*por Luísa Giraldo
O encontro da personagem Gilda, do remake de “Vale Tudo”, com Leticia Vieira parece ter sido premeditado, porém foi apenas uma oportunidade que a artista agarrou para mudar de vida. O papel coloca a atriz em contato direto com Taís Araújo, uma “mãezona”, por conta da relação de acolhimento de Raquel com Gilda, que tentou roubá-la no início da novela quando ainda vendia sanduíche na praia. O contato se intensifica a partir das constantes decepções da cozinheira com Maria de Fátima (Bella Campos), sua filha biológica, que tem vergonha da “pobreza” da mãe. Antes da novela, a artista nascida e criada em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, foi para a Rocinha, atrás de novas oportunidades, onde trabalhou como vendedora ambulante. Uma personagem periférica que teve poucas oportunidades na vida e cresce a partir do trabalho como Raquel, Gilda permite que Leticia mergulhe em seu passado.
Leticia enxerga a história da personagem como um espelho da própria trajetória. “Sou uma menina que veio da favela, assim como Gilda. Trabalhei por um tempo como ambulante e sempre tive muitas pessoas que me deram oportunidades pelo caminho. Tive muitas “Raquéis” na minha vida”. A artista mostra ser grata por cada uma.
Além de Gilda, Leticia se envolveu com outro projeto audiovisual marcante, no qual deu vida à sua primeira protagonista. A série “Vermelho Sangue”, com vampiros e lobisomens, está prevista para ser lançada no serviço de streaming Globoplay. A trama está sendo aguardada pelos fãs e aborda temáticas de mistério, suspense e amor sáfico entre a personagem de Leticia e a da atriz Alanis Guillen. A série foi criada por Rosane Svartman e Cláudia Sardinha. A direção é de Patricia Pedrosa. “‘Vermelho Sangue’ foi meu primeiro trabalho como atriz e minha primeira protagonista. Foi um grande desafio, amadureci muito nesse período. A Luna é uma menina que vira lobo-guará nas noites de lua cheia. Ela se apaixona por Flora, interpretada por Alanis Guillen”, define.
A série ‘Vermelho Sangue’ apresenta uma releitura contemporânea sobre a figura do lobisomem. Com foco na minha personagem, Luna, essa história rompe padrões tradicionais e masculinos da lenda. Traz diálogos super importantes como liberdade, pertencimento e ancestralidade. Estamos ansiosos para colocar esse trabalho no mundo – Leticia Vieira
Gilda é praticamente uma personagem “inédita” no remake de ‘Vale Tudo’. Na primeira versão do folhetim, exibido em 1988, o papel era masculino. Quem deu vida a Gildo foi Fernando Almeida (1974-2004), um dos únicos atores negros no elenco. Ele também era um menor em situação de vulnerabilidade que tentou roubar a protagonista, Raquel (Regina Duarte), mas encontrou um novo rumo ao ser acolhido pela cozinheira.

Fernando Almeida foi Gildo na primeira versão de “Vale Tudo” enquanto Leticia Vieira é Gilda no remake (Reprodução/Instagram)
“Gilda chegou como uma oportunidade de contar a minha história. Essa mudança de gênero enriquece muito a trama, já que a relação da Raquel com a Maria de Fátima é bem complexa”, explica a atriz. E reforça ainda mais o lugar de filha que a Gilda ocupava na vida da Raquel”, opina.
Apesar de haver tantas comparações, a atriz entende que “a responsabilidade de fazer um remake como ‘Vale Tudo‘ é “bem grande, mas não me sinto pressionada e tenho a consciência da expectativa de todos”. A emoção a impulsiona na carga dramática, sobretudo pela oportunidade de revisitação de situações e traumas da própria vida. “Precisei mergulhar muito fundo no meu passado para criar a Gilda. Acessei memórias, conversei com minha família, com meus amigos e com minhas preparadoras”, revela Leticia.

“A personagem Gilda chegou como uma oportunidade de contar também a minha história” (Foto: Bruna Sussekind/Divulgação)
Uma personagem nunca é definida por completo. Estamos fazendo uma obra aberta e eu ainda estou em fase de construção. A Gilda tem me surpreendido muito, e às vezes, deixo que ela me conduza. Permito que meu corpo siga a intuição – Leticia Vieira
Antes de conquistar o papel no remake de “Vale Tudo”, a atriz morou na favela da Rocinha, na Zona Sul do Rio. Nasceu em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, porém saiu de casa em busca de novos horizontes aos 16 anos. Atualmente, Leticia se descreve como “artista suburbana”.
“Tenho muito orgulho de ter vindo de Belford Roxo, e carrego comigo esse chão por onde vou. É de lá que vem toda criatividade que me impulsiona na arte. Cresci em Belford Roxo e boa parte de tudo que sei, aprendi lá. Já a Rocinha é como uma segunda mãe. Foi um lugar que me acolheu por alguns anos. É uma honra representar a periferia, trazer comigo a cultura da favela que é rica!”, atesta ela.
A intérprete se considera um espelho para meninas de origens mais humildes e refuta barreiras como a desigualdade social, o preconceito e a falta de representatividade.
Com a novela no ar, recebo diariamente mensagens de várias meninas contando suas histórias, dizendo que estão se inspirando em mim e na Gilda. Fico tão feliz! Quero reforçar que o nosso lugar no mundo é onde quisermos. Não existem barreiras para os nossos sonhos. Nossas vivências nos coroam como merecedoras de tudo que desejamos ter e ser – Leticia Vieira

“Tenho muito orgulho de ter vindo de Belford Roxo, e carrego comigo esse chão por onde vou” (Foto: Divulgação)
Relação com Taís Araújo
O amor de Raquel (Taís Araújo) por Gilda é praticamente materno. As decepções com Maria de Fátima (Bella Campos) a afastam cada vez mais da filha biológica e abrem espaço para que ela contribua para o crescimento pessoal e profissional da personagem de Leticia Vieira. Felizmente, o carinho transcende às telas.
“Taís é uma amiga, uma mãezona. Amo. A gente se diverte muito no set fazendo as cenas. Acho que o público sente essa energia. É uma alegria danada quando estamos juntas. Taís me ensina sempre: é muito disciplinada, atenta, comprometida e dedicada ao ofício. Observá-la tem sido a minha escola nessa novela”, define.
O trabalho de Taís a inspirou a tomar uma decisão importante para a carreira: a formação profissional como atriz. “Quero estudar e continuar trabalhando. Sinto que a minha intuição me levou muito longe, mas a técnica é indispensável. Em breve, pretendo cursar Artes Cênicas”, compartilha os planos.

Leticia Vieira tem muito orgulho da origem humilde e acredita que Belford Roxo e a Rocinha moldaram sua personalidade (Foto: Foto: Bruna Sussekind/Divulgação)
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