No mês de conscientização sobre HIV/AIDS, Haysam Ali impacta plateias nos EUA com peça que escancara o estigma social


O ator é o único brasileiro na montagem de “Angels in America’, em cartaz em Los Angeles. Ele revisita o estigma da epidemia da Aids ao interpretar um personagem soropositivo e lembra o impacto devastador do AZT nos anos 1980 e a persistência do preconceito, apesar dos avanços científicos. De família multicultural, relata o choque ao assumir sua homossexualidade e a lenta reconciliação com o pai. Também comenta sua imersão em ‘O Vampiro de Niterói’ nos palcos americanos e o peso emocional de viver o caso real de um serial killer que matou 14 crianças. Participante de ‘A Fazenda’, em 2012, ele afirma que o reality foi um aprendizado duro, que o amadureceu, embora se arrependa de ter pedido para sair

*por Vítor Antunes

O início de dezembro traz consigo uma data que permanece urgente: a prevenção ao HIV/ AIDS. Longe do grande surto que marcou os anos 1980 e 1990, mas ainda dependente de discursos que não deixem o assunto cair no silêncio, o tema retorna em um momento em que já se fala em cura e em vacina. A distância histórica, porém, não apaga o fato de que, logo após a descoberta do vírus, viver com HIV era, essencialmente, receber uma sentença de morte. É esse espectro que assombra “Angels in America”, peça na qual Haysam Ali é o único brasileiro a integrar o elenco e que estreia dia 4, no Art of Acting Hollywood. Há mais de uma década morando nos Estados Unidos, ele interpreta um personagem que convive com a condição em plena efervescência dos anos 1980.

Em entrevista exclusiva direto de Los Angeles, o ator, filho de uma família multicultural, cresceu entre códigos distintos — e, por vezes, contraditórios. Ser gay, nesse ambiente, significou para ele enfrentar batalhas que começavam dentro de casa. Haysam analisa os dados atuais que mostram 40,8 milhões de pessoas vivendo com HIV em todo o mundo. Em 2024, dados do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids) indicavam 1,3 milhão de novas infecções e que 9,2 milhões de pessoas ainda não têm acesso ao tratamento.

“Ainda existe um estigma. Não se compreende mais como uma sentença de morte, como era no passado, mas as pessoas têm preconceito. Ainda que haja muitas pessoas indetectáveis e que não se sentem confortáveis em levantar a bandeira e falar sobre o assunto, porque ainda causa um certo desconforto em alguns círculos sociais”, afirma. O personagem que ele interpreta contrai o HIV que rapidamente se torna AIDS, já que os efeitos colaterais da medicação eram terríveis.

Ao revisitar o período, Haysam lembra que uma das medicações mais usadas, o AZT — primeiro antirretroviral aprovado para o tratamento da infecção pelo HIV — era um remédio tão necessário quanto devastador. A própria dificuldade do Governo em reconhecer a condição como patologia agravava o quadro, comprometendo qualquer tentativa de tratamento. “Muita gente morreu naquela época devido a essa falta de entendimento. Cheguei a saber de situações, em pesquisas que fiz, de ambulância que ia buscar o filho de um casal e, quando ele estava desmaiado, tendo uma convulsão, o enfermeiro da ambulância se negou a atender quando soube se tratar de um paciente HIV positivo”.

Haysam Ali mora nos Estados Unidos e está no elenco de montagem sobre homossexualidade e HIV (Foto: Divulgação)

O Boletim Epidemiológico -HIV e Aids- (2024) do Ministério da Saúde aponta que, desde 1980 até 2024, o Brasil contabilizou 1.165.599 casos de infecção, com uma média anual de 36 mil novos casos nos últimos cinco anos.

ASCENDÊNCIA

O pai, libanês e tradicionalista, carregava consigo a memória rígida da cultura de onde viera; a mãe, filha de italianos, nascida no Brasil, movia-se com mais naturalidade entre fronteiras culturais. “Meu pai é libanês, minha mãe é filha de italiano, nascida no Brasil. Eu também nasci em São Paulo, onde morei por anos. Meu pai, ele mudou para o Brasil com 40 anos. Então, eu acho que eu sempre também fui muito bem resolvido no que diz respeito a ser o que e quem eu sou. Mesmo sendo uma pessoa de temperamento, fui muito seguro de mim. Ser homossexual é a minha identidade. Porque dentro da questão da cultura muçulmana, a homossexualidade também é vista de uma maneira complicada”.

Eu tive um desentendimento com meu pai quando me assumi aos 15 anos. Foi bem complicado para ele entender na época. A gente ficou alguns anos sem ter uma relação saudável. Quando fui amadurecendo e entendendo a vida, e tendo outras experiências,  o mundo também foi mudando, e a conversa que tenho com meu pai hoje é bem mais diferente. Ele cresceu no Líbano, em Beirute, e mudou para o Brasil com 40 anos. Ele veio de uma cultura completamente diferente. Então, também precisou do tempo dele para conseguir se ajustar e entender que o mundo não é apenas aquela bolha em que vivia — Haysam Ali

Ter nascido num lar multicultural ajudou o ator a entender sobre identidade (Foto: André Nicolau)

NOS PALCOS, UM SERIAL KILLER

Nos Estados Unidos, Haysam também encarna nos palcos o protagonista de “O Vampiro de Niterói”, peça inspirada na história real de um assassino em série acusado de matar cerca de 14 meninos nas redondezas de Itaboraí, a trinta quilômetros de Niterói, entre abril e dezembro de 1991. Desde 1993, ele cumpre pena em manicômios judiciários. O ator detalha a atração por esse tipo de narrativa: “Sempre gostei de histórias baseadas em fatos reais, porque eu acho que a arte tem o poder de educar e quando a gente tem histórias reais que sirvam de exemplo para mostrar no final formas como a sociedade deveria ou poderia melhorar, eu acho que é sempre válido. Eu sempre fui fascinado em entender a mente humana”.

O mergulho no personagem exigiu mais que técnica. Haysam buscou organizações de antibullying nos Estados Unidos, conversou com especialistas e foi atrás de dados que o ajudassem a compreender a mente dos psicopatas. “Quando eu comecei a fazer a pesquisa para esse personagem, conversei com bastante profissionais de organizações que fazem ações para educar as pessoas. Percebi, pelo que me foi passado, que na maioria dos casos os psicopatas são reflexos do ambiente onde cresceram, principalmente durante a infância”.

haysam Ali vive um serial killer no teatro: (Foto: Andre Nicolau)

A história de Marcelo Costa, o serial killer, veio por meio de uma parceria com o dramaturgo Tiago Santiago. “Foi um personagem muito difícil emocionalmente de trazer para a realidade, porque tudo que ele fez é contra o que eu acredito. E como artista você precisa ser neutro. Então foi bem pesado”, analisa. Acrescenta que dar vida a ele representa uma demanda emocional gigantesca. “Ele não chora, não sente a emoção, e eu estou lá dizendo que ‘matei alguém’. É de embrulhar o estômago de qualquer ser humano. E naquele momento em que eu estou fazendo aquele personagem, o meu lado pessoal não pode vir à tona.” Se a montagem for feita no Brasil, Haysam espera que o impacto vá além do palco: “Eu tenho esperanças de que, quando a peça for ao Brasil, a gente traga um apelo político nesse sentido. Porque uma pessoa como essa não pode ser solta”.

Haysam Ali: Os desafios de viver um personagem à margem (Foto: Divulgação)

SOBRE A PASSAGEM POR ‘A FAZENDA’

Quando fala sobre ter participado de ‘A Fazenda’, em 2012, Haysam Ali tende a tratá-la menos como escândalo e mais como um rito de formação. Foi um momento tumultuado — marcado por polêmicas e pela decisão de deixar o programa antes do fim —, mas ele prefere enquadrá-lo como etapa de um percurso que o amadureceu. “Eu acho que a participação no programa nada mais foi do que um aprendizado que eu levo comigo até hoje, como todas as outras experiências independentes de terem sido positivas ou não”. A dinâmica de confinamento, o tempo real permanente, os estímulos calculados para o conflito — todos esses elementos, que no formato funcionam como combustível narrativo, tiveram impacto particular sobre o ator.

Eu não me arrependo de absolutamente nada do que eu fiz lá, até porque eu acho que não fiz nada de errado. Eu me arrependo de ter pedido para sair, para ser bem sincero. Emocionalmente, eu não estava forte o suficiente para continuar – Haysam Ali

Haysam Ali pediu para sair de “A Fazenda” (2012) [Foto: André Nicolau)

Com o distanciamento do tempo, Haysam identifica o efeito que aquela experiência teve sobre suas escolhas profissionais e relação com o público. O reality não o moldou, mas o alertou para urgências que hoje atravessam seu trabalho. “Ter participado de um reality me deixou mais alerta. Eu sou muito determinado em procurar projetos que tragam, além do entretenimento, uma forma de educar, sempre com esse apoio, seja para nossa comunidade, seja para as pessoas que são emocionalmente mais frágeis, que não tiveram amparo suficiente para conseguir lidar com a crueldade do mundo. Mas eu não acho que o reality é responsável de onde eu estou hoje. Existem sim algumas experiências que eu vivi lá e fora do reality também que me atraem a olhar, que me fazem ser curioso a enxergar alguns temas que são importantes para mim e que eu quero sim trazer comigo junto com todas as performances, se possível, que eu vá fazer nos próximos anos.”

O que se impõe na trajetória de Haysam Ali é menos a soma de performances e mais a constância de uma mesma urgência: transformar a própria história, dos choques culturais da infância à coragem da descoberta pessoal, passando pela exposição de um reality e pelo peso de personagens ligados à violência, em gesto público de elaboração. Entre Los Angeles e Niterói, entre o palco e a memória, ele parece movido por uma ética íntima, a convicção de que a arte ainda pode iluminar zonas que a sociedade prefere manter à sombra. Às vésperas de mais uma temporada, mais uma estreia, mais uma pele emprestada a vidas que pedem ser compreendidas, Haysam permanece onde sempre esteve, no ponto exato em que a ficção encosta na ferida e convida a não desviar o olhar.