o peso de uma cinemateca e a leveza de um olhar irônico sobre a hipocrisia, inclusive da própria patroa, Odete (Beatriz Segall [1926-2018]).

De acordo com um levantamento do site Heloisa Tolipan, a nova versão de “Vale Tudo” teria decidido reinventar o mordomo Eugênio como um aficionado por histórias em quadrinhos. A ideia, no papel, parecia minimamente interessante: substituir as referências a Bette Davis e James Dean por acenos à cultura pop nerd, deslocando o personagem para um registro contemporâneo. Mas nem isso aconteceu. Nem gibis, nem cinema, nem nada. Eugênio, na prática, foi transformado em ruído de fundo. Um fantasma bem vestido servindo café e frases protocolares na mansão Roitman.

Sérgio Mamberti e Nathalia Timberg em “Vale Tudo” (Foto: Divulgação/Globo)

Talvez aí resida uma das mais visíveis rachaduras dessa novela que, ao mesmo tempo em que não é ruim, também não é exatamente sólida. Talvez “irregular” talvez seja o adjetivo mais justo: um produto que oscila entre momentos brilhantes e soluções constrangedoras, que acerta nos memes, no elenco e na força simbólica de algumas personagens — e erra, com a mesma intensidade, na coerência narrativa e no uso de coadjuvantes com potencial desperdiçado.

Sim, “Vale Tudo” 2025 ganhou as ruas e as redes. Fátima (Bella Campos) tornou-se um case de sucesso, e hashtags virais. Odete Roitman (Débora Bloch) voltou a ser o destaque da trama, com sua perspicácia, acidez, tesão e “regras de etiqueta”. Já noticiamos aqui os reflexos sociais da novela: do aumento nos pedidos de pensão alimentícia à proliferação de teorias conspiratórias no X (ex-Twitter). A novela, sem dúvida, movimenta. Mas movimentar não é necessariamente construir.

E é exatamente na construção – ou na falta dela – que Eugênio foi triturado. O personagem, que em 1988 era sutil, afiado e cheio de texturas, virou agora um enfeite de cena com direito a nome nos créditos. Luís Salém, ator que tem fôlego e repertório para muito mais, foi injustamente convertido em figuração de luxo. O mesmo destino, aliás, parece assombrar o ótimo Luis Melo, confinado ao papel de Bartolomeu.

Triste ironia: na versão original, Eugênio era um observador do mundo, alguém que via no cotidiano os enquadramentos de um clássico. Agora, nem coadjuvante ele é — é um móvel silencioso numa novela onde até os morangos-do-amor e os bebês-reborn têm mais tempo de tela e mais dramaticidade. No fim das contas, a pergunta que se impõe já não é mais O que terá acontecido a Baby Jane?, mas sim: o que fizeram com Eugênio?