*por Vítor Antunes
A sucateira voltou das cinzas — e com pompa de relançamento. O Vale a Pena Ver de Novo reabre espaço para Rainha da Sucata, novela de Silvio de Abreu que, desde 1990, mantém um lugar peculiar na memória afetiva dos noveleiros. Naquele ano, o folhetim protagonizado por Regina Duarte foi ao ar pela primeira vez e se transformou em um sucesso imediato, ainda que obrigado a dividir o horário nobre com um adversário formidável: Pantanal, da Manchete, que se tornaria um fenômeno nacional. A produção também foi marcada por episódios que extrapolaram a tela. Claudia Raia, que viveu Adriana Ross, provocou escândalo ao aparecer nua em uma das cenas — e à época, a imprensa tratou o assunto como se o país tivesse parado. A atriz contou, anos depois, ao Jornal do Brasil, que havia engordado para o papel, interpretando “a bailarina da coxa grossa”. O público, porém, reagiu mal: “diziam que eu estava gorda”, recordou. Raia acabou pressionada a emagrecer, o que levou Silvio de Abreu a adaptar o roteiro para acompanhar a transformação física da personagem.
O tempo tratou de manter Rainha da Sucata em circulação. Ganhou lançamento em DVD em 2015 — um box de 12 discos vendido pela Loja Globo — e, quase uma década depois, em 7 de outubro de 2024, desembarcou no Globoplay, dentro do chamado Projeto Resgate, que vem recuperando obras clássicas da teledramaturgia. A trajetória de reprises também é notável: retornou ao ar em 1994, no mesmo Vale a Pena Ver de Novo, com 145 capítulos, e novamente em 2013, no canal Viva, ocupando a faixa da meia-noite. Agora, a novela chega à segunda reapresentação, reafirmando o status de peça-chave da era de ouro da televisão brasileira.
Nos bastidores, histórias curiosas também circularam. José Wilker chegou a ser cogitado para o elenco, mas sua participação nunca se concretizou. E, segundo relatos da época, a própria Globo torceu o nariz para a abertura da novela — hoje um ícone kitsch —, na qual uma boneca de sucata dança lambada. Reza a lenda que Rainha da Sucata “perdia para Pantanal”. A lenda, porém, é imprecisa. A novela de Abreu manteve índices sólidos, e a Globo investiu pesado para sustentar o interesse: vinhetas de autopromoção durante os intervalos da própria trama e capítulos mais longos, em meados de junho de 1990, sem sequer exibir a vinheta de encerramento. Ainda assim, o Jornal do Brasil registrou derrotas pontuais, como a de 8 de maio de 1990, quando a Manchete superou momentaneamente a emissora.
Algumas das novidades eram o retorno de Sidney Magal, que à época assinava apenas Magal, aos estúdios depois de sete anos para gravar o tema de abertura da novela. No campo musical, Rainha também teve a estreia de Adriana Calcanhotto, que chegou à trilha da novela após fazer sucesso no festival de Montreux, na França. Sua música era “Naquela Estação”. Como havia uma academia de lambada – a Lambateria Sucata – na trama, as cenas em que se dançava o ritmo que dominou o fim dos anos 1980 e o início dos 1990 eram coreografadas por Carlinhos de Jesus.
Córa Rónai, do JB, era uma das que não via Rainha da Sucata com bons olhos: “Rainha é uma novela engraçada e cheia de ideias, muitas das quais despudoradamente colhidas no cinema, mas peca pela falta de sutileza. Tudo é exagerado”. E, ao comparar a trama global com a da Manchete, dizia que “não entendo nada de Pantanal, mas diante dessa natureza deslumbrante e desconhecida, qualquer imagem do Rio ou de São Paulo fica com um ranço de arquivo”.

Nilton Nunes e a lambadeira de sucata. Abertura teria sido reprovada pela Globo na época (Foto: Divulgação/Globo)
DA GUERRA DOS SEXOS À GUERRA DE CLASSES
Por trás das câmeras, Rainha da Sucata também foi a estreia de Silvio de Abreu no cobiçado horário das oito. Ele contou com o auxílio de Alcides Nogueira e a consultoria de Danuza Leão (1932–2012), que ajudava a moldar o comportamento e o figurino dos personagens. Uma curiosidade de bastidor: uma personagem originalmente escrita como uma italiana expansiva foi transformada em uma armênia, homenagem à origem de Aracy Balabanian (1940–2023). A atriz se inspirou nos pais, Raphael e Ester, para criar Dona Armênia, a matriarca histriônica que transitava entre o cômico e o vilanesco — e que, tamanha era sua força, migraria dois anos depois para outra novela, Deus nos Acuda (1992).

Aracy Balabanian é Dona Armênia (Foto: Divulgação/Globo)
O próprio Silvio de Abreu, em sua biografia “Um Homem de Sorte”, da coleção Aplauso, contou que o início da novela foi conturbado. “Estreou com 30 capítulos escritos e, já na segunda semana, senti que não tinha engrenado. A audiência era boa, o público parecia se divertir, mas ninguém comentava. E sou da opinião que novela deve ser como catapora: precisa pegar.”
A comparação não era gratuita. Rainha da Sucata estreou em um Brasil recém-assombrado pelo Plano Collor: Fernando Collor de Mello havia acabado de assumir a presidência e congelado as contas bancárias da população. O confisco do dinheiro tornava anacrônico o enredo de uma novela centrada justamente na ascensão e queda do “vil metal” — a disputa entre uma família quatrocentona falida e outra, cafona e endinheirada, símbolo da nova elite emergente. “Tive de reescrever vários capítulos”, contou o autor. “O confisco inviabilizava personagens que aplicavam no over, negociavam em dólar. E os capítulos iniciais já estavam gravados.”
As reescritas foram feitas às pressas, numa corrida para adequar a ficção à nova realidade econômica. Quando Rainha estreou com personagens reclamando do dinheiro preso, os jornais sugeriram que a Globo sabia do confisco e não avisara o público. “Foi um boato maldoso e infundado”, disse Abreu. “Criou uma má vontade enorme com a novela. A reação da crítica também não foi generosa: manchetes questionavam sua capacidade de conduzir uma trama no horário nobre. “Diziam: ‘Como é que ele não quer mais fazer chanchada? Ficou pretensioso e quer fazer novela das oito’. Mas numa carreira, é fundamental não ter medo de se lançar a novos desafios. Há que se fazer de tudo”.
O autor de Rainha da Sucata atravessava o sucesso – e o fracasso – ao mesmo tempo. Silvio de Abreu, na biografia Um Homem de Sorte, conta que, enquanto tentava compreender a recepção morna do público, assistia à ascensão de Pantanal, novela de Benedito Ruy Barbosa exibida pela Rede Manchete. “Com tanta coisa contra e ainda sentindo a fria recepção do público, tive de enfrentar o crescimento de Pantanal, a excelente novela da Manchete. Eram tempos de ‘vamos derrubar a Globo’, e todos os elogios iam para a concorrência — que, assim como a minha, era um ótimo programa.”
Silvio reconhecia o jogo estratégico do rival: a Manchete esperou Rainha da Sucata estrear e estabilizar para depois colocar Pantanal no ar, ocupando o horário seguinte e herdando o público que deixava a Globo. “Ganhava cada vez mais audiência na linha de shows”, escreveu. “Só competia conosco no prestígio junto à imprensa”. Mas a disputa televisiva era apenas uma parte do turbilhão. Logo após entregar a sinopse da novela, Silvio foi atingido por uma tragédia familiar. “Ubaldo, meu irmão, teve uma infecção no cérebro e voltou para o Brasil quase sem esperanças de vida. Vê-lo perder os movimentos, a fala e a visão me acabava dia a dia”.
Enquanto escrevia uma novela sobre ascensão e queda, o autor enfrentava o colapso dentro de casa. Cuidava dos pais idosos e tentava manter alguma ordem emocional, enquanto buscava um colaborador de texto que nunca aparecia. “Tentei várias pessoas, nenhuma engrenava”, recordou. A tecnologia também parecia conspirar contra ele: Rainha da Sucata foi a primeira novela que escreveu em computador, e o aparelho, segundo Silvio, “sumia com capítulos inteiros a cada queda de energia”. “Era uma máquina infernal”, resumiu. Entre colapsos familiares e travamentos digitais, o autor manteve a novela viva — mas sentia que algo não se encaixava. “Sem tempo para raciocinar, mantinha tudo em fogo brando. Fazia cenas cotidianas, paralelas, esperando a hora de mergulhar na história principal.”
O diagnóstico veio de Gilberto Braga, amigo e colega de ofício. Por volta do capítulo 50, ele ajudou Silvio a reencontrar o eixo da trama. A partir daí, Rainha da Sucata mudou de temperatura: a comédia que havia dominado o início cedeu espaço ao drama, centrado em Maria do Carmo (Regina Duarte), Edu (Tony Ramos) e Laurinha (Glória Menezes). “O riso não foi abandonado”, explicou Silvio. “Ficou para outro núcleo — o de Dona Armênia (Aracy Balabanian) e suas ‘filhinhas’, Nicinha (Marisa Orth), Caio (Antônio Fagundes) e Adriana (Claudia Raia). O resultado foi um equilíbrio improvável entre tragédia e pastelão. A audiência respondeu. O público, que hesitara no início, aderiu de vez quando Edu e Maria do Carmo se casaram — e ele se recusou a dormir com ela. A recusa, gesto de humilhação e virada dramática, selou o pacto da novela com a plateia.

Tony Ramos em “Rainha da Sucata” (Foto: Divulgação/Globo)
Por volta do centésimo capítulo de Rainha da Sucata, Silvio de Abreu finalmente encontrou o respiro que tanto buscava. “Consegui, enfim, o talento profissional que eu precisava ao meu lado”, recorda. O nome era Alcides Nogueira — dramaturgo preciso, de humor refinado e hábitos noturnos. Silvio descreve o encontro como uma espécie de recompensa tardia, um alívio depois do caos que havia marcado os primeiros meses da novela. “Profissional irreparável, amigo carinhoso, escritor criativo”, anota, em tom de gratidão. As diferenças entre os dois se tornaram método: Alcides escrevia à noite; Silvio, de dia. A engrenagem se montou sozinha.
O ritual era quase militar. Silvio acordava às seis da manhã, recebia o capítulo que Alcides havia escrito de madrugada, revisava o texto, incluía os próprios trocadilhos e planejava a sequência seguinte. Ao cair da noite, devolvia o novo material, que Alcides transformava em cena enquanto o autor principal dormia. “Era um ciclo perfeito”, diria depois. Nesse ponto, Rainha da Sucata já tinha virado febre nacional. O país repetia o bordão de Dona Armênia — “Na chon!”, imitando o sotaque inventado de Aracy Balabanian. Mulheres copiavam a franja de Maria do Carmo, interpretada por Regina Duarte, e os índices de audiência subiam com a mesma constância dos sprays de laquê. “Foi um período tranquilo e agradável”, escreveu Silvio. “A novela estava firme no gosto popular. Era a segunda grande crise da minha carreira, mas eu sabia que outras ainda viriam.”
Nos bastidores, o processo de escrita já experimentava o futuro: Rainha da Sucata foi uma das primeiras novelas da Globo redigidas em computador. Mas a tecnologia, ainda rudimentar, criava gargalos insólitos. Não havia como transmitir os capítulos diretamente aos estúdios, e qualquer contratempo nas gravações obrigava a paralisação total das filmagens no Rio de Janeiro. A equipe esperava, literalmente, o dia seguinte — o tempo que Silvio precisava para reescrever e reenviar as cenas alteradas.
Entre quedas de energia, bordões onipresentes e madrugadas alternadas, Rainha da Sucata encontrava seu ritmo. Uma novela escrita em turnos, movida por cafeína, paciência e pela sensação — quase industrial — de que, no Brasil de 1990, até o melodrama precisava ser produzido em série.